Comércio de Café Verde Archives - PDG Brasil https://perfectdailygrind.com/pt/category/comercio-de-cafe-verde-2/ Revista digital sobre café, da fazenda à xícara Fri, 07 Jun 2024 19:25:59 +0000 pt-BR hourly 1 https://perfectdailygrind.com/pt/wp-content/uploads/sites/5/2020/02/cropped-pdgbr-icon-32x32.png Comércio de Café Verde Archives - PDG Brasil https://perfectdailygrind.com/pt/category/comercio-de-cafe-verde-2/ 32 32 Como é Determinado o Preço do Café – Introdução ao Mercado de Futuros e Bolsa de Valores https://perfectdailygrind.com/pt/2024/06/07/como-funciona-mercado-cafe/ Fri, 07 Jun 2024 07:01:00 +0000 https://perfectdailygrind.com/pt/?p=14371 Dizer que um café da variedade Catuaí pertence à espécie arábica pode parecer algo simples de entender. No entanto, talvez essa afirmação não seja óbvia para alguém que está apenas começando sua jornada. O mesmo acontece quando falamos sobre as dinâmicas do preço e do mercado do café: para alguns, pode parecer um tema complicado. […]

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Dizer que um café da variedade Catuaí pertence à espécie arábica pode parecer algo simples de entender. No entanto, talvez essa afirmação não seja óbvia para alguém que está apenas começando sua jornada. O mesmo acontece quando falamos sobre as dinâmicas do preço e do mercado do café: para alguns, pode parecer um tema complicado.

Este breve guia introdutório foi feito para compreender de forma simples os mercados de Futuros e como eles influenciam o preço do café. Continue lendo para saber mais.

Conceitos Básicos

O que são Mercados?

Para começar, é importante entender o conceito básico de mercado. Conforme diz o site Economipedia, “o mercado é um processo que opera quando há pessoas atuando como compradores e outras como vendedores, gerando a ação de troca”.

O conceito de mercado abrange dois fatores-chave:

  • troca: o mercado envolve a troca de bens ou serviços entre compradores e vendedores;
  • atores: existem dois tipos, ou seja, compradores e vendedores.

Existem diversos tipos de mercado. Um deles são os mercados financeiros, cujo objetivo principal é movimentar a poupança para o investimento. Em outras palavras, eles facilitam que os poupadores ou detentores de liquidez obtenham um benefício emprestando seu dinheiro para quem precisa, como forma de investimento.

Segundo o tipo de ativos ou investimentos negociados, os mercados financeiros podem ser classificados em quatro categorias distintas: monetários, de capitais, de moedas e de derivativos financeiros.

Os mercados de derivativos financeiros são a categoria que inclui os Futuros de café. Seu nome sugere que sua existência depende de outro produto, que pode ser financeiro (como uma ação ou um título) ou não financeiro (como o café e outras commodities). Este produto de referência é conhecido como “ativo subjacente”.

Além disso, os mercados financeiros, conforme o grau de formalização e regulação que lhes é aplicado, podem ser divididos em mercados organizados, como as bolsas de valores, e mercados não organizados (Over the Counter, OTC, em inglês) que realizam suas operações diretamente entre as duas partes, sem recorrer a intermediários.

Agora que entendemos esses conceitos, podemos definir o mercado de Futuros de café como um mercado organizado onde são negociados derivativos financeiros chamados Futuros. Esses contratos padronizados envolvem duas partes que se comprometem a trocar uma quantidade e qualidade de café predeterminadas em uma data futura.

A Bolsa de Valores

Uma bolsa de valores é uma instituição financeira estruturada que opera conforme a legislação aplicável no país onde está localizada. Geralmente, são empresas públicas, cujas ações também podem ser adquiridas.

As bolsas de valores operam em conjunto com as câmaras de compensação, que são instituições ou associações que agrupam agentes financeiros e facilitam as operações e pagamentos periódicos entre eles.

Existem mais de 300 bolsas de valores em todo o mundo, mas apenas três delas negociam Futuros de café: Futuros de Café “C” ou arábica, na bolsa denominada Intercontinental Exchange (ICE) em Nova York, e Futuros de Café Robusta na Intercontinental Exchange Europa (LIFFE) e Futuros de Café Arábica 4/5 e 6/7 na B3 do Brasil.

Como é Determinado o Preço do Café?

Muitas vezes se pensa que é a bolsa de valores que determina os preços do café. No entanto, é importante esclarecer que existem três tipos de mercado e cada um tem sua maneira de estabelecer os preços:

  • mercado direto: onde comprador e vendedor determinam o preço segundo a oferta e demanda;
  • mercado intermediado: onde um dos atores é uma entidade financeira e atua como intermediário na fixação de preços;
  • mercado de leilões: onde compradores e vendedores dão a conhecer o preço no qual estariam dispostos a comprar (bid) ou vender (ask).

Como se dá a operação das bolsas de valores?

Todas as bolsas de valores operam como mercados de leilões. Elas usam sistemas eletrônicos e organizam os bids e asks dos atores de cada mercado, e o preço ao qual se fecham as transações se converte no preço de mercado. A ordenação dos bids se faz do preço mais alto para o mais baixo, enquanto os asks se ordenam do preço mais baixo para o mais alto.

Exemplo:

Vamos imaginar que três pessoas estão tentando negociar um lote de café cada uma.

CompradorbidaskVendedor
Comprador 1125126Vendedor 1
Comprador 2123128Vendedor 2
Comprador 3120130Vendedor 3

Como vemos, o Comprador 1 e o Vendedor 1 estão separados por 1 centavo de diferença. Para a transação ocorrer, um dos dois terá que ceder em preço. Quem cede? Depende das condições de oferta e demanda no momento. Suponhamos que exista um rumor de escassez de café no curto prazo. Provavelmente, veremos isso:

CompradorbidaskVendedor
Comprador 1126126Vendedor 1
Comprador 2126128Vendedor 2
Comprador 3126130Vendedor 3

Se isso acontecer, a transação entre Comprador 1 e Vendedor 1 se concluirá e, portanto, 126 será o novo preço de mercado. Nesse cenário, o Vendedor 2 deve decidir se reduz seu preço para 126 ou mantém seu preço de 128 e espera que algum comprador decida aumentar o preço que está disposto a pagar.

Agora, suponha que o Vendedor 3 tenha uma emergência pessoal e precise vender imediatamente. Portanto, em vez de manter seu preço em 130, ele decide reduzir seu preço para 127. Ao mesmo tempo, o Comprador 2 não quer mais esperar e decide aumentar seu preço para 127. Veríamos algo assim:

CompradorbidaskVendedor
Comprador 2127127Vendedor 3
Comprador 3126128Vendedor 2

Nesse caso, se faria uma nova transação, levando a um novo preço de mercado: 127.

Agora, imagine isso acontecendo com milhares de transações e movimentos por segundo. É assim que se formam os preços. A função da bolsa de valores é facilitar a estrutura para que os participantes do mercado possam realizar suas transações com segurança e dar visibilidade aos preços aos quais as trocas entre compradores e vendedores estão ocorrendo.

Participantes do Mercado de Futuros

O mercado de futuros envolve dois tipos de participantes: os hedgers e os investidores. Os hedgers são pessoas ou empresas que usam derivativos financeiros como uma ferramenta para minimizar seu risco de preço, ou seja, proteger-se contra flutuações drásticas. Os investidores são aqueles que estão dispostos a correr riscos em troca da possibilidade de gerar lucros.

Ambos são necessários, pois mais participantes se traduz em maior liquidez do mercado, ou seja, na capacidade de trocar os ativos por dinheiro a curto prazo.

Para realizar suas transações, os participantes devem fazê-lo mediante um corretor de bolsa, que é uma pessoa ou entidade autorizada a atuar como intermediário na compra e venda de produtos financeiros, através das plataformas e requisitos fornecidos pelas bolsas.

Embora a câmara de compensação atue como compradora para cada vendedor e vice-versa, e embora todas as transações, quando concluídas, deem a impressão de ser unilaterais, é importante enfatizar que cada Futuro comprado ou vendido tem como contraparte um hedger ou um investidor. E este pode ser qualquer pessoa, como você ou eu.

O Negócio da Bolsa

Conforme mencionamos anteriormente, muitas bolsas são empresas privadas e visam lucro. Para fornecer uma plataforma comercial líquida e segura aos participantes, cobram uma comissão por cada transação realizada. Essas comissões também se aplicam aos serviços das câmaras de compensação e corretoras, que também cobram dos participantes que utilizam seus serviços.

Movimentos do Mercado

Todo mercado possui propriedades intrínsecas, como a volatilidade, que, no caso dos Futuros de café, refere-se à variabilidade dos preços. E vários são os fatores que a influenciam, incluindo os sentimentos experimentados pelos participantes do mercado.

Por exemplo, nos mercados agrícolas, quando há tranquilidade e confiança de que o fornecimento de uma matéria-prima será estável no futuro, a volatilidade diminui e os preços tendem a cair. Isso ocorre porque os compradores não veem a necessidade urgente de garantir o suprimento futuro.

Por outro lado, quando há temor de escassez, a volatilidade tende a aumentar e os compradores começam a realizar compras antecipadas para garantir seu abastecimento, e os preços tendem a subir.

As situações que promovem “tranquilidade” ou “temor” podem variar, mas certamente sabemos que, no caso do café, uma geada ou uma seca no Brasil está geralmente relacionada a aumentos de preço (temor), enquanto uma colheita recorde e relatórios de grande oferta de café nesse país (tranquilidade) resultam em diminuição de preço.

Os fatores relacionados ao equilíbrio entre produção e consumo mundial, situações na cadeia de suprimentos, relatórios climáticos com influência nas regiões produtoras de café, relatórios macroeconômicos dos principais países produtores e consumidores, entre outros, são conhecidos como fatores de Análise Fundamental.

Existe uma forma de prever os movimentos do mercado?

Por outro lado, temos a Análise Técnica, que se baseia na análise do comportamento histórico e sazonal dos preços dos mercados por meio de gráficos, histogramas e outros indicadores, visando tentar prever qual será o próximo movimento.

Embora seja impossível prever com precisão os movimentos de preço que um mercado terá, conhecer os fundamentos desses dois tipos de análise nos permite compreender questões básicas. Entre elas estão as tendências de longo, médio e curto prazo, movimentos de tendência e contra-tendência e objetivos de movimento de preços para desenvolver estratégias de cobertura ou de investimento, entre outros.

Se você deseja aprofundar nesse tema, recomendo usar recursos gratuitos online para ler sobre a Teoria de Dow e a Teoria das Ondas de Elliot.

O preço do café sofre a influência de uma variedade de fatores, cujas flutuações estão ligadas às dinâmicas do mercado. Compreender essas nuances é crucial para cafeicultores e outros envolvidos na cadeia de suprimentos, pois lhes permite tomar decisões mais informadas.

Embora o conhecimento sobre o mercado do café possa parecer complexo devido à sua amplitude, é fundamental desvendá-lo para tomar decisões eficazes. Em nosso próximo artigo, exploraremos detalhadamente os Futuros de Café “C”, também conhecidos como Contrato “C”.

Você gostou deste artigo? Então leia sobre a Flutuação Cambial e seu impacto no preço do café.

Créditos das imagens: Jon Arnold, Henry Wilson e Julio Guevara.

PDG Brasil

Traduzido por Ana Mercedes Fernández

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Guia do Produtor: Fundamentos da Exportação de Café https://perfectdailygrind.com/pt/2024/04/03/guia-exportacao-cafe/ Wed, 03 Apr 2024 07:03:00 +0000 https://perfectdailygrind.com/pt/?p=14119 Depois de um ano de trabalho árduo para garantir uma ótima colheita de café, processada com cuidado e que talvez receba prêmios por sua qualidade, é normal se perguntar: qual é o próximo passo? A exportação se mostra como uma oportunidade para vender seu café nos mercados certos e assim garantir os melhores preços. Seja […]

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Depois de um ano de trabalho árduo para garantir uma ótima colheita de café, processada com cuidado e que talvez receba prêmios por sua qualidade, é normal se perguntar: qual é o próximo passo? A exportação se mostra como uma oportunidade para vender seu café nos mercados certos e assim garantir os melhores preços.

Seja esta sua primeira vez exportando café ou se está pensando em explorar novos mercados, é importante entender o processo de exportação e calcular os custos com precisão. Com a ajuda de especialistas da Guatemala e do México, elaboramos este guia para ajudar você a entender os principais pontos ao começar a exportar seu café. Continue lendo para descobrir as dicas e orientações que eles compartilharam conosco.

Também pode ser do seu interesse: Guia do Produtor: Preparando o Café para Exportação

Trabalhar em Equipe

Conforme o mais recente relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, as exportações globais de café alcançaram 114,4 milhões de sacas entre 2019 e 2020. O Brasil liderou esse aumento, com um acréscimo de 3,5 milhões de sacas, enquanto Honduras registrou a maior diminuição, com 600 mil sacas a menos.

Embora esses números possam parecer desafiadores para pequenos produtores, é possível ingressar no mercado de exportação. O primeiro passo é registrar-se junto às entidades reguladoras do comércio de café em seu país para formalizar a comercialização, conforme aconselha Sergio Mazariegos, Coordenador do Comitê de Cafés Diferenciados na Associação de Exportadores da Guatemala (AGEXPORT).

Sergio destaca ainda a importância de participar ativamente em sua comunidade e unir-se a outros cafeicultores. “Se uma pessoa não tem recursos ou volume de café suficientes, é importante se juntar a uma cooperativa, uma associação ou organização que permita a comercialização conjunta.”.

Uma vez que você tenha o apoio de uma organização ou parceiro, é fundamental definir seus objetivos, ou seja, onde você deseja chegar com seu café. Ernesto Pérez, Diretor Comercial do APG Grupo Cafetalero, no México, destaca a importância de identificar o tipo de cliente interessado em seu produto, seja um torrefador, um distribuidor ou uma importadora. Conhecer o perfil das empresas é essencial para o sucesso na exportação.

Se você tem os recursos necessários para financiar o processamento do seu café e sua colheita pode encher um contêiner com cerca de 35T, é possível realizar a exportação por conta própria. Para isso, você deve solicitar uma licença junto aos órgãos reguladores em seu país e seguir os procedimentos necessários. No entanto, é importante contar com os serviços de um despachante aduaneiro para facilitar os trâmites nos países de origem e destino, além de auxiliar na gestão eficiente do transporte.

Compreendendo o processo de exportação

Exportar café envolve três etapas fundamentais: comercialização, logística e financiamento. Como produtor, é vital dominar cada uma delas para planejar seu projeto e estrutura de custos eficazmente.

