Cultivo https://perfectdailygrind.com/pt/category/cultivo/ Revista digital sobre café, da fazenda à xícara Wed, 05 Jun 2024 19:35:37 +0000 pt-BR hourly 1 https://perfectdailygrind.com/pt/wp-content/uploads/sites/5/2020/02/cropped-pdgbr-icon-32x32.png Cultivo https://perfectdailygrind.com/pt/category/cultivo/ 32 32 Altitude da fazenda: Como ela influencia nas decisões de cultivo? https://perfectdailygrind.com/pt/2024/07/08/altitude-fazenda-cafe/ Mon, 08 Jul 2024 07:01:00 +0000 https://perfectdailygrind.com/pt/?p=14438 Já se sabe há um bom tampo que a altitude exerce uma influência significativa sobre as características sensoriais do café, incluindo aroma, sabor, corpo e acidez, fatores determinantes para sua qualidade e valor comercial.  A relação entre altitude e as propriedades do café se deve principalmente ao impacto do clima na maturação do fruto. Em […]

The post Altitude da fazenda: Como ela influencia nas decisões de cultivo? appeared first on PDG Brasil.

]]>
Já se sabe há um bom tampo que a altitude exerce uma influência significativa sobre as características sensoriais do café, incluindo aroma, sabor, corpo e acidez, fatores determinantes para sua qualidade e valor comercial. 

A relação entre altitude e as propriedades do café se deve principalmente ao impacto do clima na maturação do fruto. Em altitudes superiores a 1500 m, onde as temperaturas tendem a ser mais baixas, o processo de maturação é mais lento, permitindo o desenvolvimento de perfis de sabor mais complexos e nuances aromáticas distintas.

Apesar disso, é importante notar que muitas fazendas operam abaixo dessa marca considerada “ideal” para cafés de alta qualidade. Contudo, isso não implica necessariamente que esses cafés carecem de qualidade. Nesse contexto, é interessante observar a opinião de duas engenheiras agrônomas do Peru, que ressaltam a importância das práticas agronômicas e do processo de beneficiamento na produção de cafés excepcionais. Continue lendo para descobrir o que elas têm a dizer.

Leia também: Como a altitude influencia o café e seu sabor na xícara? 

Cerejas de café cultivado em altitude

Existe uma altitude ideal?

A altitude desempenha um papel fundamental na produção de café, com a faixa ideal para o cultivo da espécie arábica situada entre 800 e 2.100 metros acima do nível do mar. Essas altitudes proporcionam condições climáticas ideais, com temperaturas variando de 17 °C a 23 °C, o que é fundamental para o desenvolvimento adequado dos grãos. No entanto, algumas plantações podem ser encontradas em locais com variações nesse intervalo e sob níveis adequados de precipitação. Elas podem se adaptar por meio da regulação da exposição solar ou do sombreamento, por exemplo.

Fanny Rosario Márquez é engenheira agrônoma tropical e professora na Universidade Nacional Intercultural de Quillabamba, no Peru. Ela destaca que estudos realizados nas fazendas da região demonstraram que os cafeeiros que crescem em altitudes superiores a 1.500 metros acima do nível do mar tendem a receber pontuações mais altas.

Além disso, Fanny explica que, em altitudes mais baixas, a temperatura pode atingir máximas de até 38 °C e mínimas de 22 °C, o que resulta em um período de maturação do fruto de menos de seis meses, considerado o ideal. “Nas áreas mais baixas [do Peru], esse processo ocorre em menos tempo. Quase um mês a menos e, em outros lugares, até um mês e meio. [Nas áreas mais baixas, a colheita acontece em março], mas nas áreas de café de altitude, que estão a 1.500, 1.600 metros, a colheita só começa em maio ou junho”, ela acrescenta.

No estudo conduzido pela equipe de Fanny em 285 fazendas de café em Tunquimayo, Peru, observou-se que os grãos cultivados em maiores altitudes tendem a ser maiores, mais pesados e menos defeituosos. Além disso, outras pesquisas sugerem que cafés de qualidade superior apresentam teores de cafeína menores, os quais diminuem à medida que a altitude aumenta.

Esses achados podem explicar por que o café Robusta ainda é menos popular que o Arábica na cena do café especial. O Robusta é cultivado entre 500 e 1.200 metros, resultando em teores de cafeína consideravelmente mais altos e, consequentemente, sabores mais amargos. No entanto, recentemente, tem-se notado um aumento na apreciação pelo Robusta fino, de qualidade, com suas propriedades distintivas.

fazenda de café situada em grande altitude

Boas práticas para alcançar a qualidade

Haida Gonzáles Soto, engenheira agrônoma tropical que trabalha com produtores de café e cacau em Cusco, Peru, destaca que os cafés cultivados em altitudes acima de 1.500 metros oferecem vantagens competitivas para os cafeicultores. Isso ocorre porque tais cafés desenvolvem excepcionalmente os atributos sensoriais avaliados no protocolo de degustação da SCA, resultando em pontuações mais elevadas.

No entanto, Haida indica que mesmo um café cultivado a 1.200 metros acima do nível do mar, alcançando apenas uma pontuação entre 79 e 80, classificando-se como café de qualidade comercial, pode atingir os 83 pontos, colocando-o na categoria de café especial, se cultivado com boas práticas agronômicas e processamento adequado.

Um estudo que avaliou o perfil de qualidade de 680 amostras de café produzidas em 162 fazendas na Colômbia concluiu que uma boa variedade plantada em áreas elevadas não garantia a qualidade do café. Pelo contrário, a qualidade estava diretamente relacionada com boas práticas de fabricação, boas práticas agrícolas, processos de beneficiamento e secagem.

Então, surge a questão: trata-se da genética da variedade ou do processamento? Embora as características genéticas influenciam na qualidade sensorial, o processamento também desempenha um papel importante.

Consequentemente, um manejo adequado de pragas e doenças, um bom plano de fertilização determinado pela análise do solo, a constante remoção de ervas daninhas que competem por nutrientes e um bom manejo pós-colheita aumentarão significativamente as chances de produzir um café com melhores atributos.

Além da altitude, é importante considerar a latitude, o clima e outros fatores que também desempenham um papel importante. Por exemplo, as Ilhas Galápagos, localizadas em ambos os lados da linha do Equador, possuem fazendas situadas a apenas de 200 a 300 metros acima do nível do mar, com temperaturas em torno de 23 °C, devido à influência da Corrente de Humboldt, que traz ar frio do Chile e Peru. Surpreendentemente, apesar dessas condições, os cafés da região tendem a ser doces e de corpo médio, com notas de caramelo.

folha com ferrugem segurada pela mão de um agricultor

Incidência de pragas e doenças 

No que diz respeito à incidência de pragas e doenças, estas representam uma ameaça significativa para o cultivo do café, a rentabilidade da fazenda e a qualidade do produto final. Cafés cultivados em altitudes mais baixas estão mais suscetíveis a esses problemas.

Fanny explica que a broca e o minador de folhas são insetos que prosperam em cultivos entre 900 e 1.400 metros acima do nível do mar, com uma incidência particularmente alta abaixo de 1.000 metros. “Às vezes, até 80% dos grãos são afetados, pelo menos no caso da broca. No entanto, é importante notar que a broca não é encontrada acima de 1.800 metros, pois não tolera temperaturas baixas”, acrescenta Fanny.

A ferrugem e a cercospora são doenças que afetam plantações de café em diferentes altitudes, mas seu impacto é particularmente devastador entre 900 e 1.400 metros acima do nível do mar. Segundo uma publicação da SCA, as temperaturas entre 21 °C e 25 °C favorecem a proliferação da ferrugem, pois a doença não sobrevive abaixo de 15 °C. Além disso, altos níveis de umidade também são condições ideais para sua propagação.

Fanny acrescenta: “Em cafezais acima de 1.800 metros, podemos encontrar ferrugem, mas não é tão comum. Pode haver uma incidência de 2% a 5%, mas a ferrugem em altitudes mais baixas pode chegar a 100%”. “O surto de ferrugem que ocorreu aqui alguns anos atrás, desde 2012, 2013, até 2016, foi muito forte e obrigou os agricultores a terem que mudar suas culturas”, conta Fanny.

Por outro lado, Haida diz que o fungo Mycena citricolor, conhecido como Olho de Galo, afeta folhas e frutos do café durante todo o seu processo de desenvolvimento e gosta de climas chuvosos, com altos níveis de umidade, nebulosidade e temperaturas mais baixas.

“Uma grande deficiência que temos no setor cafeicultor e cacaueiro é a incidência de pragas e doenças. Definitivamente, isso reduz bastante a produção, o rendimento e a qualidade, o que acaba aumentando nossos custos, porque temos que investir mais recursos na seleção de nossos grãos de café”, comenta Haida.

colheita manual em fazenda situada em grande altitude

Variedade de café ideal por altitude

Uma das decisões mais críticas para um produtor de café é a seleção das variedades a serem cultivadas em sua fazenda. A altitude será um fator determinante para escolher a variedade de café mais apropriada.

Para as plantações situadas em altitudes inferiores a 1.200 metros acima do nível do mar, recomenda-se o cultivo de variedades híbridas de Robusta, como as da família Catimores, devido à sua resistência à ferrugem. Essas variedades também costumam suportar as condições climáticas em altitudes baixas e, se cultivadas com boas práticas agrícolas e de processamento, podem alcançar altas pontuações na xícara. Por exemplo, a variedade Castillo, que pertence a esta família, demonstrou possuir características semelhantes às variedades Typica e Bourbon e tem ganhado espaço no mercado de cafés especiais.

Por outro lado, para as fazendas situadas a mais de 1.600 metros acima do nível do mar, é aconselhável o uso de variedades como Typica e Bourbon, conhecidas pela alta qualidade que podem atingir, com pontuações superiores a 86 na xícara, embora sejam mais suscetíveis à ferrugem. Fanny observa que, em alguns casos, mesmo em áreas com boa altitude e sem grandes problemas de ferrugem, alguns produtores optam por plantar Gran Colombia ou Catimores, que são resistentes à ferrugem.

Adicionalmente, Fanny menciona que alguns cafeicultores têm migrado para outros sistemas de produção mais lucrativos. Aqueles com fazendas situadas em altitudes entre 900 e 1.300 metros acima do nível do mar têm optado pelo cultivo de banana ou cítricos, enquanto os localizados abaixo de 1.000 metros acima do nível do mar têm investido no cultivo de cacau.

No entanto, antes de tomar uma decisão drástica, é importante considerar que a rentabilidade da cultura não depende apenas da altitude, mas de muitas outras variáveis. Haida e Fanny concordam que o café de baixa qualidade já não é rentável para o cafeicultor, pois o mercado especializado está cada vez mais exigente quanto a uma matéria-prima mais competitiva e de alto valor. No entanto, o mercado do café de qualidade comercial pode representar uma oportunidade para garantir a venda dos grãos, pois nesse segmento a rentabilidade depende de fatores como os custos de produção, a volatilidade dos preços, o rendimento dos cafeeiros, entre outros.

vista de uma área de fazenda localizada em grande altitude

Explorando a relação entre o solo e a altitude

A altitude também determina as condições do solo. Haida diz que em altitudes elevadas, os solos têm a vantagem de apresentar uma acidez moderada e são mais ricos em matéria orgânica devido ao alto grau de umidade, maior sombra e menos desmatamento. Em contraste, nas áreas de baixa altitude, a densidade de sombra por hectare é menor nas parcelas e a erosão é maior, o que significa que o solo exigirá uma maior adição de nutrientes. No entanto, Fanny considera que não se pode generalizar por existirem algumas altitudes baixas com uma maior quantidade de matéria orgânica.

Ela diz que a implementação de um sistema agroflorestal é uma alternativa eficiente para revitalizar os solos. Os cafezais cultivados sob sombra desempenham um papel importante ao contribuir para a manutenção da fertilidade do solo, a redução da erosão, o reciclo de nutrientes e o fornecimento abundante de matéria orgânica. Na prática da agrofloresta, são considerados diversos fertilizantes orgânicos, como o vermicompostagem (polpa de café processada com minhocas) e o composto de polpa, que têm o potencial de melhorar a qualidade do solo.

Fanny comenta que “Se a adição de matéria orgânica for aprimorada, seja por meio de compostagem em qualquer altitude, isso terá um impacto significativo tanto no rendimento quanto na qualidade do café”.

Em um estudo conduzido nas regiões de Paraíso, a 1.325 metros acima do nível do mar, e Turrialba, a 602 metros acima do nível do mar, duas importantes áreas cafeicultoras da Costa Rica, foi avaliado o efeito da sombra em relação à altitude, utilizando nove tipos de fertilizantes orgânicos em um viveiro.

Foi observado que as mudas de café cultivadas com os fertilizantes mencionados apresentaram um crescimento mais robusto sob sombra em ambas as altitudes. Entre os tratamentos avaliados, destacaram-se o vermicompostagem, a polpa de café e o bokashi, (composto por uma mistura de casca de arroz, carvão, cal agrícola, melaço, semolina de arroz e esterco de galinha).

Apesar do crescimento vigoroso das plantas em ambas as altitudes, as mudas em altitudes mais baixas demonstraram um crescimento mais acelerado. No entanto, também enfrentaram uma maior desfolha e foram mais afetadas pelo fungo Cercospera coffeicola.

Influência da altitude na secagem

Dependendo da altitude, os processos de fermentação e secagem do café podem ser prolongados ou acelerados. Haida explica que em altitudes baixas, a fermentação é rápida e pode durar entre 8 e 14 horas. Por outro lado, nas áreas mais altas, a temperatura diminui durante a noite, estendendo o processo para um período que pode variar de 14 a 22 horas.

Além disso, em altitudes mais elevadas, o tempo de secagem será maior devido a uma maior incidência de chuvas. A secagem é uma das etapas críticas do café por afetar diretamente os atributos sensoriais da xícara final. Por essa razão, requer um maior controle.