Na fase de comercialização, começa-se identificando um cliente ou mercado-alvo para seu café. É essencial compreender a qualidade do produto, analisar a demanda, avaliar o potencial nos mercados internacionais e estabelecer metas realistas.

Sérgio, com 18 anos de experiência capacitando produtores no curso virtual de Exportação de Café Diferenciado oferecido pela AGEXPORT, destaca a importância de os produtores terem acesso a informações de mercado, custos e estrutura. Ele enfatiza a necessidade de definir claramente o ponto de equilíbrio, o preço de venda e a margem desejada para garantir uma operação financeiramente viável e sustentável. Além de “estar satisfeito e poder cobrir meu sistema de produção, pagar adequadamente minha equipe e viver dignamente”.

As cooperativas, federações e associações em cada país geralmente oferecem programas de capacitação contínua para que os produtores de café se familiarizem com os termos de exportação. Sérgio também recomenda investir em sistemas de produção agrícola competitivos, expandir a área de cultivo com café especial e, se possível, obter certificações para o produto, a fim de agregar valor e rentabilizar os recursos investidos.

Em relação à produção, ele aconselha agregar valor ao produto por meio de processos de industrialização e gerenciar adequadamente as informações técnicas do café, conhecendo suas características e particularidades. Na área comercial, para garantir competitividade, o produtor deve dominar aspectos como os Incoterms, os termos dos contratos de compra e venda, as leis e regulamentos, além de explorar estratégias de comércio eletrônico e marketing digital específico para o café.

Você também pode se interessar pelo Guia do Produtor: Entendendo a Cadeia de Suprimentos do Café.

Qualidade, confiança e transparência

Ernesto tem parcerias com cafeicultores da região de Coatepec, no México, exportando café para os Estados Unidos, Canadá e Coreia do Sul. Ele ressalta a importância de compreender os cronogramas de produção e comercialização. Isso porque entre a colheita, o envio de amostras e o embarque, existem períodos de repouso que variam conforme a região e fatores como umidade, densidade, altitude e variedade do café. E isso impacta sua qualidade e perfil sensorial ao longo do tempo.

“Contar com provadores certificados é crucial para identificar o momento em que o café está pronto, permitindo que os clientes recebam amostras verdadeiramente representativas”, afirma Ernesto.

Quando temos um cliente definido e um café de qualidade assegurada, Sergio recomenda documentar cuidadosamente cada pagamento e compreender todas as faturas e contratos. E eles podem variar segundo o tipo de contrato estabelecido com o comprador e se trata de uma importadora ou torrefador, sendo essencial especificar claramente no contrato quais custos são cobertos pelo produtor, exportador e comprador.

Para gerenciar os pagamentos eficientemente, é essencial contar com uma parte confiável, como uma cooperativa, associação ou exportador, responsável pela logística e contabilidade. Confiança e transparência são fundamentais no relacionamento entre produtor e exportador: “Não se trata apenas quem ganha mais ou menos. Esse é um dos dilemas a serem resolvidos”, alerta Sergio. Ele destaca ainda a importância de o cafeicultor conhecer seus custos para garantir um preço justo após deduções e pagamentos.

Nesse contexto, o papel do intermediário é vital ao deter as licenças de exportação, compreender a legislação e possuir as autorizações necessárias para garantir que o café chegue ao comprador em boas condições e conforme a amostra que ele aprovou.

Logística: o início da jornada do café

Para exportar café, é necessário lidar com permissões. Existem requisitos fitossanitários para garantir a qualidade do produto. Além disso, licenças de exportação são cruciais para obter o Certificado de Origem e gerar os códigos OIC, que identificam a origem do café e o exportador. Esses códigos seguem regulamentações internacionais da Organização Internacional do Café no Regulamento de Estatísticas dos Certificados de Origem.

Uma vez que as permissões estejam em ordem, o café está pronto para iniciar sua viagem. Ernesto destaca que, para o transporte terrestre, é vital conhecer bem as rotas e ter um seguro contra roubo. Eespecialmente em áreas com altos índices de criminalidade.

A via marítima é a mais comum para a exportação de café, mesmo que não seja a mais rápida. Portanto, é importante que o produtor compreenda quanto tempo o café ficará no porto, em trânsito e na alfândega. Ernesto ressalta que, “se os prazos não forem bem compreendidos, os custos alfandegários podem ser elevados. É fundamental conhecer a logística no país de destino ou contar com uma empresa que ofereça essas soluções”.

O exportador ou intermediário devem garantir proteção contra qualquer imprevisto ao café. Sergio destaca a importância de considerar o momento do pagamento e a cobertura de riscos. Toda mercadoria comercializada internacionalmente deve ser gerenciada com seguros. Ele enfatiza: “Até onde vai minha responsabilidade, até onde eu despacho e até onde cubro meus riscos”. Neste ponto, é importante falar sobre Incoterms, um assunto que o cafeicultor precisa entender ao fazer sua estrutura de custos.

Termos de remessa

Conhecer os Incoterms (Termos Internacionais de Comércio) é essencial para definir responsabilidades e riscos na exportação de produtos. Cada termo determina quando o café passa de uma parte para outra e quem é responsável pela carga durante o transporte.

A exportação de café FOB (Free on Board) é o Incoterm mais usado. O produtor ou exportador assume riscos e custos até o café ser carregado no navio. Sendo o comprador responsável nas etapas seguintes, pagando pelo transporte e seguro.

Ernesto destaca que exportar café sob o termo FOB “pode ser a melhor maneira de negociar o preço.” Continuando, ele explica que “as empresas importadoras geralmente têm acesso a melhores preços de transporte”. Independentemente do Incoterm, é crucial entender que implica em custos, fundamentais para calcular o preço final da carga.

Vale ressaltar que pode haver limitações quanto ao volume que um pequeno produtor pode negociar no exterior. Segundo Sergio, nos países da América Central não há restrições, permitindo total liberdade para exportar.

Saiba mais sobre Incoterms: Glossário de termos contratuais para o comprador de café

Quando você receberá o pagamento pela sua colheita?

Após entregar o café ao comprador final, seja importadora ou torrefador, os cafeicultores enfrentam um desafio: os prazos de pagamento. Essa etapa é crucial, influenciando na capacidade do produtor de continuar exportando.

Ernesto explica que o financiamento do estoque, do processamento à entrega, pode demandar de 6 a 12 meses. Oferecer café especial compensa a espera, já que o mercado internacional paga melhores preços.

Concordando, Sergio destaca que exportar parte da produção representa oportunidade de desenvolvimento. Gerenciar o fluxo de caixa é crucial, pois o pagamento pode demorar até agosto ou setembro. Sergio enfatiza a importância do financiamento para os produtores durante esse intervalo.

Exportar sua colheita de café não apenas pode ajudá-lo a conseguir melhores preços, mas também representa uma oportunidade para que seu café ganhe reconhecimento mundial e estabeleça novas parcerias. Entender seus custos e o processo de exportação é essencial para o sucesso.

Conforme mencionado por Ernesto, essa jornada é viável quando o pequeno produtor conta com o apoio de uma associação ou empresa confiável, capaz de lidar com volumes significativos e tornar a exportação mais eficiente, além de auxiliá-lo a enfrentar os desafios impostos pelo mercado internacional.

Gostou deste artigo? Então, leia sobre como garantir a qualidade do café verde armazenado e em trânsito.

Créditos das imagens: APG Grupo Cafetalero e Diana Fisgativa

PDG Brasil

Traduzido por: Ana Mercedes Fernández

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O impacto do fornecimento sustentável de café a longo prazo https://perfectdailygrind.com/pt/2024/02/12/fornecimento-sustentavel-cafe/ Mon, 12 Feb 2024 11:02:00 +0000 https://perfectdailygrind.com/pt/?p=13864 Nos últimos anos, o consumo global de café tem aumentado. No relatório da Organização Internacional do Café de fevereiro de 2022, estimou-se um déficit global de mais de 3,1 milhões de sacas de café de 60 kg. Efetivamente, isso significa que os sinais apontam para o consumo de café em todo o mundo superando a […]

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Nos últimos anos, o consumo global de café tem aumentado. No relatório da Organização Internacional do Café de fevereiro de 2022, estimou-se um déficit global de mais de 3,1 milhões de sacas de café de 60 kg. Efetivamente, isso significa que os sinais apontam para o consumo de café em todo o mundo superando a produção global. Para que a indústria cafeeira resolva esse problema, ela precisa atender ao crescente apelo por fornecimento sustentável de café a longo prazo. 

Ao fazer isso, podemos apoiar uma produção de café mais social e ambientalmente amigável, além de capacitar os pequenos agricultores para melhorar seus meios de subsistência socioeconômicos e cultivar um café mais resistente ao clima no futuro. Então, o que exatamente é o fornecimento sustentável a longo prazo e como ele pode ser alcançado? Para saber mais, conversei com três profissionais da indústria que fornecem café Fairtrade. Continue lendo para saber mais sobre seus insights.

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Trabalhadoras carregando sacas de café sobre a cabeça em meio à lavoura

O QUE É FORNECIMENTO SUSTENTÁVEL NO LONGO PRAZO?

A sustentabilidade tornou-se uma questão importante no setor do café ao longo da última década – então, o que realmente queremos dizer quando falamos sobre fornecimento sustentável? 

Os compradores e torrefadores de café verde precisam adquirir café verde, seja de comerciantes ou diretamente de produtores. Para fazer isso de forma sustentável, uma série de necessidades que respondam por vários fatores sociais, econômicos e ambientais devem ser atendidas. Estima-se que os pequenos agricultores produzam  até 70 a 80%  da oferta global de café – tornando-os uma parte essencial de uma indústria de café sustentável. No entanto, muitos deles atualmente não ganham uma renda digna, o que os deixa e suas famílias economicamente vulneráveis.

Além disso, apesar do alto preço por libra-peso atual, o mercado de café tem historicamente sido volátil. Ainda em 2018, o preço de mercado flutuou em torno de US$ 1/lb – sem dúvida levando muitos pequenos agricultores a uma maior pobreza. Sem a capacidade financeira de investir na gestão agrícola, alguns agricultores são forçados a abandonar completamente a produção de café em busca de culturas de caixa mais lucrativas. E com as mudanças climáticas ameaçando cada vez mais o futuro da indústria cafeeira, salvaguardar a produção de café nunca foi tão importante.

Como meio de fazer isso, uma grande parte do fornecimento sustentável de café pode ser encapsulada no conceito de “café de relacionamento”. É quando produtores, comerciantes e torrefadores trabalham juntos para construir parcerias fortes e mutuamente benéficas. A longo prazo, isso pode levar a relações de trabalho que não só garantem aos torrefadores um certo volume e nível de qualidade, mas também tranquilizam os agricultores de que seu café será comprado por um determinado número de anos.

CRIANDO E FORTALECENDO LAÇOS

Amy Oroko é a gerente de sustentabilidade da torrefação Matthew Algie, de Glasgow, parceiro da Fairtrade UK há 25 anos. “Nós nos concentramos no desenvolvimento de relacionamentos de longo prazo com nossos principais fornecedores de grande volume – não é incomum trabalharmos com eles há pelo menos 10 anos”, diz ela.

Assim, quanto mais tempo os produtores puderem trabalhar em estreita colaboração com comerciantes e torrefadores, mais aberta poderá ser a comunicação. Por exemplo, os torrefadores podem informar aos produtores quais cafés são os mais populares entre os consumidores, enquanto os agricultores podem ser francos sobre o apoio que podem precisar para continuar cultivando esses cafés.

As certificações podem ser um componente significativo dos modelos de comércio direto. Um exemplo é o Fair trade, que consulta as principais partes interessadas da cadeia de suprimentos (incluindo cooperativas, governos e o setor privado) ao definir ou revisar seus padrões sociais, econômicos e ambientais no setor cafeeiro. “O comércio direto e as certificações não são mutuamente exclusivos, mas sim uma oportunidade de aproveitar o melhor dos dois mundos”, diz Amy. “Eles permitem que os atores da cadeia de suprimentos se beneficiem de certificações e relacionamentos de longo prazo com os produtores.”

Priscilla Daniel é uma comerciante de café sênior e Q Grader na DRWakefield, a primeira importadora no Reino Unido a receber uma certificação Fairtrade. “A sustentabilidade é parte integrante não só do café que obtemos, mas do nosso negócio como um todo”, explica. “As certificações são uma parte importante disso – cerca de 30% do nosso café é certificado pelo Fair trade.”

Trabalhadora analisando a secagem das cerejas de café

POR QUE O FORNECIMENTO SUSTENTÁVEL NO LONGO PRAZO É TÃO IMPORTANTE?

Não é necessário dizer que há uma série de benefícios para o fornecimento sustentável de café a longo prazo. Entre eles está a garantia de que os agricultores ganhem melhor pelo seu café. Grande parte do modelo Fair trade está focada em garantir que as empresas paguem valores justos e um prêmio para melhorar os meios de subsistência socioeconômicos dos pequenos produtores de café em todo o mundo.

Os dois modelos de preços funcionam de forma diferente. Enquanto o primeiro garante um preço mínimo para o seu café Fairtrade apesar das flutuações do mercado, o último permite que eles ganhem US$ 20 centavos/lb além do valor pago. Por sua vez, pelo menos 25% do Prêmio Fairtrade é investido em treinamento e auxílio para melhorar a qualidade, a produtividade e a sustentabilidade do café.

Carlos Renato Alvarenga é presidente da Cafésul , uma cooperativa brasileira com mais de 180 membros, certificada pelo Fair trade desde 2008. “Um dos pilares da certificação do Fair trade é garantir o Preço Mínimo do Fair Trade para nossos produtores”, diz ele. “Isso pode cobrir seus custos de produção e também fornecer a eles renda suficiente para melhorar a qualidade de vida para eles e suas famílias.” 

Carlos continua explicando como funciona a garantia de Preço Mínimo do Fair trade. “A garantia pode ser usada sempre que o preço de mercado cai abaixo de um determinado valor, então o comprador não pode comprar café abaixo desse preço mínimo”, diz ele. “Isso protege os agricultores das flutuações negativas do mercado. Quando o mercado está acima do preço mínimo, os produtores recebem um valor premium com base na qualidade do café”, acrescenta.

A questão da renda dos produtores

Com os preços do mercado do café flutuando significativamente, ao longo do último ano, a estabilização do rendimento dos agricultores nunca foi tão importante. “Ter a garantia do preço mínimo do Fair trade incorporada à sua cadeia de suprimentos é especialmente importante quando os preços do café estão baixos”, Amy me diz. “Anteriormente, alguns produtores lutavam para manter a lucratividade das fazendas. A garantia assegura que as cooperativas com as quais trabalhamos estão recebendo um preço mais justo”, acrescenta. “A rastreabilidade dos pagamentos também é importante.”