Haida recomenda o uso de estufas, galpões ou secadores com fitotoldos (regulam a luz solar e protegem contra o excesso de calor e os raios UV) para secar os grãos, a fim de reduzir o impacto das flutuações de temperatura, já que o café é sensível às condições meteorológicas extremas.

No entanto, não há uma relação direta entre a altitude e a qualidade do grão. Em uma pesquisa realizada no vale do Alto Mayo, no Peru, foram selecionadas cinco fazendas em diferentes altitudes (873, 1.079, 1.248, 1.348 e 1.430 metros acima do nível do mar). O café foi submetido à secagem tradicional e à secagem mecânica. Os resultados mostraram que, quanto maior a altitude, maior era o tempo de secagem em ambos os métodos, mas isso não afetava a qualidade.

Saiba como a gestão da água influencia a produtividade do café

Conhecer a altitude da fazenda pode ajudar os cafeicultores a tomarem as melhores decisões em relação à produção de seu café. A escolha da variedade, a nutrição do solo e da cultura, o controle de pragas e doenças e a margem de lucro serão determinados pelas condições geográficas da fazenda.

É importante ressaltar que uma plantação que se encontra abaixo de 1500 metros acima do nível do mar pode produzir café de qualidade especial. Dominar o controle da sombra, escolher os insumos agrícolas apropriados e seguir as boas práticas de processamento farão com que seu café se destaque por sua singularidade e conte a história de sua fazenda.

Você gostou deste artigo? Então leia sobre Como o mapeamento de campo aumenta o lucro dos cafeicultores.

Créditos das imagens: Tatiana Guerrero

PDG Brasil

Tradução Ana Mercedes Fernández

Quer ler mais artigos como este? Assine a nossa newsletter!

The post Altitude da fazenda: Como ela influencia nas decisões de cultivo? appeared first on PDG Brasil.

]]>
Por que mais produtores de café estão optando por diversificar suas lavouras? https://perfectdailygrind.com/pt/2024/07/01/cafe-diversificar-producao/ Mon, 01 Jul 2024 07:05:00 +0000 https://perfectdailygrind.com/pt/?p=14423 Durante séculos, muitos produtores têm cultivado café com outras plantações agrícolas de rendimento por uma série de razões. Mas nos últimos anos, com as mudanças climáticas, um mercado cada vez mais volátil e a crescente concorrência internacional, os cafeicultores tiveram que explorar outras maneiras de diversificar. Muitos produtores não conseguem assumir muito risco, na maioria […]

The post Por que mais produtores de café estão optando por diversificar suas lavouras? appeared first on PDG Brasil.

]]>
Durante séculos, muitos produtores têm cultivado café com outras plantações agrícolas de rendimento por uma série de razões. Mas nos últimos anos, com as mudanças climáticas, um mercado cada vez mais volátil e a crescente concorrência internacional, os cafeicultores tiveram que explorar outras maneiras de diversificar.

Muitos produtores não conseguem assumir muito risco, na maioria porque já estão operando em níveis que mal lhes permitem sobreviver. Mas uma das várias maneiras de se adaptar com sucesso é a diversificação de culturas — uma prática agrícola na qual os produtores cultivam diferentes culturas que não competem por nutrientes e recursos semelhantes aos do café. 

A diversificação de culturas usa técnicas como o plantio consorciado, cultivo de cobertura e rotação de culturas para não apenas apoiar melhor os ecossistemas locais, mas também para melhorar os meios de subsistência socioeconômicos dos agricultores.

Então, por que e como mais produtores de café estão diversificando suas plantações? Conversei com Martin Mayorga, fundador e CEO da Mayorga Coffee, e Juan Ramón Cruz García, gerente nacional da Mayorga Coffee na Nicarágua, para saber mais.

Você também pode gostar de nosso artigo sobre por que os relacionamentos são mais do que apenas pagar um bom preço por um café especial.

Produtor que optou por diversificar sua lavoura com plantação de chia

POR QUE A DIVERSIFICAÇÃO DE CULTURAS É PARTE INTEGRANTE DA AGRICULTURA SUSTENTÁVEL

Juan Ramón Cruz García é o gerente nacional da Mayorga Coffee na Nicarágua – uma torrefadora de café com foco no apoio a práticas de agricultura orgânica sustentável e na elevação de pequenos produtores na América Latina. Ele me explica o que é diversificação de culturas. “A prática envolve a rotação de diferentes culturas ao longo das estações ou anos para evitar as armadilhas da agricultura de monocultura”, diz ele. 

Para contextualizar, a agricultura de monocultura é a prática de cultivar um tipo de cultura em um pedaço de terra a qualquer momento. Embora tenha alguns benefícios, há certamente desvantagens nesses métodos — incluindo a degradação do solo.  “Como o café não é uma cultura rotativa, os produtores de Mayorga buscam outros métodos para diversificar”, acrescenta Juan.

Práticas comuns

À medida que mais e mais consumidores exigem café cultivado de forma sustentável, os produtores estão aproveitando seus conhecimentos para implementar práticas agrícolas eficazes que incorporem a diversificação das culturas.

O consórcio é uma delas. Conforme o programa de Pesquisa e Educação em Agricultura Sustentável, o consórcio é um termo abrangente para a prática de cultivar duas ou mais culturas nas proximidades — na mesma fileira ou leito, ou em fileiras, ou faixas que estão próximas o suficiente para interação biológica.

Há uma série de benefícios no consórcio, como maximizar a produtividade agrícola e incentivar o uso mais eficiente dos recursos — como água, luz e nutrientes. Ao longo do tempo, em comparação com os sistemas de monocultura, o consórcio também pode aumentar os rendimentos e melhorar a resiliência das plantas a pragas e doenças, bem como levar ao aumento da biodiversidade (que tem suas próprias vantagens).

A saúde do solo é essencial para a produção de café de qualidade, e a diversificação de culturas por meio do consórcio pode conservar e melhorar a saúde do solo. No mais, essa técnica de cultivo sustentável pode reduzir a erosão do solo e aumentar a matéria orgânica, a fixação de nitrogênio e a disponibilidade de fósforo.

Além do consórcio, outras técnicas incluem o plantio de culturas de cobertura e tampão, que fornecem cobertura de sombra e proteção contra o vento, geada e calor.

Produtores de café em meio à lavoura

POR QUE A DIVERSIFICAÇÃO DE CULTURAS?

Indiscutivelmente, a razão mais óbvia para implementar práticas de diversificação de culturas é melhorar a sustentabilidade na fazenda e aumentar a resiliência dos produtores de café às mudanças climáticas — uma questão que se tornou cada vez mais difícil de ignorar.

Martin Mayorga é o fundador e CEO da Mayorga Coffee. “As mudanças climáticas e os custos internos mais altos estão afetando muito a produção”, ele me diz. “Estar preparado para o impacto é uma realidade importante, infelizmente.” 

Um crescente corpo de pesquisa certamente apoia isso. Em um artigo da National Geographic de 2022, um estudo descobriu que, com café, abacate e castanha de caju, a produção de café será a mais atingida pelo aumento das temperaturas globais.

Descompactando o nexo de problemas

No entanto, não são apenas as mudanças climáticas que estão forçando os produtores de café a diversificar suas práticas agrícolas. Um mercado de café cada vez mais volátil tem visto o preço C atingir níveis quase recordes recentemente, embora os pequenos agricultores ainda não tenham recebido mais dinheiro. Como resultado, muitos estão se voltando para outras culturas comerciais.

Além disso, com os níveis de migração rural para urbana nos países produtores  em ascensão — além de uma crescente diferença de idade na cafeicultura — está se dificultando reter trabalhadores qualificados nas fazendas de café. Portanto, para muitos produtores de café, essas questões complexas e inter-relacionadas levantam preocupações sobre um futuro sustentável para suas famílias e meios de subsistência. Além disso, surtos devastadores de doenças como a ferrugem mostram como a produção global de café pode ser vulnerável.

“Para os produtores, a terra é um ativo e o objetivo é maximizar a produção desse ativo”, diz Martin. Ele me diz que, após a epidemia de ferrugem de 2013 — que eliminou até 70% das colheitas dos cafeicultores latino-americanos — a Mayorga Coffee trabalhou com produtores no norte da Nicarágua para plantar sementes de chia como um meio de manter sua renda.

A empresa inicialmente ajudou 12 produtores de café a incorporar a chia em suas terras agrícolas, mas agora administra cerca de 840 produtores de chia na Nicarágua e expandiu o projeto para trabalhar com outros agricultores no Paraguai e no México para atender à crescente demanda.

Ao diversificar suas culturas, os agricultores conseguiram maximizar a eficiência agrícola de suas terras e seu retorno financeiro, impedindo-os de abandonar completamente a produção de café.

Diversificar a lavoura pode ser interessante para trazer sustentabilidade e retorno financeiro

Diversificação de culturas e segurança financeira

O cultivo de vários tipos diferentes de culturas comerciais significa que os produtores podem diversificar seus fluxos de renda — o que é uma ferramenta útil para combater os baixos preços do café e a insegurança alimentar.

Juan explica que a produção de café por si só geralmente não ajuda a maximizar a produtividade da terra ou a gerar uma renda estável. Ele diz que isso ocorre porque o café é colhido apenas uma vez por ano e sua lucratividade é baseada em um mercado C volátil — portanto, os preços geralmente flutuam e permanecem baixos.

Em vez disso, Juan diz que plantar uma variedade de culturas adaptadas aos ecossistemas locais — como banana, abacate e árvores de madeira — pode produzir mais produtos em épocas de colheita mais curtas. 

Com o nível certo de apoio e recursos, a diversificação das culturas pode ajudar os produtores de café a trabalhar em harmonia com suas terras e permitir que se tornem mais autônomos financeiramente.

Diversificação de culturas e agricultura orgânica andam de mãos dadas

No contexto da agricultura sustentável, a agricultura orgânica costuma ser o tema mais discutido. Mas o papel crucial que as práticas orgânicas desempenham na diversificação bem-sucedida de culturas é geralmente ignorado.

Martin reforça que os cafeicultores devem considerar diversificar suas fazendas e obter certificação orgânica ao mesmo tempo, pois ambos os sistemas são baseados em princípios semelhantes. “Sempre fico chocado com o fato de a agricultura orgânica não ser a norma, porque nos próximos dez a 15 anos os produtores terão problemas com a produção de café se não forem apoiados na transição”, diz ele. “Se você for a qualquer fazenda orgânica, o solo é saudável e úmido. Em fazendas convencionais, no entanto, o solo é seco. Não fornece nutrição às plantas.”

Obtendo certificações orgânicas

Para se certificar como orgânico, os produtores devem aderir a um conjunto rigoroso de padrões e práticas, incluindo:

  • o não uso de fertilizantes químicos e sintéticos, pesticidas e herbicidas;
  • implementar práticas que mantenham a saúde do solo e a biodiversidade;
  • o não transbordamento de produtos químicos usados para culturas não orgânicas.

Embora possam ser caras, as certificações orgânicas trazem uma série de benefícios. Os produtores de café não apenas podem provar seu compromisso com a gestão ambiental para comerciantes, torrefadores e consumidores, mas a qualidade e os rendimentos também podem melhorar. Além disso, seu retorno econômico sobre o investimento pode aumentar significativamente a longo prazo – um sentimento que a Mayorga Coffee apoia. “É surpreendente para mim quantos produtores querem receber mais e querem ter uma produção melhor, mas não se concentram em melhorar a saúde do solo”, diz Martin. 

“Como indústria, esquecemos que pedimos às pessoas que cultivam nossos alimentos que pulverizem produtos químicos em suas próprias terras. Eu pessoalmente descarto qualquer torrefador que não venda exclusivamente café orgânico quando eles dizem que se importam com os produtores. Não acho que podemos dizer que nos importamos com os produtores quando os vemos envenenar suas terras, eles mesmos e suas comunidades”, ele acrescenta.

Por esse motivo, a Mayorga Coffee começou a vender café orgânico em 1999 e obtém exclusivamente café orgânico certificado desde 2012. Martin explica que o torrefador trabalha principalmente com cooperativas. E independentemente disso também apoia produtores individuais a receber certificações orgânicas. Isso além de oferecer acesso a assistência agronômica e treinamento para diversificar com sucesso suas culturas.

Produtor de café que optou por diversificar sua lavoura tem sementes de chia na palma da mão

COMO OS PRODUTORES PODEM COMEÇAR A DIVERSIFICAR SUAS PLANTAÇÕES?

A transição para a diversificação de culturas não é uma tarefa fácil. Sendo assim, os produtores precisam certamente de apoio de outros atores da cadeia de suprimentos. Juan me diz que o modelo de comércio direto da Mayorga Coffee, por exemplo, fornece aos pequenos produtores assistência técnica, sementes e acesso a compradores internacionais.

Atualmente, Mayorga se concentra em dois programas de diversificação de culturas: sementes de chia e feijão-preto. Mas há planos de diversificar para outras culturas que proporcionarão uma melhor renda para os produtores. O cultivo intercalado de grãos com café promove o controle natural de pragas e a boa saúde do solo, bem como o aumento da produtividade. E é por isso que Mayorga decidiu ajudar os agricultores a plantar os dois juntos.

“Os rendimentos dos produtores de café e sua capacidade de gerar renda mais do que dobraram ao cultivar chia”, diz Martin. “A produção de chia para nossos produtores na Nicarágua aumentou de um contêiner em 2012 para cerca de 50 em 2023. Em toda a empresa, moveremos cerca de 170 contêineres de chia em 2024.” 

Compreender o mercado de culturas diversificadas pode ser um desafio para muitos produtores. Martin explica que é importante que os compradores entendam quando seus serviços agregam mais valor a uma comunidade agrícola e quando não o fazem. E que nem todas as tentativas de diversificar os mercados funcionam.

Finalmente, acompanhar as tendências emergentes – mas estáveis – do mercado é importante. Martin me diz que Mayorga está trabalhando continuamente ao lado dos produtores para testar novos produtos, como cúrcuma e quinoa.