Com cada vez mais consumidores exigindo café sustentável, os torrefadores e comerciantes cada vez mais precisam aderir a fatores como rastreabilidade e transparência. Além disso, melhorar a qualidade do café também é uma parte essencial da crescente demanda do consumidor.

“A educação e o investimento adicionais permitem que os produtores melhorem a qualidade do café, o que os ajuda a receber os Preços Premium do Fair trade”, explica Priscilla. “A certificação do Fair trade pode permitir que os agricultores recebam rendimentos mais estáveis a longo prazo. Alguns cafés com certificação Fairtrade marcam 87 pontos ou mais. E eles podem ser totalmente rastreados para o agricultor individual ou cooperativa”, acrescenta.

Grãos de café de processamento honey durante secagem -- fornecimento sustentável de café

COMO FUNCIONAM OS MODELOS SUSTENTÁVEIS DE FORNECIMENTO?

Para que os modelos sustentáveis de fornecimento de café sejam eficazes a longo prazo, todas as principais partes interessadas da indústria devem se beneficiar. Ao considerar os pequenos produtores e torrefadores, por exemplo, isso pode significar melhorar os meios de subsistência socioeconômicos dos primeiros, garantindo que estes recebam café de alta qualidade e ecológico.

Carlos conta sobre uma série de iniciativas Fair trade na Cafésul, que se alinham com o fornecimento sustentável. “Nossas organizações de pequenos produtores (OPPs) certificadas pelo Fair trade desenvolvem projetos que ajudam nossos pequenos agricultores a aumentar a qualidade e a produtividade do café”, diz ele. “As OPPs fornecem assistência técnica sobre como cultivar variedades mais produtivas e resistentes ao clima. As organizações também apoiam os agricultores na transição para a produção orgânica de café, bem como na orientação sobre técnicas sustentáveis de gestão agrícola”, acrescenta.

No entanto, também é importante garantir que os agricultores e as cooperativas tenham autonomia para investir onde acharem melhor. “Receber o preço do Prêmio Fair trade permite que as cooperativas tomem decisões democráticas sobre como o dinheiro é gasto”, diz Amy. “Por exemplo, nossas cooperativas parceiras gastam cerca de 25% do preço Premium para melhorar a produtividade e a qualidade. A cooperativa Capucas investiu em novas instalações sustentáveis, como secadores solares e equipamentos de processamento”, acrescenta.

Priscilla também detalha como outras cooperativas conseguem investir em qualidade e produtividade por meio de fornecimento sustentável de longo prazo. “Desde 2012, trabalhamos com a cooperativa Fair trade Coope Tarrazú devido à qualidade de seu café”, diz ela. “Os agricultores optaram por investir o Prêmio Fair trade na construção de uma estrada que conectava as fazendas às estradas principais, para que pudessem transportar seu café para exportação.”

Acesso a novos mercados

Ter acesso a mercados internacionais pode ser desafiador, especialmente para os pequenos agricultores. Os modelos de fornecimento sustentável, no entanto, podem ajudar a conectar os agricultores a mais mercados. “Para os agricultores que fazem parte de uma cooperativa certificada Fair Trade, o modelo de fornecimento pode fornecer acesso aos mercados doméstico e global”, explica Carlos. “À medida que vendem café coletivamente, os produtores às vezes podem ter mais poder de barganha para potencialmente receber preços mais altos.

”Mas, para alcançar mais sustentabilidade na produção de café, fatores sociais precisam ser levados em consideração, como melhorar a equidade de gênero e apoiar  as comunidades indígenas produtoras de café. “A DRWakefield trabalha com o Café Femenino, que apoia mulheres produtoras de café”, diz Priscilla. “Para se envolver no programa, o café precisa ser certificado pelo Fair trade. Também trabalhamos com a Cencoic em Cauca, Colômbia – um grupo indígena que faz parte da cooperativa Cosurca. Além disso, desenvolvemos um programa com eles que ajudou a melhorar a rastreabilidade de seu café”, acrescenta.

Trabalhador revolvendo grãos de café durante secagem

OS BENEFÍCIOS DO FORNECIMENTO SUSTENTÁVEL NO LONGO PRAZO

Apesar das vantagens óbvias para modelos de fornecimento sustentáveis de longo prazo, ainda há muitos desafios que os produtores enfrentam na indústria do café. “Um dos maiores desafios é o trabalho”, diz Amy. 

“Mesmo em fazendas menores, os produtores dependem de trabalhadores sazonais para tarefas específicas, como a coleta de café. Além disso, programas como o desenvolvido pela AsocOAc na Bolívia ajudam os produtores a lidar com questões relacionadas ao manejo de pragas e doenças. O Fair trade conseguiu obter financiamento para aumentar a escala e o impacto do projeto”, acrescenta.

O impacto de pragas e doenças pode ser exacerbado pelas mudanças climáticas – que já estão tendo um impacto prejudicial na indústria cafeeira. Estima-se que quatro dos cinco principais países produtores de café experimentarão uma redução no tamanho da terra adequada para o cultivo de café até 2050. “Na Capucas, uma cooperativa no oeste de Honduras com a qual Matthew Algie trabalha há mais de dez anos, os produtores investiram seu Preço Premium do Fair trade no desenvolvimento de mudas”, explica Amy. 

“Isso ajudou a cultivar novas variedades que são mais resistentes ao clima – particularmente importante durante a recuperação de danos causados por um surto de ferrugem das folhas de café há alguns anos”, ela conclui.

Modelos sustentáveis como motores de transformação social

Garantir que a produção de café seja sustentável também vai além dos agricultores. “Cerca de 100 milhões de pessoas estão envolvidas na produção de café para pequenos produtores”, diz Priscilla. “Através do preço Fair trade premium, eles conseguem investir no que muitos de nós consideraríamos primordial, como estradas, escolas, acesso à água potável e bons cuidados de saúde.”

Carlos também menciona como o fornecimento sustentável de longo prazo pode apoiar as comunidades cafeicultoras de forma mais ampla. “O preço do Fairtrade Premium de cada saca de café que nossos OPPs vendem é usado para investir em projetos sociais e ambientais, além de melhorar a qualidade e a produtividade do café”, explica. 

“Exemplos desses projetos incluem a venda de produtos feitos localmente para apoiar comunidades carentes, doar equipamentos para hospitais locais, proteger as reservas de água, construir instalações de tratamento de águas residuais e doar material escolar para os filhos de membros cooperativos.”

Benefícios aos consumidores

Finalmente, Amy me diz que os consumidores também podem se beneficiar do fornecimento sustentável de longo prazo. “É importante para os consumidores que eles saibam de onde vem o café”, diz ela. “Nosso compromisso com o fornecimento de café certificado pelo Fair trade também dá aos nossos fornecedores confiança para continuar investindo no café.

“As certificações exigem auditorias independentes, que garantem que os documentos estejam corretos e atualizados e que os agricultores estejam seguindo padrões rigorosos”, acrescenta. “Cria uma conexão poderosa com nossos fornecedores.”

Sacas de café em um armazem

Quando implementados corretamente, os modelos de fornecimento sustentável de longo prazo podem apoiar as partes interessadas em toda a cadeia de suprimentos e melhorar os resultados para todos. Ele também fornece aos produtores, comerciantes, torrefadores e consumidores para definir expectativas realistas quando compram café – seja verde ou torrado. 

Finalmente, o fornecimento sustentável ajuda a construir relações de trabalho mutuamente benéficas e de longo prazo, o que também pode melhorar os esforços ambientais na origem e apoiar melhor os pequenos produtores a ganharem uma renda digna.

Gostou? Em seguida, leia nosso artigo sobre como a torrefação de  marca própria pode impulsionar a sustentabilidade.

Tradução: Daniela Melfi. 

PDG Brasil

Observação: a Fairtrade UK é patrocinadora do Perfect Daily Grind.Quer ler mais artigos como este? Assine a nossa newsletter!

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Café de relacionamento é mais do que pagar preços justos pelo café https://perfectdailygrind.com/pt/2024/01/26/cafe-de-relacionamento-2/ Fri, 26 Jan 2024 11:02:00 +0000 https://perfectdailygrind.com/pt/?p=13791 Há muitos atores envolvidos na cadeia de fornecimento de café. De produtores a comerciantes, de torrefadores a baristas, todos os profissionais da indústria agregam valor ao setor cafeeiro. No entanto, há também uma série de intermediários, incluindo aqueles que moem, transportam e exportam café nos países produtores. E é justamente por isso que se faz necessário […]

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Há muitos atores envolvidos na cadeia de fornecimento de café. De produtores a comerciantes, de torrefadores a baristas, todos os profissionais da indústria agregam valor ao setor cafeeiro. No entanto, há também uma série de intermediários, incluindo aqueles que moem, transportam e exportam café nos países produtores. E é justamente por isso que se faz necessário tentar entender a importância que tem o café de relacionamento.

Embora esses atores possam certamente desempenhar um papel importante, sua presença no setor, muitas vezes, pode significar que os produtores acabem recebendo uma porcentagem menor do preço final de cada xícara de café. Conforme o Guia do Exportador de Café do International Trade Center, os produtores geralmente retêm apenas 10% do preço final de varejo do café.

Diante disso, vimos o comércio direto ganhar muito mais destaque no café especial ao longo dos anos. Este é um modelo que permite que os produtores trabalhem mais de perto com os torrefadores de uma maneira que seja mutuamente benéfica. Como parte disso, os agricultores podem receber preços mais altos por seu café.

No entanto, quando se trata de “café de relacionamento”, há muito mais a considerar do que apenas pagar um preço mais alto. Para saber mais, conversei com Oscar Daza, produtor na Colômbia, e Martin Mayorga, fundador e CEO da Mayorga Coffee. Continue a ler para saber o que eles disseram.

Você também pode gostar do nosso artigo sobre se o comércio direto é um modelo eficaz em cafés especiais.

Torrefadores em visita para estreitar relacionamento com fornecedores

COMÉRCIO DIRETO DE CAFÉ ESPECIAL

Sob modelos comerciais mais tradicionais, os agricultores com pouco ou nenhum acesso a uma beneficiadora local venderão seu café como cereja. Isso significa que eles geralmente recebem preços mais baixos porque menos valor é adicionado ao café no momento da venda. Segundo dados da Enveritas, cerca de 5,5 milhões de pequenos cafeicultores vivem atualmente abaixo da linha da pobreza e boa parte disso é reflexo de situações como a descrita acima.

Não há uma definição formal de “comércio direto” na indústria do café. No entanto, muitos torrefadores e produtores entendem o termo como trabalhando em parceria direta uns com os outros de uma forma que proporcione benefícios mútuos. Em última análise, a ideia é construir uma cadeia de suprimentos mais forte e resiliente para todos os envolvidos. Uma grande parte disso gira em torno de torrefadores pagando aos produtores preços mais altos por seu café. No entanto, o preço não é tudo. O comércio direto também significa uma comunicação mais aberta entre produtores e torrefadores, bem como mais transparência com os consumidores.

Comunicação e parcerias

“A comunicação é uma parte fundamental de qualquer relacionamento”, Martin diz. “Na cadeia de fornecimento de café, é ainda mais importante porque alguns intermediários podem criar barreiras entre produtores e outros atores, além de serem seletivos com as informações que transmitem aos compradores.” Martin acrescenta que o modelo de comércio direto de Mayorga se concentra na parceria com os produtores, em vez de apenas comprar deles. 

Ele enfatiza ainda que eles trabalham em estreita colaboração com os produtores para alcançar uma visão compartilhada de melhoria da qualidade, sustentabilidade e segurança financeira. “A Mayorga Coffee só se envolve com os produtores quando há acordo sobre qualidade, preços e termos contratuais. Compartilhamos informações com os agricultores sobre como operamos, o que lhes proporciona uma melhor perspectiva do nosso negócio. Os produtores podem então conversar livremente conosco sobre suas necessidades e os desafios que enfrentam para podermos ajudar uns aos outros a alcançar nossos objetivos compartilhados”, explica.

Produtor analisando cerejas recém-colhidas

POR QUE O CAFÉ DE RELACIONAMENTO É MAIS DO QUE PAGAR PREÇOS ALTOS?

Muitas vezes falamos sobre café de relacionamento no setor de cafés especiais, mas o que isso realmente significa? Embora profissionais do setor e consumidores concordem que os produtores precisam receber preços mais altos pelo café, o conceito de “café de relacionamento” é muito mais amplo. Semelhante ao comércio direto, não há uma definição formal de “café de relacionamento”. No entanto, o termo geralmente se refere a relações de trabalho entre torrefadores e produtores que são desenvolvidas ao longo dos anos. 

A ideia por trás dessas parcerias é incentivar a compra a longo prazo entre produtores e torrefadores, em vez dos torrefadores fazerem menos compras pontuais. Ao mesmo tempo, os torrefadores geralmente se comprometem com um preço mais alto para o café, mas, como estabelecemos, essa não é a única coisa que caracteriza uma relação comercial direta saudável entre agricultor e comprador. Em última análise, relações de trabalho como essas podem mitigar os riscos associados à volatilidade do mercado, ajudando os produtores a obter uma renda mais sustentável.

Parte da razão pela qual os produtores lutam para reter valor na origem é porque a indústria do café foi construída sobre estruturas coloniais com centenas de anos. Para superar essas desigualdades, capacitar os produtores e aliviar a pobreza sistêmica, precisamos pagar mais pelo café –  mas também precisamos falar sobre estabilidade em um contexto muito mais amplo.

Por exemplo, quando um produtor tem certeza de que um torrador está comprometido em comprar parte de seu café a cada ano, ele tem mais capacidade de experimentar novas práticas agrícolas ou técnicas de processamento, ou investir em novas máquinas e equipamentos. Embora leve uma quantidade substancial de tempo para que os benefícios desses investimentos se paguem, há menos risco envolvido quando os agricultores têm um parceiro comercial estável e comprometido a longo prazo.

Construindo confiança

Como produtor, Oscar diz que construir confiança é fundamental para tornar essas relações de trabalho bem-sucedidas e sustentáveis a longo prazo. “Por meio da confiança compartilhada, o café de relacionamento permite que informações sobre produção, colheita, origem, métodos de processamento e muito mais cheguem ao consumidor final”, afirma. 

“Pagar um preço mais alto aos agricultores nem sempre é a coisa mais importante – também é sobre os relacionamentos que os atores da cadeia de suprimentos constroem uns com os outros. Por exemplo, o modelo de comércio direto da Mayorga Coffee ajuda a capacitar os produtores de café na América Latina porque melhora a sustentabilidade a longo prazo”, ele continua. “Os produtores sabem que, ao cultivar café de alta qualidade, torrefadores como Mayorga sempre estarão dispostos a comprar seu café porque confiam em nós.”

Martin concorda, dizendo: “Como qualquer relacionamento, começa com a interação humana e com um interesse genuíno na outra pessoa e nas realidades que ela enfrenta. Esses relacionamentos não podem se desenvolver após visitar fazendas alguns dias por ano. Você precisa aprender o idioma ou contratar uma pessoa local para conversar com os produtores.”

Por sua vez, produtores e torrefadores são capazes de se comunicar de forma mais aberta e eficaz. “Faça perguntas desconfortáveis como ‘quanto de juros você paga pelo financiamento?’”, diz Martin. “Se não aprendermos a realidade dos problemas com os quais os agricultores lidam, nunca seremos capazes de corrigi-los. Isso é fundamental: ser humilde, aprender, ouvir e depois trabalhar juntos. Não é tarefa dos torrefadores salvar os produtores – em vez disso, eles estão lá para fazer parte de uma mudança necessária na forma como falamos e negociamos café”, ele enfatiza.

Saca de café aberta, cheia de grãos verdes

POR QUE MAIS TORREFADORES DEVEM APOSTAR NO COMÉRCIO DIRETO?

Ao usar modelos comerciais tradicionais, torna-se mais difícil rastrear a origem de um café específico, especialmente para os consumidores finais. Os torrefadores, por sua vez, podem saber aproximadamente de onde vem o café, mas podem não ser capazes de explicar quem o cultivou ou colheu. No entanto, com mais e mais consumidores procurando aprender sobre as pessoas que cultivam seu café, a transparência e a rastreabilidade são mais importantes do que nunca.  Por sua vez, torrefadores e baristas passaram a divulgar mais informações sobre a produção de café. Isso inclui:

  • variedades diferentes;
  • técnicas de processamento;
  • como o terroir e a altitude afetam os perfis de sabor.

A comunicação aberta entre agricultores e torrefadores pode ajudar a fornecer o máximo de informações possível sobre o café. Além disso, como parte do desenvolvimento de relações de trabalho mais próximas, os torrefadores são capazes de discutir uma série de fatores com os produtores. Por exemplo, um torrador pode explicar o quão bem um determinado café vendeu ou que tipo de perfis sensoriais seus clientes estão procurando. Como resultado, os produtores podem diversificar e se concentrar em diferentes práticas agrícolas ou métodos de processamento para atender a essas preferências.

Canais de comunicação mais abertos também funcionam de forma semelhante para os produtores. Eles podem dizer aos torrefadores quais práticas agrícolas ou métodos de processamento são os mais lucrativos, bem como quais não são adequados para eles. “A Mayorga Coffee ajudou a reconstruir casas, estabelecer melhores modelos de financiamento, criar novas oportunidades para os agricultores por meio de sistemas de diversificação de culturas, fornecer mais educação formal com a ajuda de agrônomos e, o mais importante, ser um cliente consistente e de longo prazo para eles”, explica Martin.

A conscientização sobre questões complexas

No entanto, ele enfatiza que é essencial que os torrefadores não se vejam como “salvadores” nessas situações. “Muito do marketing do modelo de comércio direto é dizer que ele é um meio de apoiar os produtores. Mas, na realidade, é uma maneira de as empresas de café ganharem credibilidade. Há quem apresente ‘soluções‘ simples, como pagar mais pelo café ou alegar que o blockchain resolverá os problemas dos produtores. Isso está fora de sintonia com a realidade de muitos produtores. Não é possível criar saídas simples para problema tão complexos e ativos há mais de 200 anos”, conclui Martin.

Oscar me diz que o café de relacionamento e os modelos de comércio direto também podem fornecer mais segurança aos agricultores. “Há muitos fatores que, às vezes, complicam a produção de café”, diz ele. “Isso inclui condições climáticas imprevisíveis, volatilidade dos preços, problemas logísticos ou instabilidade política. Em última análise, a confiança entre os atores da cadeia de suprimentos ajuda a produção de café a ser sustentável a longo prazo.

Produtor de café abanando cerejas recém-colhidas

É claro que as desigualdades históricas continuam a influenciar as realidades dos agricultores em toda a indústria do café. Ao mesmo tempo, também sabemos que uma solução frequentemente proposta é simplesmente pagar mais por cada saco de café.

No entanto, para abordar essas questões de maneira abrangente, devemos fazer mais do que pagar um preço mais alto pelo café. Uma abordagem holística focada em relações comerciais saudáveis, estáveis e de longo prazo apoiará e capacitará os pequenos cafeicultores a investir e melhorar a longo prazo.

Quer saber mais sobre a Mayorga Coffee? Leia sobre o Patrocínio PRF El Salvador Diamond da Mayorga aqui.

Créditos das fotos: Mayorga Coffee

Perfect Daily Grind

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O que é o café de relacionamento e que vantagens ele traz aos produtores? https://perfectdailygrind.com/pt/2023/09/22/cafe-de-relacionamento/ Fri, 22 Sep 2023 10:03:00 +0000 https://perfectdailygrind.com/pt/?p=13286 Quando pensamos em “café de relacionamento”, a primeira coisa que vem à mente é muitas vezes a natureza das parcerias comerciais diretas entre produtores e torrefadores. E, compreensivelmente, há uma série de vantagens nessas relações mutuamente benéficas para ambas as partes. Mas o café de relacionamento não necessariamente exclui outros players. Considere importadores e exportadores […]

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Quando pensamos em “café de relacionamento”, a primeira coisa que vem à mente é muitas vezes a natureza das parcerias comerciais diretas entre produtores e torrefadores. E, compreensivelmente, há uma série de vantagens nessas relações mutuamente benéficas para ambas as partes.

Mas o café de relacionamento não necessariamente exclui outros players. Considere importadores e exportadores – na maioria dos casos, eles trabalham mais perto dos produtores do que os torrefadores. Como tal, relações de trabalho saudáveis entre comerciantes e agricultores são cruciais.

Mas isso leva a outra pergunta em muitos casos: o que os fornecedores podem fazer para agregar valor ao café de um produtor? Para saber mais sobre isso, conversei com dois especialistas do setor da Mercon Specialty.

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Produtor conversando com trader em meio à lavoura.

Afinal, o que é café de relacionamento?

Antes de olharmos especificamente para a natureza da relação entre produtores e comerciantes de cafés especiais, primeiro precisamos entender o que significa café de relacionamento.

Semelhante ao comércio direto, não há uma definição formal para o termo. No entanto, o café de relacionamento geralmente se refere ao conceito de fornecimento de café por meio de uma relação direta e próxima com produtores.

Giacomo Celi é o diretor de sustentabilidade do Mercon Coffee Group. Segundo ele, fortes relacionamentos na cadeia de valor são a base para o planejamento de longo prazo. “Manter a excelência na qualidade do café requer investimento e planejamento de longo prazo no nível da fazenda. Por isso é tão importante construir bons vínculos entre os players do setor”, ele diz. 

A ideia por trás dessas parcerias é incentivar contratos de longo prazo entre produtores e torrefadores, em vez de negócios pontuais. Os torrefadores geralmente se comprometem a pagar preços mais altos também. No entanto, quando se trata de produtores e traders de café verde, normalmente há menos discussão em torno do café de relacionamento. Isso independente de quão próximos eles estejam.

Por que as relações entre produtores e traders são tão importantes?

Em última análise, estabelecer um vínculo sólido entre produtores e traders é fundamental para manter a qualidade do café e alcançar a verdadeira sustentabilidade. Por exemplo, o produtor precisa saber que o trader pagará um preço justo pelo café que vai atender aos padrões de qualidade que busca.

Da mesma forma, as relações produtor-comerciante podem proporcionar estabilidade econômica para ambas as partes, além de construir mais confiança. Ao trabalhar com compradores confiáveis e consistentes, os produtores podem investir de forma sustentável em suas fazendas.

Os fornecedores de café verde, por sua vez, podem contar com um fornecimento constante de café de alta qualidade de parceiros confiáveis. Jessenia Arguello é gerente de produção de sustentabilidade do Mercon Coffee Group. De acordo com ela, entender o nível de esforço, o investimento necessário e os desafios que os produtores enfrentam é importante para definir uma estratégia de compra que os incentive a buscar o máximo em qualidade.

Jessenia acrescenta que os produtores também podem se beneficiar disso. O feedback sobre a qualidade de seu café permite que eles identifiquem áreas onde podem melhorar as práticas agrícolas, por exemplo.

“Essas informações fornecem aos produtores ideias inovadoras para implementar em suas fazendas, incentivando-os a continuar melhorando a qualidade do café e motivando-os a serem mais resilientes e a superar as mudanças nas condições que afetam a produção de café”, diz ela.

Produtor despejando grãos de café em uma saca.

Agregando valor à cadeia de fornecimento

Em termos simples, criar relacionamentos fortes entre produtores e fornecedores de cafés especiais pode beneficiar toda a cadeia de suprimentos, melhorando a qualidade e a produtividade do café.

Além disso, Jessenia diz que o uso da tecnologia para coletar, monitorar e compartilhar dados de produtores e fornecedores também pode levar a uma comunicação mais direta. Isso significa que ambas as partes podem estar mais bem informadas.

“Quando compartilhamos mais informações, melhores decisões podem ser tomadas em todos os níveis para alocar bem os recursos e adaptar estratégias de negócios com objetivo de promover interações resilientes entre diferentes partes interessadas”, diz ela.

Um exemplo dessa tecnologia, explica Jessenia, é a plataforma LIFT, lançada em 2014 e totalmente digitalizada, da Mercon Specialty. Com foco em oferecer oportunidades de treinamento, acesso a recursos e apoio agrícola, essa plataforma tem 3 pilares principais:

  • crescimento sustentável;
  • desenvolvimento social;
  • meio ambiente.

“Ao longo dos anos, a LIFT mostrou que é possível apoiar os produtores na mudança de suas práticas para restaurar os ecossistemas locais, bem como melhorar as condições sociais deles e de suas comunidades”, acrescenta. “Ao mesmo tempo, podemos melhorar ou manter a sustentabilidade econômica das fazendas de café.”

Giacomo me conta que a plataforma LIFT está integrada aos valores e práticas comerciais sustentáveis da Mercon. “O objetivo da plataforma LIFT está embutido em nossa estratégia”, diz. “Nosso objetivo é criar uma indústria de café melhor, o que significa construir cadeias de valor lucrativas, sustentáveis e integradas, do produtor ao consumidor.”

Em termos de liderança para medir os resultados, Giacomo explica que a Mercon também desenvolveu o LIFT Scorecard. Ele é usado para avaliar o desempenho dos produtores em relação a cada um dos três pilares. Além disso, todos os dados são compartilhados por meio de um aplicativo integrado.

TRader e agricultora conversando em meio à lavoura -- café de relacionamento

Café de relacionamento: vantagens de um contato próximo entre produtores e traders

Produtores e fornecedores de café verde claramente se beneficiam de relações de trabalho estreitas e de longo prazo. Mas, como acontece com qualquer parceria e nas circunstâncias certas, isso também pode beneficiar os players em todo o setor.

“Relações de trabalho mais próximas e mais fortes entre torrefadores e fornecedores de café verde também são muito importantes para alinhar os objetivos de longo prazo dos produtores”, explica Giacomo. “Não podemos ter uma cadeia de suprimentos totalmente sustentável sem compartilharmos o foco e perspectiva.”

A longo prazo, uma visão compartilhada entre produtores e comerciantes pode ajudar a melhorar a qualidade do café. Esta comunicação beneficia claramente outros atores, como torrefadores e consumidores, que estão cada vez mais priorizando a transparência, a rastreabilidade e a sustentabilidade. Por sua vez, os consumidores podem ter certeza de que o café que compram de um torrador específico é sempre de alta qualidade e tem origem ética.

Mais acesso a informação

Com o café de relacionamento, mais acesso aos dados geralmente incentiva mais participação. Isso significa que as informações são mais acessíveis a uma gama mais ampla de partes interessadas da cadeia de suprimentos. Em teoria, uma abordagem mais colaborativa para a coleta de dados em toda a cadeia de valor significa que todas as partes interessadas ficarão mais bem informadas. 

Além disso, mais acesso a informações mais detalhadas sobre um café específico pode ajudar a preencher a lacuna entre produtores e consumidores de uma maneira mais impactante. Por exemplo, os torrefadores podem saber informações mais detalhadas sobre um café específico, como colheita, origem, variedade e método de processamento. Por sua vez, eles podem fornecer aos seus clientes informações mais abrangentes e transparentes e, assim, melhorar sua experiência geral.

Quando se trata de cafeicultores, Jessenia explica que a disponibilização de informações ajuda em qualquer tipo de coisa. Isso pode variar da gestão financeira e negociação a aprender sobre técnicas agrícolas, melhorar o acesso ao mercado e abrir possibilidades de pesquisa.

Mãos colhendo cerejas de café de um ramo.

O café de relacionamento e o crescimento da cultura de cafés especiais

Com as preocupações sobre um futuro sustentável para a indústria do café continuando a crescer, as partes interessadas da cadeia de suprimentos, em última análise, precisam trabalhar mais de perto umas com as outras para combater essas questões.

“As relações entre produtores e fornecedores de café verde são fundamentais para garantir uma oferta contínua e crescente de café de alta qualidade, sendo a base da indústria de cafés especiais”, explica Jessenia. “Uma comunicação mais eficiente – além de facilitar o acesso aos recursos – garante que as partes interessadas estejam mais conscientes das necessidades umas das outras.”

Além disso, a troca de conhecimento entre os players da cadeia de suprimentos pode levar a mais inovação. Isso se torna mais evidente quando se trata de técnicas de colheita e métodos de processamento. Como resultado, os produtores podem diversificar suas ofertas e aumentar o faturamento.

Programas educacionais

Fornecer aos produtores oportunidades de treinamento mais formais é uma das maneiras mais eficazes de melhorar a qualidade e a produtividade do café.

Giacomo explica que a plataforma Mercon LIFT oferece aos produtores de café sessões de treinamento e visitas às fazendas, cobrindo uma série de tópicos. Isso inclui nutrição vegetal, manejo de pragas e água e alfabetização financeira.

“As relações da cadeia de valor orientadas para um objetivo de longo prazo, tanto para produtores quanto para torrefadores, são fundamentais para impulsionar o café especial, além de continuar impulsionando o crescimento do setor”, conclui Giacomo.

Produtor em meio À lavoura de café

As relações diretas entre torrefadores e produtores têm sido um ponto de discussão há algum tempo. No entanto, ao mesmo tempo, também vimos fornecedores de café verde trabalharem com os agricultores de maneiras novas e diferentes.