O que os produtores devem saber de antemão?

Juan sugere que os produtores devem primeiro priorizar a determinação de quais práticas agrícolas funcionarão melhor para manter a saúde do solo. Em segundo lugar, diz ele, eles devem considerar quais culturas o mercado está exigindo, ao mesmo tempo em que equilibram culturas altamente valiosas com aquelas que crescem melhor com o café.  Além disso, Juan me diz que cacau, gengibre, cúrcuma e grãos crescem bem em fazendas de café de baixa altitude. Já a chia pode crescer em áreas de sol pleno.

Mais importante, no entanto, Martin diz que os compradores não devem incentivar os produtores a plantar culturas e variedades de café promissoras sem apoio. “Independentemente das sugestões que estamos fazendo aos produtores, elas precisam fazer parte de um diálogo. E também entender o que é preciso fazer e o custo disso”, acrescenta. “E é melhor que os torrefadores estejam prontos para comprar e se comprometer.”

Produtores de café ao lado do fundandor da Mayorga Coffee

A diversificação de culturas aproveita gerações de conhecimento local e nativo para promover a biodiversidade e reforçar a estabilidade econômica dos produtores. E isso leva a uma ampla gama de benefícios.

Mas a transição para a adoção e implementação dessas práticas deve ser feita de forma completa e cuidadosa. E, além disso, contar com o apoio de comerciantes e torrefadores comprometidos com a construção de relacionamentos mutuamente benéficos.

Gostou? Em seguida, leia nosso artigo sobre como a diversificação de culturas pode combater os baixos preços do café.

Créditos das fotos: Mayorga Coffee

Tradução: Daniela Melfi.    PDG Brasil

Observação: a Mayorga Coffee é patrocinadora do Perfect Daily Grind.

Quer ler mais artigos como este?  Assine a nossa newsletter!

The post Por que mais produtores de café estão optando por diversificar suas lavouras? appeared first on PDG Brasil.

]]>
Tipos de poda e seu impacto nos ciclos de produção do café https://perfectdailygrind.com/pt/2024/06/17/tipos-de-poda-cafe/ Mon, 17 Jun 2024 07:03:00 +0000 https://perfectdailygrind.com/pt/?p=14389 Os tipos de poda são fundamentais para os ciclos de produção do café, afetando diretamente a longevidade e a produtividade das plantas. Em sistemas empresariais, como os praticados no Brasil, são usadas podas escalonadas para renovar os tecidos das plantas, enquanto pequenos produtores enfrentam desafios diferentes. Nos sistemas empresariais, a poda escalonada é feita quando […]

The post Tipos de poda e seu impacto nos ciclos de produção do café appeared first on PDG Brasil.

]]>
Os tipos de poda são fundamentais para os ciclos de produção do café, afetando diretamente a longevidade e a produtividade das plantas. Em sistemas empresariais, como os praticados no Brasil, são usadas podas escalonadas para renovar os tecidos das plantas, enquanto pequenos produtores enfrentam desafios diferentes.

Nos sistemas empresariais, a poda escalonada é feita quando os cafezais estão na fase descendente de seu ciclo produtivo. Já para pequenos produtores, uma poda tão drástica significaria três anos sem renda até as plantas voltarem a produzir. O tempo e a produtividade mostram que, para alcançar o primeiro ano de produção, as plantas precisam de três anos de crescimento. Esse período é mais longo em variedades arábicas, podendo atingir até 70% ou mais.

Nos cafeeiros híbridos, como Parainema, Ihcafe 90 ou Lempira, o pico de produção é alcançado no quinto ano. Para essas variedades, foram introduzidos sistemas de poda em diferentes alturas para manter a produtividade e regenerar os tecidos em 17 meses, em vez dos três anos anteriores.

Para mais informações sobre tipos de poda e técnicas recomendadas, entrevistamos José Arnold Paz, engenheiro-agrônomo e chefe de controle de qualidade da Finca Santa Elena, e Juan Carlos Vega, gerente da empresa consultora Triple I Consulting no Equador.

Leia também: Como garantir a nutrição da lavoura de café?

O propósito da poda dos cafeeiros

Os cafeicultores precisam conhecer bem o tipo de material em suas fazendas. Com base nisso, podem avaliar, no pico da colheita, se a planta está bem folheada e se os ramos são produtivos.

O café é um capital importante para os produtores e pode ser comercializado antes mesmo da colheita, através do modelo de futuros. Em Honduras, várias técnicas de manejo de tecidos foram desenvolvidas para garantir a produtividade contínua. Arnold explica que as podas são feitas principalmente para renovar os tecidos e eliminar partes não produtivas. A escolha do tipo de poda depende da variedade de café. Se a variedade for arábica, as podas serão mais delicadas do que para híbridos.

A poda do ramo principal instrui a planta a crescer e produzir frutos. Com base na experiência dos entrevistados, apresentamos a seguir uma síntese dos tipos de poda mais comuns na cafeicultura tecnologizada.

Podas de formação

Arnold destaca que a poda de formação é sutil, já que se deve manejar a planta por eixos. Se a poda acontecer no quarto eixo, a planta para de crescer, mas continua a se desenvolver, resultando em uma planta semelhante a um bonsai. Quando a poda é no quinto eixo, a planta se desenvolve, mas não cresce, levando ao surgimento de brotações ao nível do solo, que podem afetar a qualidade do café.

Portanto, as podas de formação não devem ser realizadas sem um plano de manejo e devem estar alinhadas com a intenção do cafeicultor, seja para obter plantas menores ou para um controle contínuo.

Arnold aconselha a evitar podas antes do décimo eixo, para focar mais nos ramos produtivos do que no eixo central da planta. Isso ajuda a combater a bianualidade e promove uma produção mais estável.

O Agobio

Essa prática veio para estimular o crescimento das raízes e dos eixos. No entanto, as brotações resultantes frequentemente se transformavam em ramos produtivos, reduzindo a produtividade em até de 30 a 40%. 

A magnitude dessa perda nem sempre era fácil de quantificar, pois uma mesma planta podia ter três a quatro eixos em produção simultaneamente. Essas brotações, que se tornavam plantas produtivas, afetavam a gestão da nutrição e da produção, levando à descontinuação dessa prática em Honduras.

Juan Carlos compartilha uma experiência exitosa na Nicarágua, onde o manejo da variedade Java em quatro eixos resultou em uma produção gerenciada até o quarto ano, com alternância de eixos para garantir sustentabilidade na produção.

Podas para renovação da produção

Manejo de eixos

À medida que as plantas de café envelhecem ou atingem uma certa altura, é comum que elas se bifurquem em dois ramos a partir do mesmo eixo. No entanto, um desses ramos não é produtivo e depende da planta mãe para sustentação, o que reduz a capacidade da planta de produzir frutos.

Falando sobre o manejo em dois eixos, Arnold explica que, em Honduras, é comum plantar duas mudas no mesmo local, o que resulta em um crescimento conjunto das duas plantas, criando uma aparência de densidade e folhagem. No entanto, esse sistema apresenta um problema: quando o ramo produtivo encontra a outra planta, ele automaticamente para de crescer.

Isso significa que cada planta terá apenas ¾ do crescimento esperado, com ¼ que não desenvolve frutos. Como resultado, a produção cai cerca de 25%, o que equivale a sete libras em vez das dez ideais. Além disso, os custos de fertilização aumentam, por ser preciso fertilizar duas plantas em vez de uma.

Quando fazemos a eliminação do ápice no viveiro ocorre uma reação na qual a planta forma uma bifurcação com dois ramos. Deve-se eliminá-los com um corte feito onde a cor marrom do caule adulto termina e o verde do caule em formação começa. Isso permite a remoção dos “filhos” e instrui a planta a continuar crescendo para cima.

Quanto ao manejo de eixos, existe um debate em andamento. Juan Carlos, por exemplo, recomenda o manejo em dois eixos porque permite controlar uma parte da planta produtiva enquanto a outra está em processo de renovação. Isso garante uma colheita contínua durante os trabalhos de renovação dos tecidos e pode ser mais simples e gerenciável para pequenos e médios produtores.

Poda a um metro e cinquenta

Após uma avaliação visual, o produtor deve garantir que cada planta tenha 25 ramos principais, cada um com 25 a 30 folhas, para amadurecer aproximadamente 4,5 kg de frutos. Se a planta não estiver bem folheada, deve-se podar a uma altura de 1,50 metros, ativando a ordem genética da planta para se encher de folhas.

Poda de produção a um metro e setenta

Quanto mais herança genética de arábica o cafeeiro possui, maior será a tendência à bianualidade. Isso significa que, em um ano, o ramo principal produzirá desde o caule até quase 70% dos ramos, enquanto no ano seguinte a produção ocorrerá na parte apical, ou seja, cerca de 30% da parte externa ou final do ramo.

Devido a essa alternância na produção, os produtores frequentemente observam que um ano é bom em termos de produção e o seguinte é ruim. Para mitigar esse padrão, recomenda-se alterar a altura da poda. Ao realizá-la a 1,70 metros, a planta recebe a instrução genética para alongar-se.

Dessa forma, é possível interromper seu desenvolvimento vertical, estimulando o crescimento lateral. Isso promove o desenvolvimento dos ramos secundários e terciários. Com esse crescimento, o ramo principal recebe mais luz solar, suporta mais peso e, o mais importante, os 30% de produção esperados pela bianualidade se compensam com os ramos da parte apical.

Outros tipos de poda

  • Ventaneo: Essa poda ajuda na aeração da planta, melhorando a respiração e a transpiração. Estimula o crescimento de ramos secundários e terciários, aumentando a produção. Juan Carlos recomenda essa prática para pequenos e médios produtores, apesar do manejo manual difícil de mecanizar.
  • Poda rock and roll: Este método envolve cortar o caule da planta entre 76 e 90 centímetros do nível do solo, deixando os ramos e brotos abaixo do corte. A altura do corte depende do estado de deterioração da planta.
  • Poda de esqueletamento:  Consiste na eliminação de todos os ramos primários a uma distância de 10 a 15 centímetros da base do caule principal. Em seguida, permite-se que todos os brotos que se formarem nos ramos se desenvolvam. O novo crescimento levará 19 meses para se tornar produtivo. É importante deixar uma porção dos ramos terminais da árvore durante a colheita de café, o que ajuda os produtores a não perderem completamente a safra.

Recomendações gerais

Para aplicar podas, o pequeno produtor deve adotar uma abordagem semelhante à do grande produtor, gerenciando os fluxos em parcelas e emulando o sistema em sua escala. O pequeno produtor deve se especializar e ser seletivo ao realizar podas por planta ou por sulco.

Por exemplo, se ele maneja 3500 plantas por bloco ou 5000 plantas por hectare, deve considerar que ¾ da fazenda deve se manter produtiva e ¼ em renovação. Dessa forma, ele conseguirá renovar o cafezal em quatro anos sem perder produção.

O manejo de tecidos se faz, às vezes, aos três anos, outras vezes aos cinco e, raramente, aos oito, dependendo da variedade e da fazenda. Portanto, é crucial conduzir as podas seletivas com critério e conhecimento.

Ambos entrevistados destacam que o manejo de eixos ainda gera muitos debates, mas concordam que o objetivo da poda tecnificada é reduzir a bianualidade produtiva do cafeeiro.

Por isso, é importante se familiarizar com a fisiologia do café e organizar-se estrategicamente para coordenar as épocas do ano e interpretar as necessidades de poda em cada variedade. Todo esse conhecimento, muitas vezes, chega até o produtor por tentativa e erro, até desenvolver o discernimento específico ao longo do tempo e da prática, mas sem dúvida, vale a pena.

Gostou deste artigo? Então leia sobre Como calcular a produção anual do cafeeiro.

Créditos das imagens: Tripe I Consulting, Finca Santa Elena, Francisco Enriquez, IHCAFE.

PDG Brasil

Traduzido por Ana Mercedes Fernández

Quer ler mais artigos como este? Assine a nossa newsletter!

The post Tipos de poda e seu impacto nos ciclos de produção do café appeared first on PDG Brasil.

]]>
Fertilização e produção de adubos orgânicos a partir de plantas https://perfectdailygrind.com/pt/2024/05/31/adubos-organicos-cafe/ Fri, 31 May 2024 07:02:00 +0000 https://perfectdailygrind.com/pt/?p=14340 A nutrição das plantas de café é fundamental para garantir a sustentabilidade das fazendas a cada ciclo de produção. Durante a colheita, retiramos as cerejas e o material vegetal, esgotando os nutrientes do solo. Portanto, é crucial repor esses nutrientes (minerais) para manter a saúde do solo e garantir a sustentabilidade do sistema e os […]

The post Fertilização e produção de adubos orgânicos a partir de plantas appeared first on PDG Brasil.

]]>
A nutrição das plantas de café é fundamental para garantir a sustentabilidade das fazendas a cada ciclo de produção. Durante a colheita, retiramos as cerejas e o material vegetal, esgotando os nutrientes do solo. Portanto, é crucial repor esses nutrientes (minerais) para manter a saúde do solo e garantir a sustentabilidade do sistema e os recursos. 

As necessidades nutricionais das plantas de café variam segundo a fase fenológica da cultura. Para o enraizamento, desenvolvimento e engrossamento do grão, diferentes minerais são exigidos em quantidades variadas. Nesse sentido, é importante entender como os adubos orgânicos podem contribuir para suprir essas necessidades.

Conversei com especialistas como Michael Montalván, gerente da Cooperativa Agrária Cafeeira La Prosperidad de Chirinos, no Peru, e Edgar Blandón Suarez, gerente da empresa familiar Sol y Luna, na Colômbia, para compreender o impacto e a eficácia dos adubos orgânicos nesse processo.

Leia também: Requisitos técnicos e boas práticas para a exportação de café

Resíduos da cafeicultura que serão usados na produção de adubo orgânico

Tipos de agricultura nas fazendas

Em termos de mudanças climáticas, cerca de 30% da responsabilidade pela emissão de CO₂ é atribuída ao setor agrícola. Diante desse cenário, surgiram diferentes abordagens na agricultura. Uma dessas abordagens é o uso de insumos naturais, tanto os próprios da fazenda quanto os introduzidos para o tratamento e fabricação de adubos orgânicos. Essas técnicas estão enraizadas em uma consciência ambiental e social, buscando assegurar a sustentabilidade do sistema produtivo e a segurança alimentar baseada na diversificação.

Por outro lado, existe a prática da agricultura mista, que combina o uso de insumos da própria fazenda para fabricar adubos orgânicos com a complementação de suplementos químicos para evitar deficiências ou desequilíbrios nutricionais. Esta prática é mais comum e amplamente adotada. No entanto, é desafiador estabelecer um plano de nutrição sem uma análise prévia do solo. Dado que cerca de 80% do café mundial é produzido por pequenos produtores, muitas vezes não é viável arcar com os custos de várias análises laboratoriais.

Nesse contexto, países produtores têm desenvolvido mapas de solos detalhados, que incluem informações sobre textura, fertilidade e recomendações padronizadas por setores, climas, tipos de solo e variedades, especificamente adaptadas às localidades cafeeiras. Além disso, o cooperativismo desempenha um papel crucial nesse contexto. Por exemplo, no Peru, o ele foi fundamental para liderar o mercado mundial de café orgânico certificado, como mencionado por Michael.

Produtor de cafés que aposta no uso de adubos orgânicos

Como produzir adubos orgânicos?

O cultivo de café é conhecido por gerar uma abundância de subprodutos que os produtores estão aprendendo a reaproveitar como adubos orgânicos nas fazendas. Entre eles, os principais são a polpa do café, seguida pelo material resultante das podas e pelas águas-mel, com a consideração adicional do material vegetal circundante ou proveniente da agrobiodiversidade da fazenda.

Edgar ressalta a importância da realização de uma análise laboratorial dos adubos orgânicos fabricados localmente. Isso determina a quantidade de nutrientes presente nos adubos, seguindo uma abordagem similar à aplicada aos fertilizantes comerciais. Assim se tem acesso a informações detalhadas sobre o conteúdo de nutrientes e minerais, ajudando a calcular a quantidade de adubo necessária por planta em comparação com o conteúdo do solo.

Por essa razão, ele sugere padronizar os protocolos de fabricação dos adubos orgânicos e assim garantir que o conteúdo de nutrientes permaneça consistente entre diferentes lotes de fabricação. Isso implica listar os insumos e materiais empregados, sejam de origem animal, vegetal ou mineral, um processo facilitado ao nível de associações de classe.

Ao fabricar qualquer tipo de adubo orgânico, é essencial considerar uma fonte de nitrogênio, como material vegetal de espécies leguminosas ricas em nitrogênio ou esterco animal, e uma fonte de carbono, geralmente proveniente dos resíduos da colheita, como a polpa do café, galhos e restolhos. Além disso, a relação carbono/nitrogênio deve ser considerada para garantir a qualidade do adubo, juntamente com a incorporação de outros ingredientes acessíveis que podem variar conforme a localidade, como cal, cinzas e micro-organismos.

Os fatores fundamentais que intervêm durante a fabricação dos adubos orgânicos são a temperatura, o oxigênio e a umidade. Esses elementos condicionam a ação dos micro-organismos responsáveis pela decomposição da matéria orgânica e sua transformação em adubo rico em nutrientes assimiláveis para as culturas.

Técnicas mais utilizadas para a fabricação de adubos orgânicos:

  • compostagem: este método envolve um processo aeróbico de transformação natural de resíduos orgânicos. Por meio da ação dos micro-organismos presentes no solo, esses resíduos são convertidos em adubo orgânico, pronto para fornecer nutrientes e ser aplicado diretamente no cafezal;
  • bokashi: esta técnica, originária do Japão, envolve um processo de fermentação aeróbica que acelera a degradação da matéria orgânica pela ação da temperatura;
  • biofertilizante: resultado de um processo anaeróbico, este adubo líquido é rico em fito-hormônios;
  • vermicompostagem ou húmus de minhoca: tem origem na ação da minhoca-vermelha-da-califórnia (Eisenia foetida), sendo rico em nutrientes e um excelente melhorador de solo.

Custos e desperdícios: benefícios dos adubos orgânicos

Independentemente do método de produção agrícola praticado, o uso de adubos orgânicos representa um alívio para a economia da fazenda, considerando especialmente a volatilidade dos preços dos fertilizantes introduzidos, sejam de origem química ou de rótulo verde. É importante observar que práticas como o plantio sob exposição solar direta e em densidades mais altas podem demandar um maior consumo de fertilizantes.

Embora vários estudos indiquem uma maior rentabilidade dos fertilizantes químicos, é importante entender que não se deve avaliar o benefício dos adubos orgânicos apenas do ponto de vista econômico. Esses adubos envolvem outras dimensões de bem-estar, como a conservação ambiental, a sustentabilidade e a troca de conhecimentos locais, conforme destaca Edgar.

Com a incorporação de adubos orgânicos em suas operações, tanto Edgar em sua empresa familiar quanto Michael em sua experiência cooperativa alcançaram melhorias significativas na produtividade. Edgar atingiu colheitas de 40 sacas/ha, enquanto Michael conseguiu elevar as produtividades históricas médias de 10 sacas/ha para 25 sacas/ha com a aplicação tecnificada de adubos orgânicos.

Em relação aos custos, Michael menciona que o sistema orgânico permite uma redução de cerca de 25% em comparação com a fertilização química. Por outro lado, Edgar aponta inicialmente uma economia de 30%, mas conforme a fazenda se tecnifica na produção orgânica, essa economia pode chegar a até 60% nos custos de insumos.

Adubo orgânico como gerador de valor

Esses benefícios representam um valor agregado para diversos aspectos da fazenda, incluindo a diversidade, o reaproveitamento de resíduos da colheita e o conhecimento local. E com isso criam um novo ciclo para o material descartado. Além disso, tanto Edgar quanto Michael enfatizam a importância da integralidade do sistema produtivo, ressaltando que em um monocultivo seria inviável obter os insumos necessários para a fabricação de adubos orgânicos.

Por outro lado, os entrevistados mencionam que os adubos orgânicos não apenas fornecem nutrientes para as plantas. Eles também melhoram significativamente as características físicas, químicas e biológicas do solo. Essas melhorias incluem aprimoramentos na textura, estrutura, fertilidade, retenção de água, capacidade de troca catiônica e regulação do pH. E tudo isso ao mesmo tempo, em que restauram a biota natural do solo.

Além disso, um cafeeiro bem nutrido apresenta vantagens adicionais, como melhor qualidade de grão, menor incidência de pragas, maior resistência a adversidades climáticas e uma colheita com menos grãos flutuantes e vazios, garantindo assim uma superior qualidade do café. Esses benefícios se estendem às características organolépticas e à qualidade da xícara, confirmando que fertilizar corretamente representa um investimento valioso.

Boa práticas: recomendações gerais

Para promover bons hábitos de aplicação de adubos, deve-se seguir algumas recomendações gerais. Por exemplo, no cafeeiro, a maioria das raízes absorventes está concentrada nos primeiros 25 cm do solo, próximo ao tronco principal. E é daí que o café obtém a maioria de seus nutrientes, competindo com outras plantas superficiais. Portanto, é essencial aplicar adubos sempre perto da base da planta.

Outra prática recomendada é o cultivo deliberado de espécies de cobertura, especialmente leguminosas, visando posteriormente cortar e incorporar seus resíduos como adubo verde. Também se pode usar estas variedades como bancos de proteína para animais.

Recomenda-se considerar as boas práticas agrícolas, que abrangem várias orientações para a fertilização, considerando fatores abióticos como a inclinação do terreno, umidade do solo, presença de chuvas, localização da aplicação do adubo, compatibilidade entre nutrientes, hora do dia e densidade de plantio, entre outros.

Boas práticas e sustentabilidade

No contexto da sustentabilidade, as boas práticas agrícolas garantem a fertilidade do solo e a conservação da água e dos recursos em geral. É importante identificar as espécies que proporcionam os maiores benefícios agroecológicos, adaptando-se à zona e à altitude onde o cafezal está localizado.

Adubos orgânicos

Por último, é recomendável realizar a análise constante de solo e diferenciar os lotes, considerando as principais fontes de variabilidade. Entre elas estão: inclinação, áreas planas, margens de rios ou canais de irrigação, e luminosidade. É importante ressaltar que essa análise não é um gasto, e sim um investimento que melhora o rendimento e garante qualidade e sustentabilidade na produção.

A produção de cafés especiais demanda a implementação de cuidados ambientais e alternativas que permitam diversificar os rendimentos das fazendas e promover o uso sustentável dos recursos.

Você gostou deste artigo? Então leia sobre o descumprimento de contratos por parte dos cafeicultores colombianos

Créditos das imagens: Francisco Enriquez 

PDG Brasil

Traduzido por Ana Mercedes Fernández

Quer ler mais artigos como este? Assine a nossa newsletter!

The post Fertilização e produção de adubos orgânicos a partir de plantas appeared first on PDG Brasil.

]]>
Os sistemas de irrigação e sua aplicação na cafeicultura https://perfectdailygrind.com/pt/2024/05/24/sistemas-de-irrigacao-cafe/ Fri, 24 May 2024 07:05:00 +0000 https://perfectdailygrind.com/pt/?p=14317 A água desempenha um papel fundamental na produção de café, e os efeitos das mudanças climáticas estão cada vez mais evidentes nas regiões produtoras. Desde chuvas irregulares até secas prolongadas, os cafeicultores enfrentam inúmeros desafios. Sem o suporte de sistemas de irrigação eficazes, eles ficam vulneráveis ​​às condições climáticas imprevisíveis, o que pode impactar negativamente […]

The post Os sistemas de irrigação e sua aplicação na cafeicultura appeared first on PDG Brasil.

]]>
A água desempenha um papel fundamental na produção de café, e os efeitos das mudanças climáticas estão cada vez mais evidentes nas regiões produtoras. Desde chuvas irregulares até secas prolongadas, os cafeicultores enfrentam inúmeros desafios. Sem o suporte de sistemas de irrigação eficazes, eles ficam vulneráveis ​​às condições climáticas imprevisíveis, o que pode impactar negativamente a qualidade e o volume da safra.

Conversei com um produtor e um engenheiro agrônomo para entender melhor como os sistemas de irrigação são aplicados na cafeicultura, as estratégias para lidar com os desafios do clima e os modelos de rega mais comuns. Continue lendo para saber mais.

Leia também: A importância dos sistemas de doação de água para pequenos cafeicultores

O que é um sistema de irrigação?

Muitas vezes usamos a água irracionalmente, mesmo que ela seja um recurso essencial para a atividade agrícola. Isso pode causar prejuízo e ocasionar falta de recursos hídricos. A agricultura adotou os sistemas de irrigação como uma forma de otimizar o uso da água. 

Essas instalações técnicas visam fornecer água o suficiente para os cultivos. Geralmente, essas estruturas fornecem os serviços de captação (águas superficiais e subterrâneas), condução e, em alguns casos, armazenamento e distribuição nas fazendas. 

Pedro Morales Mijangos, engenheiro agrônomo e produtor de café na Guatemala, explica que esses sistemas fornecem o volume de água que as plantas exigem para evitar o estresse hídrico e obter um maior rendimento e qualidade no grão.

Aspersão, gotejamento, inundação ou canhão de água estão entre os mais comuns, diz Pedro, embora haja várias outras possibilidades em termos de sistema. É comum encontrar locais que não possuam infraestrutura de instalação e manejo correto, então é importante que o produtor escolha o método que funcione melhor para ele. 

Quais as vantagens dos sistemas de irrigação?

Os sistemas de irrigação não apenas garantem a disponibilidade de água durante as baixas temporadas e secas, mas também têm uma série de outros benefícios que afetam os aspectos produtivo, econômico, ambiental e social da cafeicultura.

De acordo com Pedro, do ponto de vista agronômico, os sistemas de irrigação permitem suprir a deficiência de água em diferentes etapas fenológicas das plantações de café, como floração, crescimento vegetativo, desenvolvimento do fruto e maturação. 

Isso resulta em uma floração mais homogênea e pode reduzir a necessidade de múltiplos cortes durante o ciclo de cultivo. “Proporcionamos a água com o sistema de irrigação para garantir uma floração muito mais homogênea e, com ela, fazer apenas um ou dois cortes e que não tenhamos tantas florações num ciclo”, ele explica. 

Além disso, a fertirrigação, que consiste em dissolver fertilizantes na água de irrigação, permite uma distribuição mais eficiente dos nutrientes para as plantas, reduzindo a dependência de mão de obra e garantindo o desenvolvimento otimizado das plantações.

Nery Gonzalez Hernández é produtor de café na Finca Caribal, localizada em La Paz, Honduras. Ele conta que, no passado, os cafeicultores se baseavam em padrões de estações mais previsíveis para planejar suas compras e manter uma produção de café estável. Mas é claro que esses padrões foram muito alterados pela crise climática. 

Garantindo a continuidade das lavouras

Diante dessas mudanças, ficou mais importante e necessário implementar modelos de irrigação para garantir que as plantas tenham a água necessária no momento em que precisarem. “Isso assegura, acima de tudo, a segurança de alguns cultivos. No café, você pode agendar o sistema de irrigação e fazer com que a planta floresça em períodos mais curtos. Isso permite uma programação melhor do período de colheita”, ele explica. 

Os sistemas de doação de água também promovem a diversificação de alimentos e de ingredientes adicionais fora do tempo da colheita. “Por exemplo, cultivos de tomate e pimentões são possíveis quando não há tanta produção, e o mercado está sempre os demandando”, acrescenta Pedro. 