Na indústria do café, atualmente em constante mudança, as relações sustentáveis entre os produtores e quem compra deles serão cada vez mais benéficas. Isso porque essa estabilidade pode abrir caminho para um futuro mais sustentável e fornecer uma base para futuras colaborações. E ao estabelecer conexões mais fortes em toda o setor, podemos criar um ambiente mais equitativo para todos.

Gostou? Em seguida, leia nosso artigo sobre como a produção de robusta se desenvolveu nos últimos anos.

Créditos das fotos: Mercon Coffee Group

Tradução: Daniela Melfi.

PDG Brasil

Observação: a Mercon Specialty é patrocinadora do Perfect Daily Grind.

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Como os torrefadores de cafés especiais compram lotes raros em leilões? https://perfectdailygrind.com/pt/2023/09/06/leiloes-privados/ Wed, 06 Sep 2023 10:03:00 +0000 https://perfectdailygrind.com/pt/?p=13226 Todos os anos, muitos leilões de café verde que acontecem na indústria de cafés especiais. Há ainda os leilões privados, que dão aos torrefadores e compradores de café verde acesso a lotes mais limitados ou ultrarraros. Como parte disso, os leilões que se concentram em uma variedade, espécie ou cultivar específicos (geralmente variedades de café mais […]

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Todos os anos, muitos leilões de café verde que acontecem na indústria de cafés especiais. Há ainda os leilões privados, que dão aos torrefadores e compradores de café verde acesso a lotes mais limitados ou ultrarraros.

Como parte disso, os leilões que se concentram em uma variedade, espécie ou cultivar específicos (geralmente variedades de café mais exclusivas, como Gesha) estão se tornando mais populares.

Para saber mais, conversei com Max Perez, proprietário da Finca La Hermosa na Guatemala, e Leonor Xiao, fundadora e compradora de café verde da Canasto Coffee Co. Continue lendo para saber mais sobre eles.

Você também pode gostar do nosso artigo sobre leilões virtuais de café.

Grãos de café descascados em terreiro de secagem

O que são leilões privados e como funcionam?

Embora os leilões privados sejam um conceito relativamente novo no setor, o café verde tem sido negociado dessa forma há séculos. Normalmente, os leilões são realizados por importadores, exportadores, organizações não governamentais ou outras partes interessadas nos países produtores.

Esses eventos geralmente são presenciais, mas os leilões on-line estão se tornando cada vez mais comuns. Isso permite que compradores de todo o mundo participem – tornando-os muito mais acessíveis. 

Tal como acontece com qualquer tipo de leilão, os compradores colocam lances em diferentes lotes de café verde. Assim que um leilão começar, os compradores oferecem lances em incrementos específicos até que todos os cafés tenham pelo menos um lance cada, ou até que pelo menos um tempo específico tenha passado onde nenhum lance tenha ocorrido.

Antes de um leilão, são feitos cuppings e uma pontuação às cegas com todos os cafés por Q graders profissionais. Isso é feito usando a escala de 100 pontos da Specialty Coffee Association, para que os participantes tenham uma ideia do nível de qualidade de cada café. Além disso, em algumas competições antes dos leilões, todos os cafés devem marcar pelo menos 86 pontos para avançar para a próxima etapa de avaliação.

Preços tão ou mais altos que a qualidade

Nas últimas duas décadas, os preços pagos pelo café em leilões têm aumentado cada vez mais. O primeiro exemplo foi em 2004, quando a Hacienda La Esmerelda vendeu um de seus Geshas por US$ 21/lb no Best of Panama (BoP). À época, o valor bateu o recorde mundial já pago por um café.

Em 2021, impressionantemente um Gesha, produzido pela Elida Estate no método honey, foi vendido por US$ 6.034/lb. Este é de longe o café mais caro do mundo. Naturalmente, esses preços surpreendentemente altos influenciaram cada vez mais produtores a organizar seus próprios leilões privados.

Um leilão privado de café verde é uma maneira útil para os produtores ou cooperativas mostrarem seus lotes mais exclusivos e ultrarraros. Para participar desses leilões, os compradores devem se cadastrar com antecedência. Como também há um número limitado de vagas disponíveis, os inscritos podem ter que pagar uma taxa. Os torrefadores também podem ter que comprar amostras dos cafés que desejam com antecedência.

cerejas de café no terreiro de secagem

Por que esses leilões estão se tornando cada vez mais populares?

Em termos gerais, o café especial valoriza muito a qualidade, a transparência, a rastreabilidade e a sustentabilidade. Sendo assim, a demanda por variedades de café mais exclusivas e de maior qualidade (e até mesmo espécies) cresceu na última década.

Max explica como os produtores podem usar leilões privados como plataformas para comercializar seus cafés de diferentes maneiras. “Esses leilões permitem que os vendedores controlem o processo de compra. Além de gerar lucros maiores e criar uma sensação de exclusividade em torno de seus cafés”.

Leonor concorda, dizendo: “Após o leilão, o produtor pode rotular o café como um lote de leilão para enfatizar sua exclusividade. Além disso, os lotes de café de leilões privados geralmente são pequeno. Isso significa que os produtores podem receber um valor mais alto, porque geralmente um único comprador compra seu café.”

E os leilões de variedades únicas?

Juntamente com os leilões privados em geral, o número de leilões de nicho aumentou visivelmente nos últimos anos. Incluindo:

  • leilões de origem única (com todos os cafés produzidos no mesmo país, região ou até fazenda);
  • leilões que incluem cafés de um único produtor, cooperativa ou exportador;
  • leilões de variedade única, que se concentram especificamente em uma variedade de café.

Um exemplo é o leilão online Gesha Forest da Finca La Hermosa, que aconteceu em 5 de julho de 2023. “O leilão contou com diversos lotes de nossos Geshas, cada um com seu próprio perfil de sabor, aroma e características únicas. Além de Gesha de diferentes origens, com Guatemala, Panamá, Tanzânia e Etiópia”, diz Max. 

Gesha é uma das variedades mais procuradas no setor de cafés especiais. Conhecida por sua excepcional qualidade de xícara e sua capacidade de receber preços altos, a variedade dominou os leilões na última década.

“O projeto Gesha Forest da Finca La Hermosa envolve práticas agrícolas meticulosas para cultivar, colher e processar o café Gesha para garantir o café da mais alta qualidade possível”, explica Max. “O microclima único e o solo vulcânico de Finca La Hermosa, localizado nas encostas do vulcão Acatenango, na Guatemala, tornam-no um ambiente ideal para o crescimento da Gesha.”

Leonor conta que a variedade é particularmente popular no leste da Ásia, inclusive na China, onde os consumidores geralmente estão mais dispostos a pagar preços mais altos por um café mais exclusivo e raro. “Gesha sempre se destaca entre as xícaras, pois geralmente recebe pontuações mais altas”, diz.

grãos de café de processamento honey

Quais são os benefícios de comprar lotes de cafés desta forma?

Para os produtores que possuem infraestrutura e recursos financeiros, há uma série de benefícios em organizar leilões privados. “Essas plataformas são uma oportunidade para mostrar o trabalho árduo e a dedicação dos produtores, potencialmente receber preços mais altos e construir relacionamentos de longo prazo com os compradores”, diz Max. 

Os leilões privados também podem promover transparência, rastreabilidade e sustentabilidade na indústria de cafés especiais. “Leilões como o Gesha Forest da Finca La Hermosa podem mostrar o compromisso de um produtor com práticas agrícolas sustentáveis e ecológicas, promovendo assim uma indústria de café mais responsável e consciente”, ele acrescenta.

Em termos de rastreabilidade, Leonor explica que os leilões podem ser plataformas úteis para agricultores e torrefadores. “Os produtores sabem para onde o café está indo quando é comprado em leilões. Os leilões privados podem ser um elo entre os produtores e os torrefadores. Além disso, receber feedback de torrefadores, comerciantes e produtores ajudará a tornar os leilões mais significativos e impactantes.”

E os torrefadores?

Quando se trata de torrefadores, há várias vantagens em participar de leilões de café verde – especialmente para aqueles que querem vender e comercializar mais cafés premium e raros. “Os torrefadores têm acesso a lotes mais originais e exclusivos”, diz Max. “Isso permite que eles diferenciem seus cafés e potencialmente atraiam uma gama mais ampla de consumidores.”

Muitos consumidores de cafés especiais atribuem um valor significativo às variedades mais exclusivas provenientes de novas origens. Por exemplo, o fornecimento de café de fazendas fora dessas origens, como Finca La Hermosa, na Guatemala, pode ser um ponto de venda exclusivo para torrefadores. “Ao comprar cafés em leilões, os torrefadores têm a oportunidade de mostrar seu reconhecimento de cafés de alta qualidade e, assim, agregar valor à sua marca”, conclui Leonor.

Mão retirando grãos crus de café de uma saca

Os leilões privados, bem como os leilões em geral, desempenham um papel na promoção do café especial. Para aqueles que têm a capacidade e o poder de compra para participar, eles podem experimentar alguns cafés extraordinários que talvez não consigam encontrar em outro lugar.

Com a demanda por cafés mais exclusivos crescendo apenas em certos mercados, temos certeza de que os leilões privados continuarão a ser um tema de discussão na indústria do café daqui para frente.

Gostou? Então leia nosso guia para leilões de café verde.

Créditos da foto: Finca La Hermosa

PDG Brasil

Traduzido por Daniela Melfi

Observação: Finca La Hermosa é patrocinadora do Perfect Daily Grind.

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Como o mercado de câmbio afeta o preço do café? https://perfectdailygrind.com/pt/2023/07/03/influencia-mercado-de-cambio/ Mon, 03 Jul 2023 10:04:00 +0000 https://perfectdailygrind.com/pt/?p=12938 Geralmente, tanto o preço do arábica quanto do canéfora dependem de contratos futuros. Estes são contratos para comprar ou vender uma determinada mercadoria, a um preço predeterminado, em uma data definida. No entanto, enquanto o preço do café e os contratos futuros são determinados por transações em tempo real, eles também são afetados por flutuações […]

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Geralmente, tanto o preço do arábica quanto do canéfora dependem de contratos futuros. Estes são contratos para comprar ou vender uma determinada mercadoria, a um preço predeterminado, em uma data definida.

No entanto, enquanto o preço do café e os contratos futuros são determinados por transações em tempo real, eles também são afetados por flutuações nas taxas de câmbio. Isso ocorre porque, enquanto o café é vendido em dólares no mercado de commodities, ele também é comprado em outras moedas dependendo do país onde a transação é feita.

Mudanças no mercado de câmbio (também conhecido como forex, FX ou mercado de moedas) podem afetar muitas pessoas em toda a cadeia de fornecimento de café. As flutuações no mercado podem influenciar os preços pagos pelos torrefadores e consumidores e os preços pagos aos agricultores, bem como os seus custos de produção.

Em última análise, os movimentos no mercado de câmbio podem ter um grande impacto na sustentabilidade econômica e social na indústria do café. E para entender melhor esse mecanismo, conversei com um trader de FX, um produtor no Brasil e um torrefador do Reino Unido. Continue lendo para saber mais.

Você também pode gostar do nosso artigo sobre como a tecnologia pode apoiar o futuro da produção de café.

Cerejas de café totalmente maduras nas mãos de uma pessoa

O que é o mercado de câmbio?

O mercado de câmbio é um mercado descentralizado e global, usado para negociar moedas de todo o mundo e determinar taxas de câmbio. É o maior mercado de negociação global, com faturamento diário atingindo US$ 7,5 trilhões em abril de 2022 para transações de balcão (OTC).

Tal como acontece com muitos outros mercados financeiros e comerciais globais, o FX é afetado por uma série de fatores macroeconômicos. Isso pode incluir inflação, decisões tomadas pelos bancos centrais, taxas de juros flutuantes e mudanças nos cenários políticos.

Kelly Oviedo é um comerciante de câmbio e diretor da Sucafina. Ela diz que as eleições presidenciais colombianas de 2022 afetaram o mercado de câmbio porque o vencedor, Gustavo Petro, fez uma campanha que pressionou por mais confiança na energia renovável.

“A Colômbia é um grande exportador de petróleo, então quando Petro venceu, o mercado global antecipou que seu partido aprovaria políticas para reduzir as exportações de petróleo. Isso enfraqueceu o peso colombiano no mercado”, diz.

Outro fator que pode influenciar as taxas de câmbio é o preço do dinheiro, acrescenta Kelly. “O preço de uma determinada moeda está relacionado à taxa de juros do banco central do país que a emite”, diz ela. Como o café é comprado e vendido usando diferentes moedas, é vital que as partes interessadas entendam o valor de uma moeda em relação a outra.

A relação entre as moedas locais e o dólar

É provável que um produtor seja pago em sua moeda local, como o peso colombiano ou o birr etíope, por exemplo. Os comerciantes provavelmente venderão café para exportadores em dólares americanos, enquanto os torradores comprarão café usando sua moeda local.

Semelhante a como os comerciantes protegem os preços do café no mercado de commodities, os comerciantes também podem proteger a moeda comprando contratos a termo usando moedas específicas, o que é chamado de hedge. Isso permite que importadores, produtores maiores e torrefadores se protejam contra a constante flutuação das taxas de câmbio. 

Ao fazer hedge, as empresas vendem um contrato de futuros de café quando compram um contrato de café “físico” ao preço por libra/peso. Isso normalmente significa que, se esse preço cair, essas empresas podem comprar seus contratos futuros e usar os lucros para compensar o preço de seu café “físico”. Por outro lado, se o preço por libra/peso subir, essas empresas acabam sofrendo uma perda em seu contrato de futuros, mas podem finalmente vender seu café a um preço mais alto.

trabalhadores descarregando um lote de sacas de café

Como o mercado de câmbio afeta os preços na origem?

O mercado de câmbio afeta todas as etapas da cadeia de fornecimento de café. No entanto, afeta os produtores especificamente de duas maneiras principais: através dos custos de produção e mudanças nos preços do café no mercado interno.

Por exemplo, como os fertilizantes químicos são fabricados usando petróleo, o preço do fertilizante está ligado ao valor do dólar americano em algum nível.  Como eles são insumos agrícolas essenciais para muitos agricultores, muitas vezes, representam um dos maiores custos de produção quando usado.

Os produtores então têm que comprar fertilizantes usando sua moeda local, de modo que o preço final pode ser influenciado pela taxa de câmbio entre o dólar americano e sua moeda local. 

Vamos usar a Colômbia como exemplo. Quando o peso colombiano é mais fraco em relação ao dólar, um produtor acaba gastando mais dinheiro na compra de fertilizante. Alternativamente, se o peso colombiano é mais forte do que o dólar americano, o produtor precisa pagar menos pelo mesmo produto.