Os sistemas de irrigação na produção de café

A adoção de sistemas de irrigação na cafeicultura pode trazer diversos benefícios, especialmente em regiões onde as condições climáticas são imprevisíveis e as chuvas são irregulares. Enquanto a cafeicultura brasileira tem implementado esses sistemas há décadas, outros países latino-americanos também têm experiência nesse campo desde os anos 80 e 90.

No entanto, a adoção desses sistemas ainda não é generalizada em todos os países produtores de café na região. Por exemplo, Nery menciona que a porcentagem de cafeicultores em Honduras que utilizam sistemas de irrigação é mínima em comparação com os produtores de hortaliças, que estão mais avançados nesse aspecto. O mesmo é observado na Colômbia, onde a maioria das plantações de café ainda depende exclusivamente da chuva.

Dados da FAO indicam que, em 2018, a superfície irrigada na América Latina representava apenas 7% da superfície total cultivada, o que corresponde a cerca de dois milhões de hectares. Isso destaca um grande potencial de expansão dos sistemas de irrigação na região, especialmente na cafeicultura, onde o acesso à água é crucial para garantir a produtividade e a qualidade dos cultivos.

Que tipos de soluções são oferecidas aos produtores?

Os sistemas de irrigação oferecem aos produtores uma solução crucial para mitigar os efeitos do estresse hídrico nas plantações de café. “É um sistema de auxílio em um momento em que a planta está passando por momentos importantes como floração e crescimento. Isso certamente se converte em mais produção e crescimento”, Afirma Pedro.

Além disso, ele destaca que as propriedades organolépticas do café também são realçadas por uma boa oportunidade de acesso à água. “O grão concentra mais sólidos solúveis, o que influencia positivamente o sabor, a textura, o corpo e o equilíbrio. E tudo isso depende da planta aproveitar melhor os nutrientes disponíveis no solo”.

O que é preciso para implementar um sistema como esse?

É essencial realizar uma análise detalhada das condições locais e das necessidades específicas das plantações. Isso envolve considerar fatores como as condições climáticas, topografia, disponibilidade de água e as características do cafezal. 

“É preciso avaliar a aptidão e capacidade do cafezal. Podemos expor plantas possivelmente inadequadas para certo sistema a um metabolismo muito alto ou condições de alta demanda. Isso pode fazer mais mal do que bem, no fim das contas”, explica Pedro.

Além disso, os produtores precisam garantir que tenham uma fonte de água confiável e sustentável, como um rio, poço ou tanque, com um nível constante ao longo das estações. “É crucial realizar testes laboratoriais na água para garantir que a adequação para uso na irrigação, verificando a presença de metais pesados, altas concentrações de sódio ou condutividade elétrica elevada”, ele acrescenta.

O planejamento do design do sistema também é fundamental, considerando a infraestrutura necessária. Devemos adaptar tubos, válvulas, bombas, aspersores ou gotejadores às condições locais e às necessidades das plantações. “Por exemplo, se a fonte de água estiver abaixo do nível das plantações, podem ser necessários tanques ou sistemas de elevação para transportar a água até as áreas alvo” ele complementa.

A manutenção regular do sistema é essencial para garantir seu funcionamento ideal ao longo do tempo, e é importante capacitar os operadores para garantir que saibam como operar e manter adequadamente o sistema de irrigação.

Quais são as limitações possíveis?

Também há uma contrapartida nos sistemas de irrigação, que implica um retorno econômico e o momento adequado da implantação. Uma das variáveis para os produtores acessarem essas tecnologias é o preço. A maioria dos agricultores que se dedicam à cafeicultura trabalham em pequena escala, vivem em condições de pobreza e tem um baixo poder aquisitivo, o que reduz as oportunidades de acesso a crédito em instituições financeiras

De acordo com Nery, os recursos econômicos para comprar tecnologia com retorno ideal geralmente ficam nas mãos dos grandes cafeicultores. “Estes certamente têm mais acesso e facilidade a recursos tecnológicos. E com isso conseguem financiamentos favoráveis por outras fontes que não sejam necessariamente a produção de café”, ele explica.

Outro obstáculo comum é a própria condição topográfica do local de plantio. Ele sinaliza que em Honduras 40% das plantações estão cultivadas em locais altos, o que dificulta o sistema de irrigação. 

A cafeicultura do futuro enfrenta condições ambientais mais erráticas, que podem desencadear um esgotamento do recurso hídrico. Os produtores devem estar cientes de que a água é um elemento vital e insubstituível na agricultura. E que isso legitima a necessidade de implementar sistemas para que o uso da água seja eficiente e melhore as condições produtivas. Além de tornar mais competitivo o negócio em tempos de mudanças climáticas. 

Você gostou deste artigo? Confira também os males das águas: de contaminantes a fertilizante orgânicos

Créditos das fotos: Yenny Ballesteros. 

PDG Brasil

Traduzido por Diego Oliveira

Você quer ler mais artigos como este? Assine nossa newsletter!

The post Os sistemas de irrigação e sua aplicação na cafeicultura appeared first on PDG Brasil.

]]>
Densidade de plantio: o segredo para um rendimento alto e sustentável https://perfectdailygrind.com/pt/2024/05/06/densidade-de-plantio-cafe/ Mon, 06 May 2024 07:01:00 +0000 https://perfectdailygrind.com/pt/?p=14241 Enquanto muitos aspectos do cultivo de café são constantemente alvo de discussão como clima, altitude e variedades, a densidade de plantio muitas vezes fica em segundo plano. No entanto, estudos recentes destacam sua importância crucial para aumentar os rendimentos e promover a sustentabilidade na produção de café. A densidade de plantio se refere ao número […]

The post Densidade de plantio: o segredo para um rendimento alto e sustentável appeared first on PDG Brasil.

]]>
Enquanto muitos aspectos do cultivo de café são constantemente alvo de discussão como clima, altitude e variedades, a densidade de plantio muitas vezes fica em segundo plano. No entanto, estudos recentes destacam sua importância crucial para aumentar os rendimentos e promover a sustentabilidade na produção de café.

A densidade de plantio se refere ao número de árvores de café por hectare, e sua relevância está em garantir que cada planta receba a quantidade ideal de recursos como luz solar, água e nutrientes para seu crescimento saudável.

Para explorar mais sobre esse tema, conversei com dois especialistas: Catalina Cifuentes, engenheira agrônoma da Universidade Nacional da Colômbia, e Andrés Felipe Quintero Ortiz, um produtor inovador da Fazenda La Esmeralda, localizada no departamento de Huila, na Colômbia. Continue lendo para descobrir suas perspectivas sobre o assunto.

Leia também: Como os produtores de cafés especiais podem usar as flores de café?

A Densidade de Plantio e seu Impacto nos Cafezais

A densidade de plantio desempenha um papel crucial no cultivo do café, por afetar diretamente o rendimento e a qualidade dos grãos. Se as árvores estiverem muito próximas umas das outras, competirão por recursos como luz solar, água e nutrientes, resultando em menor produção e qualidade inferior dos grãos. Por outro lado, se houver poucas árvores, pode ocorrer desperdício de recursos e perdas desnecessárias.

Além do impacto na produção, a densidade de plantio também influencia a saúde dos cafezais. Uma densidade adequada pode ajudar a reduzir a propagação de doenças e pragas, garantindo uma produção mais saudável. Uma boa circulação de ar e exposição adequada à luz solar são essenciais para prevenir o crescimento de doenças como a broca-do-café, cochonilhas e nematoides.

Determinar a densidade de plantio ideal é um desafio complexo para os cafeicultores, por envolver vários fatores, como metas de produtividade, sustentabilidade ambiental e condições regionais específicas. 

Estudos realizados na Colômbia mostraram que a densidade de plantio de 7800 plantas por hectare resultou na maior produção durante um ciclo de cinco colheitas. No entanto, em outras regiões cafeeiras, densidades diferentes podem ser mais adequadas, destacando a importância de adaptar as estratégias de plantio às condições locais e às variedades cultivadas.

Maximizando a eficiência na fazenda

Para os produtores de café, entender a densidade de plantio é mais do que uma prática comum — é uma ferramenta essencial para garantir a eficiência e a rentabilidade. “Densidade de plantio é um componente vital do processo produtivo, não apenas para aumentar a produção, mas também para promover um manejo integrado e sustentável”, sustenta Catalina.

O aumento da produção muitas vezes é associado à expansão da área de cultivo, mas esse pensamento simplista ignora a complexidade do processo. “O sucesso da plantação de café depende de uma série de fatores interligados, onde a densidade de plantio desempenha um papel crucial. É parte de um sistema complexo onde fatores ambientais, como umidade e temperatura, precisam ser considerados”, ela explica.

Por exemplo, em áreas com alta umidade, densidades muito altas podem levar ao desenvolvimento de doenças fúngicas devido à falta de circulação de ar. Por outro lado, em regiões secas e quentes, densidades mais altas podem ser benéficas para preservar a umidade do solo. Portanto, entender e adaptar a densidade de plantio às condições ambientais específicas de cada área é essencial para otimizar a produção e garantir a saúde das plantas.

A densidade de plantio adequada: uma adaptação às condições do ambiente

Implementar a equação da densidade de plantio = hectares/área da planta em m² pode parecer simples na teoria, mas na prática, a realidade é diferente. “Na nossa fazenda, devido à altitude, temos lotes de 1,40 por 1,60 e outros de 2,0 por 2,0. Há alguns produtores que estão a uma altitude média de 1400 m acima do nível do mar e plantam com espaçamento de 1,0 por 1,0”, explica Andrés.

Ele ressalta ainda que a densidade de plantio é vital, por influenciar diretamente a produtividade da árvore. Por exemplo, em altitudes mais elevadas, como 1900 m acima do nível do mar, a luminosidade é crucial para o desenvolvimento das plantas.

Andrés destaca também a importância de adaptar a estratégia de plantio às características específicas da área. “Plantar árvores de café conforme a altitude, identificar variedades resistentes a doenças como a ferrugem, analisar o solo para determinar as necessidades nutricionais e a profundidade de plantio. Considerando esses aspectos, podemos garantir um cultivo lucrativo e saudável”, ele recomenda.

A densidade de plantio é essencial para o crescimento saudável dos cafezais, especialmente em diferentes altitudes. “Nossa experiência mostra que em altitudes acima de 1800 m, recomendamos um espaçamento de 1,40 a 1,60 metros entre árvores. Já em altitudes entre 1300 e 1700 m, podemos reduzir essa distância”, explica Andrés.

A densidade de plantio não apenas afeta o crescimento e a produção, mas também tem um impacto significativo na gestão e sustentabilidade da fazenda. Encontrar o equilíbrio certo entre esses fatores, considerando as condições locais, é fundamental para o sucesso a longo prazo na produção de café.

Como definir a densidade de plantio da sua cultura?

Ao definir a densidade de plantio, é crucial considerar uma série de aspectos que podem influenciar significativamente os resultados:

  • condições da zona de cultivo: entender as características específicas da região é o primeiro passo para determinar a densidade de plantio ideal;
  • objetivos claros: seja maximizar o rendimento, melhorar a qualidade, otimizar o uso de recursos ou equilibrar múltiplos fatores, ter uma meta clara é essencial para orientar a estratégia de densidade de plantio;
  • escolha do variedade: cada variedade de café tem suas particularidades. Compreender suas necessidades em relação à distância entre plantas, exposição solar e nutrição é fundamental;
  • análise de dados: históricos de rendimento, padrões de crescimento e experiências anteriores de plantio oferecem insights valiosos;
  • área disponível: medir e considerar a área total disponível para o cultivo é crucial para determinar a densidade de plantio ideal;
  • cálculo da distância: determinar a distância adequada entre as plantas com base nos objetivos de cultivo, condições locais e tipo de café pode envolver calcular a quantidade ideal de plantas por hectare;
  • início gradual: isso deve ser feito visando observar os resultados e fazer ajustes antes de expandir a estratégia para toda a fazenda;
  • monitoramento e avaliação: realizar avaliações periódicas do crescimento, saúde e rendimento das plantas permite ajustar a densidade de plantio conforme necessário;
  • ajustes e melhorias: ajustar a estratégia de densidade de plantio com base nas observações. Encontrar o ponto ideal de variáveis como espaçamentos entre plantas ou métodos de sombreamento, é essencial para otimizar os resultados;
  • consultar especialistas: buscar orientação de cooperativas, agências governamentais e outros produtores experientes pode fornecer informações valiosas para aprimorar a estratégia de plantio;
  • documentação detalhada: manter registros precisos de observações, ajustes e resultados ao longo do tempo é fundamental para aprimorar a estratégia de densidade de plantio.

Ao seguir essas recomendações, os produtores podem elaborar uma estratégia sólida de densidade de plantio. E isso vai atender seus objetivos, otimizar os recursos disponíveis e promover o crescimento saudável das plantas de café. 

Como resultado, isso pode levar a um cultivo de café sustentável e lucrativo ao longo do tempo.

Você gostou deste artigo? Então leia sobre a simbiose entre árvores e fungos no café.

Créditos das imagens: Mónica Torres.

PDG Brasil

Traduzido por: Ana Mercedes Fernández

Quer ler mais artigos como este? Assine a nossa newsletter semanal aqui!

The post Densidade de plantio: o segredo para um rendimento alto e sustentável appeared first on PDG Brasil.

]]>
Uma doença silenciosa: O que é a antracnose do café? https://perfectdailygrind.com/pt/2024/04/10/antracnose-cafe/ Wed, 10 Apr 2024 07:03:00 +0000 https://perfectdailygrind.com/pt/?p=14140 A antracnose, uma das doenças mais graves que afetam as plantações de café, representa um sério problema fitossanitário devido às potenciais perdas econômicas que pode causar na produção da fazenda. Muitas vezes, é confundida com a doença das cerejas do cafeeiro devido à semelhança dos sintomas. Além de reduzir os rendimentos, a antracnose pode afetar […]

The post Uma doença silenciosa: O que é a antracnose do café? appeared first on PDG Brasil.

]]>
A antracnose, uma das doenças mais graves que afetam as plantações de café, representa um sério problema fitossanitário devido às potenciais perdas econômicas que pode causar na produção da fazenda. Muitas vezes, é confundida com a doença das cerejas do cafeeiro devido à semelhança dos sintomas.

Além de reduzir os rendimentos, a antracnose pode afetar negativamente os lucros dos cafeicultores, já que pode fazer com que o café apresente sabores fenólicos. Esta doença está frequentemente associada à ferrugem, e a combinação de ambas pode ter um impacto devastador na produção.

Para entender melhor essa doença, conversei com três especialistas da América Central que se dedicam ao estudo da antracnose. Continue lendo para descobrir o que eles têm a dizer.

Você também pode se interessar pelo nosso artigo Guia de pragas e doenças comuns do café.

Antracnose do café ou CBD?

A antracnose, um problema causado pelo fungo Colletotrichum coffeanum, foi identificada pela primeira vez em 1901 pelo botânico alemão Fritz Noack, com base em amostras coletadas no Brasil e na Costa Rica. 

Para entender melhor a antracnose do café, é importante definir o que ela é, já que muitas vezes é confundida com a Doença das Cerejas do Café (CBD), que também é causada por fungos da mesma família, mas de espécies diferentes.

Miguel Barquero, Chefe da Unidade de Pesquisa do Instituto do Café da Costa Rica (ICAFE), explica que a CBD (Colletotrichum kahawae) é um fungo específico que ataca os frutos de café jovens, geralmente de 2 a 16 semanas após a florada. Acredita-se que a CBD tenha surgido no Quênia, na década de 1920. Embora seja semelhante à antracnose, ela ainda não chegou às Américas.

Érika Méndez, biotecnóloga do Laboratório de Biologia Molecular do ICAFE, ressalta que “a antracnose é distinta da CBD pelos sintomas”. Ela observa que a CBD pode prejudicar os grãos verdes, resultando em perdas de até 80%. No entanto, a principal diferença é que a antracnose afeta toda a planta.

Érika explica ainda que a antracnose atinge as folhas, flores e frutos, causando escurecimento e apodrecimento, conhecido como mumificação. Além disso, quando a doença está avançada, é possível ver manchas nas folhas e pontos pretos nos grãos a olho nu. Essa doença leva à queda de folhas e à morte de galhos, especialmente em plantas mais fracas, ocorrendo em diferentes condições e altitudes.

Atualmente, há poucos dados sobre os efeitos da antracnose nos países produtores das Américas. Um estudo sugere que, em condições ambientais favoráveis e com ataques severos, a doença pode levar a perdas na produção de 10% a 50%.

Como se propaga a antracnose?

A maneira como a antracnose se espalha é influenciada por vários fatores, sendo a chuva um dos principais. Edgar Velasco, Engenheiro Agrônomo e Gerente de Cultivos de Café e Vegetais na UPL, empresa de Agricultura Sustentável na Guatemala, destaca que a alta umidade e as chuvas frequentes, com temperaturas entre 20 e 25 graus Celsius, favorecem o desenvolvimento da doença.

Ele observa que a antracnose é detectada em toda a América Central em qualquer época do ano, com maior incidência nas folhas durante julho e agosto, alcançando até 38% a 40%. Isso sugere que a doença é mais intensa durante os períodos chuvosos.

A propagação do fungo geralmente ocorre por meio de respingos de chuva, que carregam esporos de uma folha para outra. Os esporos também podem ser transportados pelos trabalhadores em suas roupas, semelhante a outras doenças como a ferrugem e a mancha americana. Essas condições, somadas à fragilidade das plantas doentes ou mal nutridas, criam um ambiente favorável para a antracnose.

Érika, outra especialista entrevistada, menciona que outras doenças, além de ferimentos e carências nutricionais, contribuem para a propagação da antracnose. Em contrapartida, os cafezais saudáveis são mais resistentes à doença.

Além disso, práticas de manejo inadequadas de pragas e doenças, estresse devido à exposição direta ao sol e danos às raízes causados por diversas pragas também ajudam na propagação da antracnose.

folhas com antracnose em diferentes estágios de desenvolvimento

A relação entre a ferrugem e a antracnose

A relação entre a ferrugem e a antracnose é clara, já que a presença de uma torna o cafeeiro mais vulnerável à outra. Para entender melhor essa ligação, é importante considerar como a climatologia afeta a manifestação e a intensidade dos sintomas dessas duas doenças. Miguel destaca que o avanço de ambas pode variar dentro do mesmo país, dependendo especialmente da umidade do ar, da água sobre as plantas e da temperatura.

As consequências de ambas as doenças agindo ao mesmo tempo são significativas, como observado por Edgar: “A queda de folhas causada pela ferrugem e o ataque de antracnose prejudicam o amadurecimento normal dos frutos, aumentando os frutos vazios, afetando a transformação de café maduro em pergaminho”.

Érika destaca que o cultivo de variedades que toleram certo nível de ferrugem pode levar a uma redução na aplicação preventiva de fungicidas pelos agricultores. Isso resulta em um controle ineficaz do Colletotrichum nas plantações, o que, com problemas de nutrição e danos mecânicos, pode promover o crescimento da antracnose.

Essa situação é particularmente preocupante para pequenos cafeicultores, que não têm os recursos necessários para implementar medidas preventivas adequadas. Edgar observa que algumas fazendas não têm acesso a produtos sistêmicos e realizam apenas um manejo básico de pragas, tornando a combinação de ferrugem e antracnose ainda mais prejudicial devido à perda de folhas.

Você também pode se interessar pelo nosso artigo Ferrugem do café — por que é prejudicial e como controlar sua propagação

antracnose em folha do cafeeiro

Como identificar os sintomas

É crucial para os cafeicultores identificar os sintomas da antracnose para poderem agir a tempo e controlar sua disseminação. No entanto, essa doença pode ser sorrateira, pois muitas vezes não mostra danos visíveis até que a infecção esteja avançada, como menciona Edgar: “ela avança sem alarde, e quando você percebe, é difícil controlá-la”.

A antracnose pode atingir as plantas em todas as fases de crescimento, desde o viveiro até a colheita, mas os danos são mais comuns em plantas em crescimento e em produção. No início da infecção, as folhas desenvolvem manchas necróticas de cor marrom, cinza ou preta, começando nas bordas e se espalhando para o centro.

Os ramos também sofrem mudanças, ficando escuros à medida que o tecido se deteriora. E isso pode levar à morte das plantas afetadas, dependendo do estágio. Nos frutos, podem surgir pequenas manchas escuras e afundadas, que se expandem gradualmente, cobrindo-os completamente. 

No entanto, identificar com precisão a antracnose pode ser desafiador devido à existência de pelo menos seis variedades diferentes da doença na América Central, conforme observado por Miguel. Essas variedades podem causar sintomas semelhantes em folhas, ramos e frutos durante os estágios iniciais da infecção. 

Miguel destaca a dificuldade de determinar a espécie do patógeno apenas observando as manchas, enfatizando que a confirmação do diagnóstico requer análises em laboratórios especializados.

Então, como prevenir a antracnose?

Para prevenir a antracnose, é importante considerar várias estratégias. Uma abordagem fundamental, como destaca Érika, é desenvolver variedades de café resistentes à doença. Pesquisadores em toda a América Latina estão atualmente focados nesse objetivo. Além disso, ela enfatiza que a prevenção é sempre a melhor forma de combater a doença e suas variantes. Isso envolve garantir que as plantas recebam nutrição adequada e realizar fumigações preventivas.

Manter a cultura bem nutrida é crucial, e isso pode ser feito mediante análises laboratoriais do solo e da folhagem, conforme apontado por Edgar. Com base nessas análises, os produtores podem tomar medidas específicas para atender às necessidades das plantas. Outra recomendação importante é a nutrição foliar, utilizando fertilizantes líquidos que podem ser aplicados diretamente nas folhas, melhorando a qualidade dos grãos e das flores, como ele aconselha.

Além disso, é crucial fornecer o devido sombreamento às plantações para evitar a acumulação de umidade, de acordo com Edgar. Manter o solo limpo ao redor das árvores de café também é essencial para manter o sistema radicular saudável e reduzir o risco de infecção pela antracnose.

Conheça como a análise do solo na rentabilidade e produtividade da sua fazenda de café

O que fazer diante de uma infestação

Quando se identifica uma infestação de antracnose, é crucial que o cafeicultor tome medidas imediatas para evitar perdas significativas.

Edgar enfatiza a importância de monitorar continuamente a plantação, especialmente após a colheita, para detectar a presença de antracnose e ferrugem. Ele sugere iniciar a aplicação adequada de fungicidas, especialmente aqueles do grupo dos triazóis, que são eficazes contra a antracnose. “Nossa sugestão é tentar aplicar em toda a plantação. Se isso não for possível, recomenda-se focar em uma área com um raio de cinco a oito metros ao redor do foco. Isso ajuda a prevenir a propagação da infecção para áreas não visíveis”.

Por sua vez, Érika destaca a importância da gestão química adequada, incluindo a rotação de produtos e o uso de fungicidas com diferentes mecanismos de ação. Isso é crucial para evitar que o fungo desenvolva resistência aos tratamentos e garantir uma eficácia prolongada no controle da doença.

Dificuldades para os cafeicultores

A antracnose pode afetar qualquer produtor, independentemente do tamanho de sua fazenda, mas para os cafeicultores de médio e pequeno porte, a falta de recursos econômicos é uma das preocupações mais urgentes na prevenção e combate à doença. “O maior desafio é aumentar a resiliência das fazendas cafeeiras diante das constantes variações climáticas e as mudanças no comportamento dos patógenos são consequências dessas mudanças”, afirma Miguel.

Para ele, um dos pesquisadores mais dedicados ao estudo da antracnose na América Central, a aplicação da ciência e uma compreensão mais profunda do efeito do clima sobre as plantas e os microrganismos presentes nas plantações são temas constantes de atenção e estudo.

Edgar, em sua experiência de campo, observou que os pequenos produtores enfrentam dificuldades financeiras, pois os altos custos de produção e a falta de políticas governamentais para acesso a créditos acessíveis tornam a luta contra a antracnose ainda mais difícil.

Manter o cultivo saudável e bem nutrido é a melhor forma de evitar a antracnose. No entanto, assim como outras doenças que afetam o café, os produtores precisam de recursos para prevenir ou combater essa enfermidade.

Isso requer uma colaboração entre técnicos, pesquisadores e produtores. Além disso, é crucial promover mais pesquisas sobre a doença e desenvolver novas variedades de café mais resistentes. A resiliência dos cafeicultores dependerá da qualidade da assistência técnica e dos esforços conjuntos de diversos atores da indústria.

Se você gostou deste artigo, leia sobre o impacto da terceira onda no trabalho dos cafeicultores.

Crédito das imagens: Edgar Velasco, Érika Méndez, Loana Herrera, Diana Fisgativa.

Agradecimento especial ao Professor Stuart McCook e Justina Walker da Universidade de Guelph, Canadá.

PDG Brasil

Tradução: Ana Mercedes Fernández

Quer ler mais artigos como este? Assine a nossa newsletter semanal aqui!

Atenção:

Por favor, lembre-se: antes de colocar em prática os conselhos deste artigo, recomendamos que também consulte um técnico especializado em sua região, pois as diferenças climáticas, o tipo de solo, os métodos de processamento e outras variáveis podem afetar as melhores práticas para a produção e processamento.

The post Uma doença silenciosa: O que é a antracnose do café? appeared first on PDG Brasil.

]]>
Plantio consorciado: um guia para sua implementação https://perfectdailygrind.com/pt/2024/04/01/plantio-consorciado-cafe/ Mon, 01 Apr 2024 07:04:00 +0000 https://perfectdailygrind.com/pt/?p=14111 Diante dos crescentes desafios enfrentados pelas fazendas de café, como mudanças climáticas, aumento dos custos de produção e escassez de mão de obra, os cafeicultores estão buscando soluções inovadoras. Uma dessas estratégias é a adoção do plantio consorciado, também conhecido como plantio consorciado, como parte das práticas da agricultura orgânica.  O objetivo do plantio consorciado […]

The post Plantio consorciado: um guia para sua implementação appeared first on PDG Brasil.

]]>
Diante dos crescentes desafios enfrentados pelas fazendas de café, como mudanças climáticas, aumento dos custos de produção e escassez de mão de obra, os cafeicultores estão buscando soluções inovadoras. Uma dessas estratégias é a adoção do plantio consorciado, também conhecido como plantio consorciado, como parte das práticas da agricultura orgânica. 

O objetivo do plantio consorciado é promover a diversificação e a sustentabilidade econômica, social e ambiental das plantações de café. Conversei com Scarlette Zerón, gerente de projetos da associação Proexo, Óscar Omar Alonzo, da Finca Cual Bicicleta, e José Javier Muñoz, especialista em café, para entender melhor o plantio consorciado e como implementá-lo. Continue lendo para descobrir o que eles compartilharam.

Leia também: Diversificação para produtores: integrar outras culturas ou agregar valor?

O que é plantio consorciado? 

O plantio consorciado é uma prática agrícola sustentável que envolve o cultivo simultâneo de diferentes culturas num mesmo espaço, trazendo diversificação a esquemas de monocultura. Essa abordagem promove a regeneração do solo, contribuindo assim para a preservação do meio ambiente.

Scarlette destaca que o desenvolvimento do plantio consorciado em regiões cafeeiras pode ser parte de práticas orgânicas inteligentes em termos climáticos. Ela ressalta que os impactos positivos dessa prática preservam não só o ambiente, mas também a renda das famílias produtoras.