Outra maneira pela qual o mercado de câmbio afeta os custos dos produtores é influenciando os preços locais do café. “Isso é mais um impacto direto do que nos custos dos insumos”, diz Kelly. Em termos simples, o poder do dólar em comparação com a moeda local de um produtor pode afetar o poder de compra dos exportadores, influenciando na competição com os compradores locais. 

Indiscutivelmente, isso pode ter sérias consequências para os compradores locais que geralmente têm menos poder de compra do que a maioria dos exportadores. No entanto, isso pode beneficiar os agricultores locais em alguns casos. Uma moeda local mais fraca pode significar que os exportadores podem pagar mais pelos lotes e assim os produtores acabam recebendo mais.

Valor da moeda local em relação ao dólar

Como os exportadores geralmente vendem café em dólares, seu poder de compra em comparação com uma moeda local pode afetar a competitividade dos preços locais da safra. 

Por exemplo, se o peso colombiano é mais forte do que o dólar americano, os exportadores são mais propensos a oferecer preços semelhantes aos preços dos compradores locais. No entanto, se o peso colombiano for fraco em relação ao dólar americano, os exportadores podem comprar mais pesos com seus dólares e oferecer preços mais competitivos do que os compradores locais.

O gráfico abaixo demonstra as variações de preço por libra/peso no dólar, real brasileiro e peso colombiano:

Gráfico de mercado de câmbio
Fonte: ICE Connect Tool

De janeiro de 2021 a dezembro de 2022, a distância entre as linhas verde (dólar) e vermelha (peso colombiano) mostra como o peso colombiano tem se enfraquecido constantemente em relação ao dólar. Como resultado, os agricultores colombianos foram menos afetados pelos preços de mercado mais baixos em 2022. Isso ocorre porque, embora sua moeda tenha enfraquecido, os agricultores colombianos estavam recebendo um preço local mais alto do que os agricultores brasileiros (cuja moeda manteve seu valor em relação ao dólar americano).

Como o real e o peso colombiano são mais fracos em relação ao dólar americano do que outras moedas da América Latina, os exportadores geralmente podem comprar mais cafés brasileiros e colombianos pelo mesmo valor em dólares americanos.

Ricardo dos Santos Bartholo é proprietário da Fazenda Cinco Estrelas em Patrocínio, Minas Gerais. “Quando o dólar se fortalece, o real enfraquece. No entanto, isso aumenta o valor do real para os produtores de café, para podermos ser mais competitivos no mercado internacional de café”, diz ele.

Provadores de café em uma sessão de cupping analisando o aroma de amostras

Como os países consumidores são afetados?

Enquanto cereja e pergaminho são comprados em moedas locais, o café verde é comprado principalmente em dólares. Isso significa que o valor da moeda americana influencia os preços que os torrefadores fora dos EUA pagam pelo café verde.

Embora os torrefadores dos EUA sejam afetados pelas taxas de câmbio do dólar em relação às moedas locais onde o café é produzido, o preço que eles pagam pelo café verde não é afetado pelo valor de sua moeda.

No entanto, os preços para torrefadores fora dos EUA são influenciados pelas taxas de câmbio e pelo mercado cambial. Esses torrefadores compram cafés que foram inicialmente comprados em dólares americanos, mas também precisam pagar em sua própria moeda local – portanto, o preço é determinado pelo valor dessa moeda em relação ao dólar.

Usando o exemplo dos dólares canadenses, se a taxa de câmbio for de 1 dólar americano a 1,5 dólar canadense, um torrador canadense precisará pagar mais pelo café. Se o café fosse US$ 10/kg, um comprador canadense estaria pagando US$ 15 CA/kg pelo mesmo café. 

Por outro lado, se o dólar americano enfraquecer ao ponto de 1 dólar americano ser igual a 1 dólar canadense, um torrador canadense pagará apenas US$ 10 CA/kg, assumindo que o preço do café permaneça o mesmo em dólares americanos.

As conversões cambiais também influenciam a demanda por café. Recentemente, vimos a demanda por café aumentar nos EUA – especialmente enquanto o dólar americano é forte em comparação com outras moedas. Por sua vez, isso significa que os torrefadores dos EUA pagam menos pelo café, ajudando a aumentar a demanda.

Profissional operando um torrador de café

Equilibrando os riscos como um torrefador

Embora possa parecer que os torrefadores não têm escolha a não ser simplesmente absorver os custos relacionados à flutuação da moeda, existem maneiras de mitigar esse risco.

Andrew Duncan é o COO da Workshop Coffee em Londres, Reino Unido. “Todos os países produtores que compramos comercializam e vendem café em dólares americanos”, diz ele. “Isso significa que precisamos converter isso em nossa moeda local. Como resultado, há flutuações adicionais que precisamos contabilizar além das flutuações no preço por libra/peso”, acrescenta.

Ele explica que o Workshop Coffee normalmente estima o volume anual de café verde que precisa comprar e, em seguida, compra contratos a termo no mercado de câmbio em uma porcentagem de suas despesas totais projetadas para esse ano.

Na prática, isso significa que os torrefadores do Reino Unido podem bloquear a taxa de câmbio atual entre a libra esterlina e o dólar americano por uma certa porcentagem de seus custos totais. Isso significa que, se o dólar americano se fortalecer em relação à libra, o torrador não gastará mais dinheiro.

Os riscos do hedge no mercado de câmbio

No entanto, é importante notar que essa prática chamada hedging nem sempre é eficaz, então os torrefadores precisam pensar muito sobre adotá-la como estratégia e ter cautela ao fazê-lo.

Por exemplo, se o preço por libra/peso aumentar significativamente, o dólar que eles compraram não cobriria mais a quantidade de café que planejavam comprar. Alternativamente, se o dólar enfraquecer, os torrefadores perderão em economias potenciais.

“Trata-se principalmente de tentar mitigar o máximo de risco possível”, diz Andrew. “Hedging pode ser um palpite informado, bem como saber como reduzir o risco de volatilidade dos preços comprando contratos a termo para sabermos quais serão nossos custos.”  

Nos últimos anos, a maior volatilidade no mercado cambial mostrou que as margens de risco e recompensa são muito maiores. Por exemplo, Andrew explica que, embora ele tenha planejado comprar dólares americanos para cobrir cerca de metade de suas despesas por um período de seis meses, ele agora faz isso por um período muito mais curto.

Para mitigar o risco, Andrew sugere usar um corretor de moeda em vez de um banco local para trocar moeda.  “Se você for a um banco e pedir para fazer um pagamento ao importador em dólares americanos, a taxa de câmbio será pior”, diz ele. 

Em vez disso, um corretor converte seu pagamento em dólares americanos e, em seguida, faz o pagamento ao importador em seu nome.  “Dessa forma, você tende a obter uma taxa de câmbio melhor”, acrescenta. No entanto, os torrefadores ainda precisam ter cuidado ao fazê-lo, e se certificar de comparar as taxas de câmbio entre bancos e corretores antes de tomar qualquer decisão.

Grãos de café crus -- como o mercado de câmbio afeta o preço do café

Embora o câmbio possa não ser tão amplamente discutido na indústria quanto o mercado de commodities, certamente tem um impacto no preço do café em toda a cadeia de suprimentos – afetando produtores, comerciantes, torrefadores e consumidores.

Para alguns produtores e muitos torrefadores, entender como o mercado de câmbio funciona e sua influência no preço do café pode informar como eles compram e vendem seu café. Em última análise, melhorar a conscientização pode ajudar tanto os torrefadores quanto os produtores a aprender sobre como o FX os impacta – e o que eles podem fazer para mitigar o risco e maximizar os lucros.

Gostou? Em seguida, leia nosso artigo sobre como os torrefadores de café de pequeno e médio porte podem gerenciar o risco de preço.

PDG Brasil

Traduzido por Daniela Melfi

Observação: a Sucafina é patrocinadora do Perfect Daily Grind.

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Elasticidade-preço da oferta: Como o preço do café afeta a disponibilidade? https://perfectdailygrind.com/pt/2023/01/18/elasticidade-preco-da-oferta-no-cafe/ Wed, 18 Jan 2023 11:05:00 +0000 https://perfectdailygrind.com/pt/?p=11907 Se você estivesse em um negócio que de repente se tornasse 10 vezes mais lucrativo da noite para o dia, como você reagiria? Provavelmente, você permaneceria no negócio e trabalharia para aumentar suas vendas o máximo possível. Mas e se esse aumento na lucratividade durasse pouco? E se o seu negócio passasse de razoavelmente lucrativo para deficitário no mesmo espaço […]

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Se você estivesse em um negócio que de repente se tornasse 10 vezes mais lucrativo da noite para o dia, como você reagiria? Provavelmente, você permaneceria no negócio e trabalharia para aumentar suas vendas o máximo possível. Mas e se esse aumento na lucratividade durasse pouco? E se o seu negócio passasse de razoavelmente lucrativo para deficitário no mesmo espaço de tempo? Você desistiria e mudaria para outra coisa? Tudo isso tem a ver com o conceito da elasticidade-preço da oferta.

Em meu último artigo sobre  elasticidade-preço da demanda, focamos em como os consumidores e outros reagem às mudanças de preços. Desta vez, estamos olhando para a extremidade oposta da cadeia de suprimentos, para analisar como os cafeicultores e e demais trabalhadores da cadeia produtiva reagem à flutuação dos preços. Leia mais para descobrir.

Você também pode gostar do nosso artigo sobre o que aconteceria se o café ficasse mais caro.

Mão em meio a grãos crus de café

Entendendo a elasticidade de preço de oferta

Simplificando, a elasticidade-preço da oferta é o quanto de um produto é disponibilizado ou retirado do mercado pelos vendedores em resposta a uma mudança no preço. Geralmente, à medida que os preço aumentam mais unidades são colocadas no mercado, e o inverso acontece quando eles caem.

No entanto, é importante lembrar que pode haver limitações à maior disponibilização de produtos em resposta às flutuações de preços.

No setor cafeeiro, quando o preço é alto e os agricultores aumentam sua produção. E como consequência da maior disponibilidade de café no mercado os preços começam a ser pressionados para baixo. Por outro lado, quando o preço é baixo, menos café é produzido e essa escassez pressiona os preços para cima.

Elasticidade-preço da oferta: os movimentos de preços são naturais? Devemos aceitá-los?

Na microeconomia convencional, geralmente damos como certo que esse conceito sempre funciona perfeitamente e que os mercados se auto regulam incondicionalmente.

No entanto, os mercados às vezes não conseguem fazê-lo, o que tem um impacto em toda a cadeia produtiva e é especialmente desconfortável par os agricultores, que ficam expostos a grandes riscos financeiros por serem mais vulneráveis economicamente.

Se as flutuações de preços são simplesmente a forma de o mercado se regular, é tentador aceitar que são eventos comuns e necessários à manutenção da “saúde” do mercado. No entanto, embora o preço do café mude em busca de equilíbrio entre oferta e demanda, esse processo pode acabar sendo, muitas vezes, violento e traumático.

Além disso, os movimentos de preços nem sempre são suficientes para atingir o equilíbrio de oferta e demanda, principalmente em períodos de preços baixos. Isso tem a ver com a elasticidade-preço da oferta.

Então, o que realmente acontece no setor cafeeiro?

No caso de agriculturas arbóreas, como o café, os mercados podem deixar de se auto-regular, ou fazê-lo tão lentamente que o efeito resultante é diferente ou mesmo oposto ao que seria considerado um comportamento racional.

A oferta aumenta e diminui em resposta ao preço (entre outras coisas), que flutua por muitas razões possíveis. Isso teoricamente representa o equilíbrio. Em teoria isso faz sentido, mas na prática pode ser muito diferente.

Quando o preço do café está alto, os agricultores muitas ampliam o plantio em suas lavouras. No entanto, essa resposta racional a um movimento de preços não aumenta a oferta imediatamente já que as novas árvores terão produtividade em escala comercial num intervalo de três a cinco anos.

A essa altura, o mercado pode ter já voltado a cair e o aumento no volume de grãos ofertados pressionará ainda mais um preço que pode já estar baixo. Isso fatalmente causaria prejuízos a quem plantou mais em função da alta anterior

Foi exatamente o que aconteceu durante a década de 1980, quando houve um influxo de novos cafés que haviam sido plantados após a geada de 1975 no Brasil.

E quando os preços caem?

O inverso também ocorre quando os preços caem, pois a única maneira de aumentá-los é reduzir a oferta. Como plantar e cultivar cafeeiros é um investimento significativo com retorno tardio, e os cafeeiros têm uma vida relativamente longa, é improvável que os produtores os cortem.

Perder seu investimento por causa de uma ou duas temporadas de preços baixos seria um pensamento de curto prazo. Em vez disso, os produtores vão resistir e esperam recuperar seu investimento nas temporadas seguintes.

Existem várias outras razões pelas quais os produtores, especialmente os pequenos, provavelmente não tentariam reduzir a oferta de café no mercado, mesmo quando os preços estão baixos.

Por exemplo, eles podem estar endividados por plantar esses cafeeiros não lucrativos e sem capital para fazer a transição para algo mais lucrativo. E mesmo que haja recursos para investir, pode ser que os produtores não decidam cultivar outras espécies por não terem o conhecimento de como realizar essa nova atividade.

Muitas regiões produtoras de café estão isoladas e economicamente dependentes do café, carecendo de outras oportunidades de renda. Assim, embora o mercado deva, teoricamente, se auto-regular, isso pode ser adiado enquanto milhões de famílias vulneráveis sofrem antes que eventualmente a oferta se reduza a um suposto nível de equilíbrio.

Incentivos e custos de oportunidade na elasticidade-preço da oferta

Quando os preços estão baixos, há um incentivo para reduzir a produção. Uma redução significativa só ocorre quando a produção e venda de café representa um custo de oportunidade.

Quando a rentabilidade cai abaixo dos lucros potenciais de fazer ou cultivar outra coisa, nos referimos à diferença como o “custo de oportunidade”. Este é o lucro perdido de não fazer aquela outra coisa mais lucrativa.

No entanto, como recursos significativos são geralmente investidos em uma plantação de café, esse custo de oportunidade geralmente precisa ser significativo o suficiente para que os produtores decidam abandoná-la e plantar outra coisa.

Quando há poucas ou nenhumas culturas alternativas para plantar ou oportunidades fora da fazenda, a elasticidade-preço da oferta seria muito baixa, o que significa que os produtores dificilmente reduzirão a oferta voluntariamente. O custo de oportunidade também seria muito baixo se não houvesse mais nada que eles pudessem fazer.