Na fazenda de Óscar, localizada na região hondurenha de Marcala, o plantio consorciado de milho, feijão, mandioca, bananas e pasto ao lado das lavouras de café vem dando resultados positivos. Ele relata que isso permite um melhor aproveitamento da mão de obra na fazenda, tanto nas plantações de café quanto nas demais culturas. Isso não apenas atende às necessidades alimentares dos colaboradores e de suas famílias, mas também gera renda extra.

Foco na produtividade e na rentabilidade

José Javier destaca que, visando a sustentabilidade financeira, todas as fazendas estão constantemente buscando aumentar a produtividade agrícola. No contexto do café, isso se torna desafiador devido às mudanças climáticas e aos preços voláteis do grão. É nesse ponto que o plantio consorciado se destaca como uma opção para enfrentar esses desafios.

Essa estratégia permite uma utilização mais eficiente do espaço na fazenda, possibilitando o cultivo de produtos adicionais que ajudam a cobrir os custos por meio de sua comercialização. Além disso, ao gerenciar outros cultivos junto ao cafezal, aproveita-se melhor a mão de obra contratada, tornando a gestão econômica mais eficiente, conforme afirma Scarlette.

Óscar ressalta que a produção adicional permite oferecer alimentos saudáveis aos colaboradores e mantê-los motivados mediante compensações financeiras. Ao compartilhar os rendimentos, evita-se a migração da mão de obra para áreas urbanas ou para o exterior.

Além disso, Scarlette destaca que o plantio consorciado contribui para garantir a segurança alimentar nas fazendas de café, reduzindo o consumo de alimentos processados. Ela afirma que uma melhor nutrição sempre é benéfica, melhorando a saúde dos cafeicultores e suas famílias e assim aumentando sua produtividade e qualidade de vida.

Tanto José Javier quanto Óscar recomendam a diversificação da produção da fazenda para aumentar a renda por meio de práticas orgânicas, que incluem não apenas o plantio consorciado, mas também o desenvolvimento de colmeias para produção de mel, piscicultura, criação de minhocas, viveiros e até iniciativas turísticas.

Essas iniciativas não apenas proporcionam benefícios sociais significativos para as famílias dos cafeicultores, como destacado por Scarlette, mas também podem ser uma fonte adicional de renda administrada por mulheres e filhos jovens, estimulando a inovação e o empreendedorismo. Além disso, muitos dos produtos gerados podem ser comercializados localmente, promovendo uma mentalidade empreendedora na comunidade.

Primeiros passos: análise do ambiente e dos mercados 

Antes de adotar o plantio consorciado, uma análise meticulosa do ambiente da fazenda é indispensável, considerando fatores como altitude, temperatura e qualidade do solo. José Javier enfatiza que isso é fundamental para determinar quais culturas se adequam melhor às condições específicas da região. Além disso, é essencial avaliar a existência de um mercado para esses produtos, garantindo opções eficazes de comercialização.

Óscar destaca a importância de compreender o manejo e as necessidades das culturas que ali se desenvolverão, tanto em termos de mão de obra quanto de insumos. Isso permite estabelecer um plano de manejo viável a curto e médio prazo, alinhado com o cultivo do café, sem incorrer em custos adicionais.

Scarlette concorda e enfatiza que os produtores devem ser extremamente cuidadosos ao incorporar novas culturas junto ao café. “Uma análise de mercado básica é essencial para entender a demanda por essas culturas e determinar a rentabilidade”, ela diz.

Ela destaca que, como o plantio consorciado é uma estratégia de agricultura sustentável, é vital revisar o plano de manejo dessas culturas para garantir conformidade com os requisitos dos selos de certificação orgânica. Isso é essencial para não afetar a produção de café ou colocá-la em risco.

Quais cultivos são ideais para intercalar com o café?

Segundo especialistas, os cultivos ideais para o plantio consorciado com café são aqueles de ciclo curto, como milho, feijão, mandioca e banana. Essas culturas são benéficas para o solo, auxiliando na fixação de nutrientes como nitrogênio e potássio naturalmente. Além dessas, José Javier menciona que plantas como macadâmia, cardamomo e ervilha também são boas opções para o plantio consorciado.

Óscar sugere a aplicação de matéria orgânica, como esterco ou composto, no solo antes do plantio consorciado, como preparação. Ele enfatiza a importância de iniciar com o plantio do café e, posteriormente, prosseguir com os outros produtos.

É fundamental considerar que o plantio consorciado é mais benéfico na fase inicial do cultivo do café, ou seja, entre 0 até aproximadamente 24 meses, devido à menor competição por recursos entre as plantas. Conforme destaca Scarlette, “essa fase inicial permite aproveitar o crescimento e desenvolvimento das plantas de café, sem gerar uma competição significativa de recursos com os cultivos paralelos em termos de espaço, luz, água e nutrientes”.

Plano de Manejo e Benefícios das Culturas Intercalares

José Javier enfatiza que ter uma cultura consorciada com o café sempre será um exercício de muita ordem e disciplina. “Cada produto plantado requer um tratamento específico, portanto, devemos projetar e aplicar um plano que alinhe o manejo de cada um deles com o café, para que nenhum seja negligenciado, otimizando o uso da mão de obra e insumos”.

Cultivar outros produtos permite manter a rentabilidade nos meses em que não há produção de café, “evitando problemas de liquidez que podem afetar as finanças da fazenda”, destaca. Entre os benefícios que as culturas consorciadas trazem para as fazendas, estão:

  • os solos têm uma maior cobertura superficial, protegendo sua qualidade ao reduzir a degradação causada pela erosão;
  • a estabilidade dos solos aumenta ao melhorar sua estrutura e porosidade, otimizando a infiltração e a capacidade de armazenamento de água;
  • a matéria orgânica gerada atua como cobertura morta e reduz a evaporação da água, conservando a umidade do solo;
  • a diversidade de insetos benéficos, como predadores de pragas e agentes polinizadores, é promovida pela matéria orgânica rica em microorganismos;
  • as culturas consorciadas ajudam a mitigar as mudanças climáticas, capturando carbono, reduzindo a erosão, conservando a umidade do solo e regulando a sombra nas plantações de café.

Impacto na xícara

Os benefícios do plantio consorciado se refletem num terroir aprimorado e na produção de cafés diferenciados, de alta qualidade na xícara, de acordo com José Javier. Como resultado, os produtores podem conseguir um preço melhor por seus grãos. Óscar, que vem aplicando essa e outras estratégias há mais de 20 anos, é exemplo disso.

Na década de 1990, ele começou a transformar seu cultivo, aplicando a agricultura sustentável em um hectare. Hoje, ele possui 25 Ha de café nos quais aplica o plantio consorciado, com resultados invejáveis. “Anualmente, produzo aproximadamente 82,4T de microlotes com avaliação próxima aos 90 pontos na escala da SCA”.

“Considero que a agricultura orgânica, em geral, e os cultivos consorciados, em particular, são benéficos econômica, social e ambientalmente não apenas para os produtores, mas também para os torrefadores internacionais que adquirem nossos grãos. Eles podem oferecer aos seus clientes cafés diferenciados e de alta qualidade, cultivados pensando no bem-estar do planeta e a saúde dos consumidores em mente”, afirma Óscar.

Embora o plantio consorciado seja mais comum em fazendas pequenas e médias que adotam práticas orgânicas, também pode ser aplicado em modelos de produção em maior escala. E assim resultar em maior rendimento e produtividade.

O compromisso com práticas orgânicas e o plantio consorciado é um esforço grande. Muitos cafeicultores se comprometem não apenas para lidar com os custos de produção, mas também para garantir a sustentabilidade da produção. Isso envolve preocupações com o bem-estar dos colaboradores das fazendas e a preservação do solo e do ecossistema.

Gostou deste artigo? Então leia sobre se há diferença entre um produtor de café e um cafeicultor.

Créditos das fotos: Óscar Omar Alonzo, Scarlette Zerón, José Javier Muñoz.

PDG Brasil

Tradução: Ana Mercedes Fernández

Quer ler mais artigos como este? Assine a nossa newsletter semanal aqui!

The post Plantio consorciado: um guia para sua implementação appeared first on PDG Brasil.

]]>
Escolha: Aprenda tanto a evitar como a aproveitar esse subproduto do cultivo  https://perfectdailygrind.com/pt/2024/03/04/pasilla-cafe/ Mon, 04 Mar 2024 23:01:00 +0000 https://perfectdailygrind.com/pt/?p=13975 A qualidade do café tem ligação inseperável com diversos fatores, desde a colheita até a torra. A classificação dos grãos, com foco nos aspectos físicos e sensoriais, desempenha um papel crucial na determinação do custo e do mercado consumidor final. Essa classificação começa ainda na colheita e se estende até o descascamento do grão. Nas […]

The post Escolha: Aprenda tanto a evitar como a aproveitar esse subproduto do cultivo  appeared first on PDG Brasil.

]]>
A qualidade do café tem ligação inseperável com diversos fatores, desde a colheita até a torra. A classificação dos grãos, com foco nos aspectos físicos e sensoriais, desempenha um papel crucial na determinação do custo e do mercado consumidor final.

Essa classificação começa ainda na colheita e se estende até o descascamento do grão. Nas etapas iniciais, os critérios físicos têm maior relevância, enquanto, após a torra, a qualidade se revela nos aspectos sensoriais como aroma, cheiro e sabor, definindo a identidade do café. Sendo assim, são essas as características que definem a identidade de um lote de café.

Contudo, quando se prioriza a classificação baseada em aspectos físicos, surge um subproduto, conhecido na Colômbia como pasilla e no Brasil como escolha, um café de baixa qualidade. José Posada, produtor de café, e Harvey Lesmes, engenheiro-agrônomo e produtor, compartilham insights sobre como mitigar a escolha e aproveitá-la de maneira eficiente. Continue lendo para descobrir o que eles disseram.

Leia também: O que é o sistema de haste única e como afeta a produção de café?

Cerejas de café em diferentes pontos de maturação secando em terreiro suspenso. Esses cafés darão origem ao que chamamos de pasilla

O que é a escolha?

O termo “escolha” engloba defeitos físicos, incluindo grãos não descascados, sendo um subproduto evidente antes da torra do café. Esse fenômeno ocorre em duas fases cruciais: colheita e beneficiamento, além do processo de descascamento, sendo a prevalência da escolha no lote influenciada por diversos fatores.

Harvey Lesmes, extensionista da Federação Nacional dos Cafeicultores, destaca a diversidade de fatores que contribuem para a formação da escolha, desde a variedade e espécie de café até condições climáticas e práticas adotadas durante a produção, colheita e pós-colheita.

Durante a colheita e beneficiamento, a escolha engloba grãos passados, com presença de broca, verdes, sem descascar, secos, pretos, deteriorados, vazios ou de baixo peso (flutuantes), além de danos mecânicos. No processo de descascamento, a escolha inclui grãos partidos e brocados.

Embora a escolha denote qualidade inferior, refletindo especialmente no sabor e aroma, Harvey esclarece que isso não implica que o café seja inutilizável para o consumo.

Cascas e cafés em pergaminho secando - pasilla

Como evitar a escolha?

O processo de produção de café é complexo e envolve muitas variáveis que influenciam a qualidade dos grãos. Sendo assim, dos maiores problemas dos produtores é a falta de conhecimento sobre o cultivo. Um manejo adequado do sistema de produção pode diminuir a porcentagem de escolha em uma fazenda. E isso envolve considerar a genética e a nutrição das plantas, o local de plantio e a realização da colheita no momento ideal.

Manter a nutrição adequada do café com a fertilização precisa, seguindo análises de solo e recomendações agronômicas, é extremamente importante. Isso ajuda a produzir grãos saudáveis e nutridos, com melhor densidade e tamanho, além de terem menos defeitos físicos. No mais, colher no momento certo auxilia na diminuição da quantidade de grãos passados, resultando em menos escolha para o agricultor. Realizar a colheita em várias etapas é essencial para garantir uma seleção cuidadosa dos grãos.

Dicas para ter uma colheita de qualidade

José Posada, produtor de cafés especiais da fazenda Capela del Rosario em Medellín, Colômbia, destaca duas práticas essenciais para reduzir a quantidade de escolha: iniciar a colheita diretamente da árvore e realizar a colheita em várias passagens por cada talhão da fazenda.

Na fazenda Capela del Rosario, a colheita se dá em até sete passagens por área, assegurando uma seleção precisa de grãos maduros. Em outras fazendas, isso acontece em apenas três ou quatro viagens. Esse número reduzido resulta em mais grãos verdes ou passados, afetando a qualidade do café e aumentando a quantidade de escolha.

José destaca outra prática crucial para aprimorar a qualidade e gerenciar adequadamente a escolha: realizar a colheita apenas de frutos bons e maduros, todos eles. Simultaneamente, um grupo separado de coletores deve se concentrar nos frutos passados e secos, garantindo uma seleção minuciosa do café e prevenindo a propagação de brocas. E assim realizar cultivos mais saudáveis.

Cafés "passados" secando com casca

Custo-benefício de uma colheita de qualidade

José destaca que a prática de realizar múltiplas passadas na colheita gera muito mais custos em comparação com o método tradicional, tornando-se inviável para alguns agricultores devido ao investimento adicional não necessariamente compensado pelo preço do café.

Na Colômbia, a maioria dos produtores vende o café pergaminho seco a intermediários, que compram grandes volumes de café de qualidade misturados que são misturados à escolha no processo de descascamento. Durante essa etapa, algumas escolhas resultam em grãos de qualidade, gerando lucro para esses intermediários. No entanto, esses ganhos não são repassados aos agricultores. 

Nesse contexto, o esforço em produzir café de qualidade muitas vezes se perde. Por essa razão, muitos agricultores tradicionais optam por adotar um método de colheita convencional, possibilitando um volume maior de café e uma remuneração mais justa e proporcional ao esforço dedicado

No caso de José, ao produzir café especial e estabelecer parcerias comerciais diretas, ele tem a flexibilidade de adotar práticas mais sustentáveis e realizar uma seleção cuidadosa. Esses esforços são recompensados pela elevação no preço de venda, além de sublinharem a importância de garantir parcerias que permitam a venda direta aos consumidores. Isso reflete de forma mais justa o valor do café em relação ao árduo trabalho na produção, colheita, beneficiamento e secagem.

Como aproveitar a escolha do café?

Para maximizar o aproveitamento da escolha, Harvey destaca a importância de adotar práticas de manejo adequadas, visando obter renda a partir desse subproduto. É crucial dedicar o mesmo cuidado dispensado ao café de alta qualidade. Nas grandes fazendas, o destaque é para a classificação por tamanho, feita com o auxílio de classificadores ou máquinas. Já em fazendas menores, uma estratégia eficaz é a retirada dos grãos bóias do tanque de fermentação para um manejo mais eficiente da escolha.

Além disso, ele aponta que é fundamental administrar adequadamente a escolha com broca. Classificações e verificações específicas para retirar a escolha brocada são cruciais para diminuir a infestação de broca na cultura. Tratamentos comuns para eliminar esse foco incluem a solarização ou o uso de recipientes para eliminar a presença dessa praga nos frutos do café.

Após a colheita da escolha, é indispensável lavá-la. Em seguida, realizar um processo de secagem adequado, até que se chegue a uma umidade de 10 a 12%, é vital. Em certos casos o produtor pode optar por um processo adicional de beneficiamento para chegar a um café comum ou de segunda categoria, viabilizando a venda a preços mais vantajosos em comparação com a escolha. Isso porque assim é possível ter até três classificações dentro do grupo das escolhas.

Cerejas maduras de café

Opções de compra no mercado

A Federação Nacional dos Cafeicultores (FNC) na Colômbia está ativamente promovendo o manejo adequado da escolha para gerar benefícios econômicos aos agricultores. Implementando a iniciativa de compra nas cooperativas da FNC, a federação oferece aos agricultores a oportunidade de vender escolha a preços vantajosos, regulamentando seu valor. Anteriormente nas mãos de intermediários, a remuneração dos agricultores por esse subproduto agora tem a FNC como entidade fiscalizadora, o que traz mais segurança aos produtores. 

Após o descascamento, a escolha resulta em grãos defeituosos e escuros, muitas vezes misturados com café de melhor qualidade para exportação. A escolha de descascamento, geralmente não utilizada no mercado, pode encontrar opções de comercialização. Ela pode ser vendida com uma pequena porcentagem em café destinado à exportação ou processada para café mais econômico no mercado interno, já que grandes indústrias ajustam proporções para criar diferentes produtos.

Mão afundando em uma grande quantidade de cafés em pergaminho durante processo de seca.

O mercado de escolha concentra-se em torrefadoras e fábricas de café solúvel, destacando-se no café liofilizado. Apesar de não ser de excelente qualidade, a escolha possui valor econômico, utilizado na indústria alimentícia e na produção nacional de café de baixo custo.

Embora considerada indesejada pelos produtores, a escolha pode ser reduzida com práticas aprimoradas na colheita, beneficiamento, secagem e descascamento. E quando aproveitada corretamente, a escolha pode representar uma fonte adicional de renda para as fazendas de café.

Gostou deste artigo? Então leia sobre a produção e rentabilidade do café ambientalmente sustentável

Créditos das imagens: José Posada, Harvey Lesmes.

PDG Espanhol

Tradução: Ana Mercedes Fernández

Quer ler mais artigos como este? Assine a nossa newsletter semanal aqui!

The post Escolha: Aprenda tanto a evitar como a aproveitar esse subproduto do cultivo  appeared first on PDG Brasil.

]]>
Produção orgânica: a verdadeira diferenciação na qualidade do café? https://perfectdailygrind.com/pt/2024/02/19/producao-organica-cafe/ Mon, 19 Feb 2024 11:01:00 +0000 https://perfectdailygrind.com/pt/?p=13901 A agricultura tradicional e em grande escala apresenta sintomas de esgotamento devido às questões climáticas e suas repercussões na saúde humana e em vários ecossistemas. Dada a crescente preocupação global com o aquecimento global e a utilização intensiva da aditivos e agroquímicos nos alimentos, alguns países começam a considerar a possibilidade de recorrer a práticas […]

The post Produção orgânica: a verdadeira diferenciação na qualidade do café? appeared first on PDG Brasil.

]]>
A agricultura tradicional e em grande escala apresenta sintomas de esgotamento devido às questões climáticas e suas repercussões na saúde humana e em vários ecossistemas. Dada a crescente preocupação global com o aquecimento global e a utilização intensiva da aditivos e agroquímicos nos alimentos, alguns países começam a considerar a possibilidade de recorrer a práticas mais responsáveis como a produção orgânica.

Neste contexto, muitos se perguntam se a transição para esse modelo de agricultura poderia levar os produtores de café a alcançar qualidade diferencial em suas lavouras sem renunciar à rentabilidade da safra. Para entender melhor esta alternativa conversei com três especialistas: Diego Carlier da Colômbia, Mauricio Leon do Equador e Sonia Vasquez de Honduras. Continue lendo e descubra suas opiniões.

Leia também: Como minimizar a impressão digital de carbono na produção de café orgânico: um estudo

Estufa para secagem de café em meio À lavoura

ALÉM DOS ORGÂNICOS: SISTEMAS DE PRODUÇÃO DE BAIXO IMPACTO

Uma das práticas de produção agropecuária mais sustentáveis é a permacultura, desenvolvida no final da década de 1970 por David Holmgren e Bill Mollison. Atualmente ela está difundida como técnica ambientalmente responsável e consolidada como uma tendência que fornece soluções para problemas complexos para a produção de alimentos.

Desde as suas primeiras definições, a permacultura tem sido regida por três princípios básicos: o cuidado do planeta, o cuidado das pessoas e a distribuição justa dos lucros ou lucros provenientes da comercialização de produtos. Diego Carlier Prada é um cafeicultor de quarta geração no departamento de Santander, Colômbia. Ele conhece bem os sistemas de produção agrícola e define a permacultura como “o conceito mais importante que deve ser aplicado a toda a produção agrícola em todo o mundo”.

Segundo ele, a permacultura é a forma mais inteligente de enfrentar importantes desafios de sobrevivência como as alterações climáticas como civilização, transformando os nossos recursos de forma sustentável e amiga do ambiente, sendo coletivamente eficientes e harmoniosos com o ambiente.

Sem questionar as suas vantagens como sistema de produção, no caso do café não consegue ter impacto suficiente para alavancar uma transformação do mercado, mantendo o volume atual e garantindo o sucesso da transição. Outro desafio dessa técnica na produção de café é ter os componentes necessários para manter a qualidade do perfil da xícara que os clientes internacionais exigem hoje.

Por sua vez, existem outros sistemas de produção que procuram respeitar os ciclos de vida dos componentes da terra e aproveitá-los para fertilizá-la sem recorrer a substâncias químicas que aceleram os processos. Entre as mais praticadas estão a agricultura sintrópica e regenerativa, que se concentra na compreensão dos processos naturais que os ecossistemas ativam para equilibrar a vida nas áreas de cultivo.

A soberania alimentar

A espinha dorsal da permacultura e de outros sistemas semelhantes é a renúncia ao uso de agentes químicos na preparação e desenvolvimento de solos para cultivo. A estes valores devemos acrescentar um fator crucial para o seu sucesso nas áreas agrícolas tradicionais familiares ou de pequena escala: a soberania alimentar.

A permacultura possibilita que os produtores cultivem gradativamente outros alimentos que lhes permitam gerar opções de negócios e, ao mesmo tempo, abastecer-se de produtos suficientes para alimentar sua família e até mesmo sua comunidade. Esse sistema produtivo busca se proteger dos impactos da dinâmica dos preços internacionais do café. Geralmente, uma queda acentuada nos preços deixa uma família de produtores sem lucros ou rendimentos e até viola o seu direito humano a uma alimentação adequada e decente.

Frutas consorciadas em lavoura de café -- produção orgânica

O CONCEITO DA PRODUÇÃO ORGÂNICA

No livro Guia para a Cafeicultura Ecológica, os autores Beatriz Fischersworring e Robert Robkamp definem este modelo como “uma forma de produção agropecuária intensiva e equilibrada que trata de buscar uma concordância entre os sistemas tradicionais e as práticas de manejo de gestão da agricultura orgânica moderna. Nesse sentido, a cafeicultura orgânica pensa na saúde humana e no impacto que o café pode causar sobre ela.

Kenlly Mauricio Leon é cafeicultor de Galápagos, no Equador, e assim define a produção orgânica: “é cuidar da saúde da comunidade através dos produtos agrícolas, oferecendo como resultado final não só um produto de qualidade, mas também saudável”.  

“A implementação de práticas orgânicas e de permacultura na produção de café é uma necessidade urgente. Essa dinâmica transcende diferentes dimensões e permite o desenvolvimento de sistemas produtivos sustentáveis, benéficos ao meio ambiente, à saúde do consumidor, à organização empresarial e à sociedade em geral”, afirma Diego.

Vista de um pátio de secagem de cafés

A TRANSIÇÃO PARA UMA CAFEICULTURA ORGÂNICA

A qualidade de um produto não pode ser medida apenas pelos atributos excepcionais que possui para conquistar um mercado específico. No que diz respeito à cafeicultura, as fontes consultadas concordam em dar especial valor ao impacto social da produção agroecológica.

Fazer a transição para uma opção biológica passa por pensar em vários fatores como o bem-estar da família, a saúde da terra e, claro, a rentabilidade. Kenlly Mauricio comenta que “a dificuldade é encontrar consumidores que estejam dispostos a pagar por um produto verdadeiramente de qualidade, já que a sociedade atual não considera muito os produtos químicos que consome nos produtos agrícolas”.

Tal como acontece com outras formas de cultivo, o café orgânico não escapa às conhecidas desvantagens que a cadeia de valor enfrenta. No seu caso, Diego resume assim: “são várias as dificuldades que os produtores podem encontrar durante esta transição. A ameaça mais relevante é o baixo preço pago pela indústria aos cafeicultores, que não compensa realmente o esforço para produzir um café com essas características.”

Esse equilíbrio entre produção saudável e preços justos que proporcionem sustentabilidade às famílias produtoras é o grande desafio. Os pequenos produtores de café têm a oportunidade de implementar a agricultura orgânica com mais vigor. Ao não terem a obrigação de sustentar uma monocultura, podem diversificar suas áreas plantadas com produtos compatíveis com o cafeeiro e suas necessidades alimentares.

Como pode ser mais fácil?

Para Sonia Vázquez, produtora hondurenha, é fundamental que os produtores tenham conhecimento sobre:

  •  Diferentes propostas sobre como fazer agricultura orgânica nas fazendas
  • Regulamentos e normas
  • Certificação
  • Aplicação em unidades produtivas
  • Registros de atividades

“Os produtores organizados conseguem ser mais eficientes e rentáveis nos processos de transição e certificação orgânica de suas fazendas. E com isso buscar mercados que comprem seu café de forma coletiva.” Além disso, ela afirma que num mercado mutável e que exige cada vez mais certificações diferentes, “os produtos biológicos têm uma vida útil mais longa”. Algo que representa uma vantagem competitiva para produtores e comerciantes.  

O cultivo do café orgânico está se tornando cada vez mais importante nos países produtores. Em alguns casos, a tal ponto que as formas tradicionais não encontram mais lugar e geralmente é a opção mais responsável de produção. Sónia considera que “o principal recurso dos produtores é o solo. Se a sua saúde e nutrição forem recuperadas, as famílias produtoras podem diversificar as suas culturas e rendimentos. A agricultura biológica e a permacultura permitem a gestão sustentável do solo e da água. E esses recursos estão intimamente ligados aos direitos humanos, como a alimentação, o acesso à água e outros.”

A verdadeira diferenciação de qualidade?

Em um mercado que exige cada vez mais diferenciação, rastreabilidade e perfis de sabores exóticos, o conceito de qualidade começa a ser mais complexo de se definir. Embora a pontuação na xícara tenha sido, e provavelmente continuará a ser, um fator determinante, cada vez mais outras considerações entram em jogo.

O impacto social, ambiental e econômico associado à produção vem ganhando força não só entre os consumidores, mas também entre os mercados e os governos. Um exemplo claro é a regulamentação sobre produtores que contribuem para o desmatamento e por isso são impedidos de exportarem para a União Europeia. Tendo em conta que em países como o Peru a percentagem de exportações para UE beira 50% da sua produção, o impacto disso é enorme.

Qualidade vai além de atributos sensoriais

Nesse contexto, começa a surgir uma ressignificação da qualidade do café. E ela está associada a aspectos que transcendem o sabor e que apelam a fatores mais complexos.

Surge, então, uma oportunidade para os produtores orgânicos se destacarem num marcado por más práticas. E com isso oferecer um produto que priorize sua saúde e bem-estar, ao mesmo tempo que cuida dos consumidores e do planeta.

Bananas plantadas em consórcio com a lavoura de café em produção orgânica

Estima-se que os pequenos produtores forneçam cerca de 80% dos alimentos que consumimos em todo o mundo. Assim, a agricultura orgânica encontra terreno fértil para alimentar a humanidade de forma saudável, combater a fome e tentar frear o aquecimento global.

Tudo isso, sem abrir mão de uma condição de vida digna, com rentabilidade consistente e justa para os produtores de café. Ainda que os benefícios do café de produção orgânica sejam grandes, ainda existem desafios. E certamente, um dos maiores entre eles é convencer mais torradores e provadores com perfis de alta qualidade.

Gostou deste artigo? Então leia sobre a fertilização e produção de fertilizantes orgânicos a partir de plantas

Créditos das imagens: Diego Carlier, Kenlly León, Rober Vivas.

PDG Español

Traduzido por Anne Pomagerski

Quer ler mais artigos como este? Assine nossa newsletter semanal aqui!

The post Produção orgânica: a verdadeira diferenciação na qualidade do café? appeared first on PDG Brasil.

]]>