Isso significa que, se o preço do café cair e permanecer dolorosamente baixo, o mercado pode não experimentar uma redução de oferta suficiente para trazê-lo de volta por muito tempo. Durante esse período, operaria em estado de desequilíbrio.

Segundo algumas estimativas, o mercado global de café tem, de fato, operado por longos períodos em condições de excesso de oferta, como as que se seguiram às geadas no Brasil em 1975 e 1994

Em contrapartida, há momentos em que os preços estão altos e a rentabilidade do café se mostra mais atraente do que as culturas já instaladas. A decisão de plantar café pode ser simples se no local houver uma lavoura anual como cenoura, feijão ou milho.

E quanto à qualidade?

Além da decisão de produzir mais ou menos café, também temos que considerar o tipo ou a qualidade do café que os aumentos de preços incentivam. Quando o preço de venda é baixo, os produtores precisam buscar valor agregado, o que geralmente acompanha grãos com notas mais altas ou qualidade diferenciada.

Ao mesmo tempo, os compradores têm um poder de compra descomunal, porque podem conseguir café muito abaixo do teto de seus orçamentos. Em situações como essa, é comum que haja o oferecimento de bônus a produtores que atendam determinadas condições.

Por outro lado, quando os preços estão altos, os compradores têm menos capacidade de oferecer essas vantagens. Isso porque eles precisam pagar preços mais próximos do seu orçamento máximo que têm para a compra.

Além disso, nesta situação, os produtores estão mais bem equipados para impor suas próprias condições para o fornecimento dos grãos. Portanto, os compradores têm muito menos influência para exigir dos produtores métodos de processamento especiais e de alta qualidade.

Vimos esse fenômeno na Colômbia por meses após a agitação civil em maio de 2021. Uma grande parte dos produtores começou a vender pergaminho úmido no mercado ao preço da commodity. No entanto, ao fazer isso, eles estão ganhando, em muitos casos, muito mais do que ganharam com cafés especiais 12 meses antes.

Grãos de café secando em terreiro

Elasticidade-preço da oferta: especulação e cobertura

Neste ponto, precisamos entender que essas flutuações de preços não se baseiam exclusivamente na oferta e demanda de café. Em vez disso, eles são influenciados pelo contrato futuro do café, que reflete em grande parte a especulação técnica.

A maioria dos estudos mostrou que o preço futuro não necessariamente se movimenta contra os fundamentos físicos. Em vez disso, eles postulam que essas respostas são exageradas – o que significa que os altos são mais altos e os baixos são mais baixos do que seriam de outra forma.

Por que isso importa? Bem, é complicado, mas para simplificar, isso significa que a oferta de café real nem sempre está respondendo completamente à demanda por café. Em vez disso, está respondendo à demanda por contratos futuros de café – a grande maioria dos quais não vai se converter em compras físicas.

Da mesma forma, a demanda por café real não responde apenas à oferta de café, mas também à oferta de contratos futuros de café.

Digamos que a elasticidade-preço da oferta seja tal que um aumento de 10% no preço de mercado (com base no preço futuro) eventualmente cause um aumento de 10% na oferta global.

No entanto, hipoteticamente, a especulação técnica, e não a escassez de café físico, é responsável por metade dessa variação de preço.

Nesse caso, um aumento de 5% na oferta seria suficiente para cobrir a escassez. Então, em vez de simplesmente preencher uma necessidade, essa reação cria um excesso de oferta. Isso eventualmente faz com que os preços caiam. Com o tempo, a especulação técnica entra no jogo e escancara essa oscilação descendente.

Em resumo, sinais de mercado exagerados causam reações exageradas das partes envolvidas, o que resulta em volatilidade ainda maior. Esta é a força vital da especulação de curto prazo.

No setor cafeeiro, as mudanças de preços criam incentivos que teoricamente garantem que a quantidade ofertada seja igual à demandada.

O quanto os vendedores aumentam ou diminuem a quantidade que oferecem ao mercado em resposta às mudanças de preço é a elasticidade-preço da oferta. Isso depende de muitos fatores, mas é complicado porque o café é uma cultura de longo prazo.

Cada mudança apresenta uma oportunidade para alguns e adversidade para outros. No entanto, alguns atores estão mais bem posicionados para aproveitar as oportunidades e mais capazes de se proteger das adversidades. Além disso, isso se agrava ao longo do tempo com cada rali do mercado e cada queda.

Você também pode gostar  do nosso artigo sobre a história  inicial  do mercado C.

Créditos da foto: Karl Wienhold

 Tradução: Daniela Melfi.

PDG Brasil

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Entendendo o comércio direto de cafés especiais na África oriental https://perfectdailygrind.com/pt/2023/01/02/comercio-direto-de-cafes-especiais-africa/ Mon, 02 Jan 2023 11:07:00 +0000 https://perfectdailygrind.com/pt/?p=12017 As relações de compra e venda de café são passos cruciais na cadeia de abastecimento global e o modelo de comércio direto de cafés especiais vem ganhando cada vez mais espaço nos contatos entre produtores e compradores.  Nesse modelo, produtores negociam diretamente com compradores sem a necessidade de intermediários. No entanto, essas negociações podem infelizmente ser difíceis para os produtores, assim como o acesso a elas. […]

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As relações de compra e venda de café são passos cruciais na cadeia de abastecimento global e o modelo de comércio direto de cafés especiais vem ganhando cada vez mais espaço nos contatos entre produtores e compradores. 

Nesse modelo, produtores negociam diretamente com compradores sem a necessidade de intermediários. No entanto, essas negociações podem infelizmente ser difíceis para os produtores, assim como o acesso a elas.

Para saber mais, conversei com três especialistas africanos para entender melhor o comércio direto de cafés na África Oriental e por que o crescimento desta modalidade de negócios lá mais lento aqui do que em outras grandes regiões produtoras ao redor do mundo. Continue a ler para saber mais.

Você também pode gostar do nosso guia para comprar café orgânico.

Bandejas com diferentes lotes de grãos grus de café

Como o café é negociado na África Oriental?

O comércio de café na África Oriental é amplo e complexo, com modelos geralmente variando de país para país. No entanto, o comércio direto de cafés especiais é muito menos comum do que outros sistemas.

Mette-Marie Hansen é diretora administrativa da Kenyacof (Sucafina Quênia). Ela diz que o comércio direto é em grande parte um conceito auto explicativo: refere-se ao comércio direto de café entre compradores em mercados consumidores de café (torradores) e produtores, sem fatores intervenientes ou intermediários.

No entanto, o uso de intermediários é de longe a abordagem mais comum na África Oriental. Embora esse modelo enfrente críticas, Mette-Marie explica que esses intermediários muitas vezes agregam valor e experiência ao processo comercial.

Segundo ela, “os intermediários supervisionam o financiamento dos produtores ao longo do ciclo da cultura, oferecem aconselhamento agronômico com base em observações e medições, além de cuidar de todos os preparativos de exportação, embalagem, controle de qualidade, documentação e execução geral dos embarques”.

Ela acrescenta que isso não significa necessariamente que a relação entre o produtor e o torrador seja menos direta. “Eles estão apenas terceirizando alguns dos detalhes necessários para enviar e desembarcar o produto”, diz.

Etiópia

A Etiópia tem dois métodos distintos de comercialização de café: o Ethiopian Commodity Exchange (ECX) e o sistema de integração vertical.

A ECX foi criada em 2008 para facilitar o comércio de várias commodities, incluindo café. Embora tenha apoiadores e detratores, o sistema é funcional e popular para o comércio de cafés tradicionais.

A plataforma reúne o governo, os atores do mercado e os membros da ECX em um só lugar, onde eles podem fazer negócios com o apoio de um preço mínimo e transparência, além do benefício de pagamentos eletrônicos instantâneos.

Para os agricultores, há menos risco de inadimplência dos contratos, enquanto para os compradores há a garantia de fornecimento consistente. A ECX ainda fornece armazenamento e transporte para o café, aliviando significativamente os custos aos produtores.

A integração vertical, por sua vez, é a abordagem do país para o comércio direto. Foi legitimado pela ECX em 2017, após pressão dos exportadores de cafés especiais. Como eles podem manusear seu próprio produto e supervisionar o controle de qualidade e a classificação, os compradores que usam o modelo geralmente têm menos preocupações, enquanto os agricultores têm o poder de realizar acordos de preços antecipadamente.

Há um problema, no entanto: a integração vertical não se beneficia do sistema de pagamento imediato habilitado pelo ECX, o que significa que os agricultores ainda podem acabar esperando um pouco para receber os valores referentes às negociações.

Burundi

Por muitos anos, as exportações de café do Burundi estiveram sob o controle total do governo. Foi somente em 1991 que o sistema passou para os leilões, onde o governo continuou a fixar o preço mínimo.

No entanto, em 2008 o comércio direto tornou-se possível e produtores e exportadores finalmente ganharam mais controle sobre o processo. Hoje, os compradores ainda podem optar por comprar por meio de leilões facilitados pelo governo ou negociar diretamente.

Alguns obstáculos ainda existem para o comércio direto de cafés especiais. Por exemplo, os produtores continuam lutando com a falta de infraestrutura, e os problemas de transporte significam que nem sempre é fácil para os compradores viajar para as fazendas.

Quênia

No  Quênia existem dois sistemas distintos para o comércio de café: o sistema de leilão e a chamada “Segunda Janela”.

Embora o sistema de leilões seja algumas vezes criticado por seu impacto nos meios de subsistência dos agricultores, ele ainda responde por mais de 94% das vendas de café no país. Se bem administrado, esse sistema garante que o café seja vendido ao preço mais alto possível, mas nem sempre é assim.

O segundo método, chamado de “Segunda Janela”, é efetivamente o sistema de comércio direto do Quênia. Foi estabelecido em 2006, após anos de pressão de agricultores e cooperativas. O comércio direto entre agricultores e compradores internacionais tornou-se mais popular nos últimos 15 anos, mas esse método ainda é pouco explorado.

Agricultores e cooperativas frequentemente citam a falta de conhecimento e os altos custos iniciais como os principais problemas para escolherem o comércio direto.

Tanzânia

Na Tanzânia, existe um sistema de leilões estabelecido com vários centros de leilões em cidades como Mbeya, Mbinga e Moshi.

Semelhante ao Quênia, o sistema de leilão representa a maior parte das vendas de café no país, enquanto o comércio direto é menos estabelecido.

Trabalhadores carregando baldes com cerejas de café sobre suas cabeças

Uganda

Em  Uganda, o comércio é liberalizado. Isso significa que qualquer pessoa pode comprar e vender café em qualquer forma ou quantidade. Produtores individuais, cooperativas ou produtores agrícolas e de propriedades são livres para vender seus produtos a qualquer pessoa a preços negociados.

No que diz respeito às exportações, qualquer pessoa com licença de exportação pode exportar café, torrado ou verde. Os compradores podem comprar café como cereja, cereja seca, pergaminho ou café verde moído. O café é vendido por meio de “tratados privados” sem restrições ao volume negociado.

Ruanda

Como na Tanzânia, o comércio direto também é possível em Ruanda. Isso geralmente abrange cafés de alta qualidade, deixando os grãos com notas mais baixas reservados para o mercado local. As cooperativas têm uma presença estabelecida em Ruanda e têm relações com vários compradores diretos.

Há críticas de que, em alguns casos, muitos atores estão envolvidos no comércio, processamento e transporte do café ruandês, e isso pode tornar insustentável o preço pago aos agricultores. Em muitos casos, a força de trabalho mais jovem do país pode ser desestimulada por isso.

No entanto, há exemplos de produtores de café ruandeses inovando no mercado. Por exemplo, algumas partes interessadas começaram a negociar café na plataforma Tmall do Alibaba, que abre os produtores para a enorme rede de compradores da marca chinesa de comércio eletrônico.

Bandejas com diferentes lotes de grãos crus de café

Por que o comércio direto de cafés especiais tem menor peso no continente africano?

William Peters é um comerciante de café baseado na Tanzânia. Segundo ele, as principais razões pelas quais o comércio direto está menos estabelecido na África Oriental são a falta de investimento e a dependência excessiva do café para pagar as dívidas existentes.

“Você descobrirá que a maioria dos agricultores tem adiantamentos de empréstimos e dívidas pendentes das cooperativas que precisam ser pagas”, diz ele. “Eles, portanto, estão ‘presos’ à cooperativa e precisam esperar o pagamento de seu café para pagar esses empréstimos”.

Além disso, a logística pode ser incrivelmente cara, e William diz que as sociedades cooperativas de comercialização agrícola (AMCOS) simplesmente não podem financiá-la em nome dos agricultores. Somente depois que os importadores pagarem pelo café, a safra poderá ser movimentada.

Na Tanzânia, os agricultores também costumam ser pagos no prazo de sete dias após a venda do café. Ao contrário do comércio direto, onde eles podem esperar um tempo considerável antes de serem pagos, o sistema de leilão garante um pagamento mais rápido. No entanto, os preços podem ser mais baixos.

Robert Nsibirwa é especialista em café em Uganda e CEO da Africa Coffee Academy. Ele explica que as grandes torrefadoras tendem a agregar suas compras para garantir uma oferta constante, e que é apenas uma simples questão de escala.

“Se a Nestlé precisar de 30 milhões de quilos de café, será muito difícil trabalhar com 2,8 milhões de pequenos agricultores que fornecerão a quantidade necessária. É exatamente por esse motivo que os principais torrefadores comerciais optam por trabalhar com importadores em vez de lidar diretamente com os agricultores”, diz ele.

O importador também poderá lidar com quaisquer problemas de abastecimento. Por exemplo, se uma torrefadora precisa de um milhão de sacas e apenas 500.000 estão disponíveis, cabe ao importador suprir o deficit, e não a ela. 

Se este fosse o caso de agricultores individuais ou pequenas cooperativas, o contrato poderia ter que ser cancelado, resultando em sérias consequências financeiras.

“É a economia de escala com os torrefadores e a certeza de fornecimento”, explica Robert. “É por isso que muitos importadores preferem ir para o exportador, que vai buscar um contêiner de talvez 1.000 agricultores.”

Cerejas de café secando em terreiro suspenso

Outras barreiras ao comércio direto de cafés especiais

Para muitos atores da cadeia de suprimentos na África Oriental, o status quo e os modelos comerciais existentes são simplesmente muito lucrativos para considerar uma mudança para o comércio direto de cafés especiais. Mas existem outras razões específicas para haja menos interesse nesse modelo?

Bem, as leis locais podem exigir em alguns casos que, quando vendido diretamente, o café deve ser comercializado a um preço mais alto do que em leilão. Isso torna o comércio direto muito menos competitivo. William diz: “isso funciona contra o produtor porque os clientes vão preferir quem ofereça o mesmo café a um preço mais barato”.

O cultivo de cafés especiais também requer treinamento sobre a importância da qualidade e atributos sensoriais únicos; pode até exigir o apoio de um agrônomo.

Isso significa que apenas uma pequena percentagem de café pode atingir a qualidade pela qual os torrefadores de cafés especiais pagam prêmios. O acesso a esse conhecimento e treinamento na África Oriental é difícil sem o apoio de uma entidade maior, como um grande exportador ou importador.

Outro problema é a falta generalizada de certificações, seja de questões ambientais ou sociais. Compradores individuais de café verde que desejam praticar o comércio direto geralmente pedem por esses selos.

Embora muitas fazendas de café na região já estejam atendendo aos padrões mínimos para essas certificações, o custo para se tornar realmente certificado é outra barreira.

Mulher carregando um cesto para a coleta seletiva de cerejas de café nas costas

Como as coisas estão mudando?

Robert diz que quando cooperativas ou propriedades vendem diretamente, elas geralmente obtêm preços mais altos do que o café vendido localmente. Isso porque vendem para o mercado de cafés especiais, que pode pagar prêmios acima do preço normal de mercado.

“Através da responsabilidade social corporativa e das relações diretas, os agricultores que têm compradores diretos muitas vezes usufruem de subsídios e assistência. Estamos vendo mais organizações como a Fairtrade Labeling Organization (FLO) ajudando a fortalecer esses grupos de agricultores e até construindo projetos comunitários, como pontos de água.”

Mette-Marie concorda que o comércio direto é benéfico para os produtores da África Oriental, pois geralmente significa negócios repetidos para eles. No entanto, ela diz que, como a maioria dos cafés é de qualidade comercial, a maioria dos compradores vê mais benefícios no sistema de leilão.

“Os leilões proporcionam a descoberta de qualidade perfeita para os compradores, porque podemos ver as amostras do leilão e prová-las uma semana antes do leilão”, diz ela.

O café especial, contudo, adequa-se com maior facilidade ao comércio direto, e ela não vê motivo para que os dois sistemas não possam ser complementares.

“Os melhores produtores podem obter ótimos prêmios pelo café de qualidade que produzem diretamente para os compradores estrangeiros”, explica ela. “No geral, não vejo isso afetando o sistema de leilões de forma alguma.”

Homem usando um equipamento manual para descascar as cerejas de café

Em todo o mundo, os produtores de café costumam ser tomadores de preços e não negociadores. No entanto, o comércio direto mostrou que é possível encurtar a distância entre torrador e produtor e dar mais agilidade e controle ao processo.

Embora leilões, comerciantes e bolsas de commodities continuem sendo parte integrante da cadeia global de fornecimento de café, o comércio direto oferece algo diferente: a chance de se comunicar mais de perto com o comprador e, muitas vezes, receber um preço mais alto por sua safra.

Infelizmente, o sucesso deste sistema não é de forma alguma garantido e enfrenta muitos obstáculos na África Oriental. Resta ver se isso vai mudar nos próximos anos.

Gostou? Então leia nosso artigo sobre como enfrentar os desafios do comércio de café na África Oriental.

Tradução: Daniela Melfi.

PDG Brasil

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Por que há comercio de café verde entre países produtores? https://perfectdailygrind.com/pt/2022/12/07/comercio-de-cafe-verde-paises-produtores/ Wed, 07 Dec 2022 11:03:00 +0000 https://perfectdailygrind.com/pt/?p=11843 De modo geral, os países produtores de café têm como objetivo exportar para os principais países consumidores e aumentar a demanda internacional. Mas o comércio de café verde entre os países produtores também é uma realidade.  Algumas origens importam café para satisfazer certas necessidades específicas de sua indústria ou do mercado interno, ao mesmo tempo em que há os que simplesmente não produzem o […]

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De modo geral, os países produtores de café têm como objetivo exportar para os principais países consumidores e aumentar a demanda internacional. Mas o comércio de café verde entre os países produtores também é uma realidade.

 Algumas origens importam café para satisfazer certas necessidades específicas de sua indústria ou do mercado interno, ao mesmo tempo em que há os que simplesmente não produzem o suficiente para cobrir sua demanda doméstica.

Essa dinâmica comercial é um assunto polêmico discutido pelos produtores de café há décadas. Muitos reconhecem isso como uma forma de os países produtores gerarem mais renda ao mesmo tempo que há quem aponte desvantagens nessa prática.

Para saber mais, conversei com quatro especialistas do setor sobre esse tipo de comércio de café verde. Continue a ler para saber o que disseram.

Você também pode gostar do nosso artigo sobre como podemos aumentar o consumo de café nos países produtores.

Grãos de café secando em terreiro

Análise de dados comerciais entre países produtores

José Dauster Sette, ex-diretor executivo da Organização Internacional do Café (OIC), conta que entre 2015 e 2018 o mundo exportou em média cerca de 121 milhões de sacas de 60kg por ano. Essas quantidades incluem café arábica e robusta verde, torrado e solúvel.

Da cifra acima, aproximadamente 8,5 milhões de sacas são comercializadas entre países produtores, o que representa cerca de 7% do total das exportações. Nesse cenário, o robusta verde foi a categoria mais comercializada, totalizando pouco menos de 5 milhões de sacas (cerca de 59% do mercado).

O café verde para solúvel ficou em segundo lugar, com 1,7 milhão de sacas, o equivalente a 21%. O arábica representou 19% e o café torrado apenas 0,43%. José explica: “Isso mostra que o comércio é principalmente concentrado em solúvel, por razões de processamento, e robusta por razões de preço e qualidade”.

“Quando subdividimos o comércio de café verde entre os países produtores nesses diferentes segmentos, as proporções são bem diferentes do comércio geral. No total, o café solúvel representa 21% das exportações em comparação com 8% das exportações globais”, ele acrescenta.

Curiosamente, José aponta que 74% de todo o café exportado pelo Vietnã, Brasil e Indonésia foi para outros países produtores nesse período. Outro grande exportador é Honduras, que despachou 460.000 sacas para países produtores, incluindo México, Peru, Índia e Colômbia.

Tabela contendo dados sobre as exportações de café verde

Por que há comércio de café verde entre países de origem

João Mattos é o Coordenador Latino-Americano de Produção e Mercado de Café da CLAC Comércio Justo, uma rede que representa todas as organizações certificadas de Comércio Justo da América Latina. Ele explica que há dois motivos pelos quais os países produtores importam café.

Em primeiro lugar, diz ele, atende a demanda doméstica e fornece estoques para o setor de café solúvel, que costuma ser popular. Em segundo lugar, o preço do café recebido é frequentemente muito mais barato devido à sua qualidade inferior.

José concorda, mas acrescenta que é difícil definir o destino das importações. Depois que os grãos entram em um país, é difícil rastreá-los. Portanto, não se sabe quanto dele é usado para solúvel em comparação com quanto é usado para misturas, por exemplo.

Vejamos o México, nono maior produtor de café do mundo, como exemplo. De acordo com os números da ICO, sua produção foi de cerca de 4 milhões de sacas desde 2017.

No entanto, entre 2015 e 2018, a quantidade média anual de café verde importado atingiu 715.000 sacas – a terceira maior para os países produtores. Esses grãos vieram principalmente do Brasil, Vietnã e Honduras.

“O Robusta é ideal para fazer café solúvel, porque tem um rendimento de xícara muito maior”, diz José. “Portanto, um saco de robusta produz mais café solúvel do que um saco de arábica.

“Porém, o México não está importando apenas para satisfazer seu mercado interno. Algumas das importações são realmente processadas e re-exportadas como café solúvel, principalmente para a América Central ”, afirma ele.

Vera Espíndola Rafael é economista agrícola e consultora de café baseada no México e Diretora de Desenvolvimentos Estratégicos da Azahar Coffee. Ela explica que seu país possui uma das maiores indústrias de café solúvel da região.

“No México temos duas fábricas e há outra em construção ”, afirma. “É uma planta enorme, uma das maiores da América Latina para café solúvel, simplesmente porque a Nestlé tem uma presença muito forte. Então o café está sendo importado simplesmente porque é mais barato ”.

Em contraste com a produção, o consumo doméstico no México é baixo – cerca de apenas 1,6 kg de café per capita ao ano. A maior parte das importações é destinada ao atendimento da demanda interna de café solúvel, como explica Vera.

Embora nem todos estejam felizes com a situação, diz ela, as enormes exigências de grandes produtores como a Nestlé os deixam com pouca escolha. “Há a crítica de que o café usado deve ser mexicano”, diz Vera. “A Nestlé entende essa parte e alega estar comprometida em comprar mais café mexicano”.

“Mas, ao fim e ao cabo, a produção do México não é suficiente para atender a demanda de uma fábrica como essa.”

A produção de café em alguns países também foi enfraquecida por surtos de doenças, e João diz que o México é um dos países afetados.

Tabela contendo dados do comércio de café verde global

Comércio de café verde: qualidade e preço

Os diferenciais de preços para o café de cada país também são um fator determinante na comercialização do café verde.

Um exemplo é a Colômbia, que é o terceiro maior país produtor de café do mundo. Em 2019, sua produção totalizou quase 14,8 milhões de sacas de 60kg. Destes, 13,7 milhões (93%) foram exportados.

Consequentemente, sobraram apenas 1,1 milhão de sacas (7%) para atender à demanda local. O consumo interno na Colômbia é estimado em cerca de 1,8 milhão de sacas, deixando uma lacuna de cerca de 700.000 sacas. A Colômbia, portanto, tem que importar café de outros países produtores.

Isso também ocorre porque o prêmio que o café colombiano recebe pela qualidade ao exportar internacionalmente é muito maior do que em países vizinhos com qualidade de exportação semelhante. Equivale, em média, a USD  0,26 a mais por libra-peso no mercado internacional.

João explica: “Em janeiro, o sexto destino mais importante para o Brasil era a Colômbia. Acho que  boa parte vai para o mercado interno, mas também é usado para a indústria de café solúvel.”

Em geral, é aceito que as exportações internacionais resultam em melhores preços para os cafeicultores e que o comércio internacional é benéfico para a economia nacional. Isso também se aplica ao comércio entre origens, especificamente quando o país que compra o café pode pagar um preço mais alto do que o mercado local.

“Se você olhar para os diferenciais de preço de diferentes países hoje, é bastante diverso”, acrescenta João. “Temos países com diferenciais negativos como o Brasil e outros grandes diferenciais como a Costa Rica.”

Por causa das diferenças de preços dos cafés de diferentes origens, algumas pessoas até começaram a contrabandear café entre países vizinhos para obter melhores preços.

René León Gómez é Secretário Executivo da Promecafé. Ele explica que essa prática ilegal é surpreendentemente comum em países produtores, especialmente na América Central onde o preço do grão oferecido por um país de origem pode ser inferior ao pago em outras regiões. “Em Honduras, muitas pessoas na indústria de exportação ou comercialização de café reclamavam e constantemente traziam isso à tona”, diz René.

“Eles alegavam que muito café de Honduras estava escapando para a Guatemala por canais ilegais ou informais,mas nem tudo é desconsiderado. As pessoas que comercializam esse café ou os próprios produtores de café têm seus motivos e nós os entendemos”, ele acrescenta.

René finaliza: “Por exemplo, novamente com o café de Honduras, o preço que está sendo pago no mercado nacional pode ser inferior ao preço pago por um comprador – alguém que está pensando em levar o café para a Guatemala ou o México.”

Tabela contendo dados sobre o comércio de café verde no mundo

Benefícios e desvantagens do comércio de café verde entre países produtores

Apesar de todos os benefícios percebidos, existem alguns críticos dessa dinâmica de negociação única. João e José apoiam. Eles dizem que isso dá aos países comerciais a capacidade de fortalecer os laços comerciais, aumentar o fluxo de caixa e agregar valor ao café de qualidade inferior.

“Sempre há alguma preocupação no setor produtor, em termos de importação. Por exemplo, algumas pessoas acham que isso diminui os preços no mercado interno”, diz José.

“Mas acho que, na maioria das vezes, o que entra no país libera café de melhor qualidade para obter preços mais altos no exterior. Então, há uma certa complementaridade. Não vejo isso tanto em termos de ameaça”, ele acrescenta.

Também existem preocupações sobre a qualidade inferior do café comercializado entre os países produtores, que se concentram em não melhorar a qualidade do café consumido internamente. No entanto, em resposta, José explica que a maioria dos países produtores tem pouco poder de compra em comparação e não consegue sustentar um grande mercado de café de alta qualidade.

“Isso é uma realidade”, diz ele. “Devemos fazer algo a este respeito? Sim. Eu olho para o meu país, o Brasil. Era um país com baixo poder aquisitivo e baixa qualidade no café. Com o tempo, programas de melhoria na qualidade e de marketing aumentaram o volume de consumo. Agora está passando por essa fase de diferenciação, com o surgimento dos cafés especiais”.

“Sou a favor de primeiro fazer o mercado crescer e, posteriormente, segmentá-lo e buscar esse tipo de agregação de valor”, ele finaliza.

Vera concorda, dizendo que participou de um estudo relevante. O estudo indica que, nos próximos anos, os preços do café não devem subir. Nesse caso, será necessário estimular o consumo interno de cafés de melhor qualidade. Isso reduziria a pressão sobre os países produtores criada pelo mercado internacional.

“A criação de um programa de promoção do consumo de café teve sucesso tanto no Brasil quanto na Colômbia. Houve treinamento de profissionais e disponibilização de informação para os consumidores e, assim, aumentou-se o consumo de café. Isso levou a uma maior demanda no entendimento dos cafés especiais locais”, ela afirma.

tabela contendo dados a respeito do comécio de café verde

O comércio de café verde entre os países produtores é um fenômeno único no setor cafeeiro que raramente se discute. É, embora complicada, uma forma de os agricultores dos países produtores obterem melhores preços pelo café que cultivam.

São preços que não necessariamente seriam alcançados no mercado interno. Ao mesmo tempo, também ajuda a atender a demanda por café solúvel e o consumo doméstico.

No papel, essa não é necessariamente uma relação negativa. O principal objetivo desses países é garantir um mercado para a produção de seus agricultores e manter uma economia saudável.

No entanto, isso abre uma outra discussão: como os países produtores podem promover o consumo interno de café de melhor qualidade. Isso, por sua vez, melhorará enormemente a subsistência dos cafeicultores locais e a sustentabilidade da produção de café a longo prazo.

Gostou? Então leia nosso artigo sobre o que está impedindo os países produtores de cultivar o consumo de café.

Créditos das fotos: Tatiana Guerrero, OIC.

Postado originalmente no PDG Español.

Tradução: Daniela Andrade.

PDG Brasil

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