Blends: “Propriedade intelectual” para torrefadores de café?
Nos últimos anos, os blends de alta qualidade têm ganhado destaque na cena dos cafés especiais. Seja nas competições de baristas ou nas cafeterias premium, eles passaram a ter cada vez mais destaque.
À medida que a indústria passou a enxergar os blends não mais como uma opção “tradicional”, e sim uma oportunidade de proporcionar novas e emocionantes experiências sensoriais, os torrefadores de cafés especiais vêm incorporando-os em seus cardápios. E isso representa uma oportunidade única para esses profissionais se destacarem no mercado e impulsionarem a identidade de suas marcas com eficácia.
Nesse contexto, é possível argumentar que os torrefadores podem posicionar seus blends como uma forma de propriedade intelectual, deixando sua marca no setor de maneira significativa. Para saber mais, falei com Tony Dreyfuss, sócio e cofundador da Metropolis Coffee Company, Olivia Morris, gerente de contas de atacado da Little Bear Coffee, e Adam Cozens, diretor administrativo e cofundador da Perky Blenders.
Você também pode gostar do nosso artigo sobre como os torrefadores podem usar blends para impulsionar a identidade da marca.

Blends: um novo elemento essencial de café especial
Os blends sempre foram uma parte crucial das ofertas de muitas torrefações e dos menus das cafeterias, seja sazonalmente ou como opções exclusivas. Anteriormente, eram vistos como cafés para consumidores mais tradicionais, em busca de perfis clássicos de sabor como chocolate e nozes. No entanto, essa percepção está se transformando à medida que o café especial adota os blends como uma forma inovadora e criativa de oferecer novas experiências aos consumidores.
Tony Dreyfuss, co-fundador e co-presidente da Metropolis Coffee Company em Chicago, Illinois, destaca o planejamento e a empatia por trás dos blends. “Os blends permitem considerar as preferências do cliente e oferecer opções que atendam às suas necessidades. Com origens únicas, você só pode oferecer o que tem e deixar o cliente escolher uma entre essas opções.”
Olivia Morris, gerente de contas de atacado e fornecimento de café verde da Little Bear Coffee, também lidera o controle de qualidade e educação. Ela destaca que os blends podem ser mais acessíveis para muitos consumidores, proporcionando uma experiência mais acolhedora em comparação com cafés de origens únicas, que podem parecer intimidadores para alguns.
“Os microlotes podem ser um pouco opressivos às vezes, e nem todos os consumidores sabem o suficiente sobre as informações que colocamos nos pacotes, e eles nem sempre se sentem à vontade para fazer perguntas. Esse não é o caso dos blends de cafés especiais. Os clientes geralmente se sentem mais à vontade para fazer perguntas sobre eles, para poderem descobrir melhor o que gostam no processo”, ela diz.
Adam Cozens, cofundador da Perky Blenders em Londres, Reino Unido, concorda que os blends oferecem uma maneira rápida e fácil para os consumidores se identificarem com o café. A capacidade de atender às necessidades específicas dos clientes torna os blends uma vitória para todos os envolvidos.

Oferecer mais controle sobre a identidade da marca
Para as torrefações de cafés especiais, construir uma marca distinta e alinhada com seus valores comerciais é essencial. Nesse sentido, os blends desempenham um papel crucial na exaltação e fortalecimento da identidade da marca.
Desde a nomeação dos blends até a história por trás de seu desenvolvimento, incluindo causas ou eventos que a torrefação deseja apoiar ou celebrar, os blends podem ser uma ferramenta poderosa na estratégia de marketing e marca.
“Oferecemos um blend chamado Redline Espresso. Em Chicago, onde torramos, o sistema de trem da linha vermelha é quase sinônimo da cidade. Batizar esse café com o famoso sistema de trânsito da cidade, traz maior identificação aos nossos clientes”, diz Tony. “E na minha experiência, os clientes se tornam realmente leais aos blends com as quais se conectaram, o que não acontece com os cafés de origens únicas.”
Adam explica como ele usa blends para destacar parcerias com outras marcas e projetos alinhados. “Temos um ‘Café do mês’ rotativo que ocasionalmente é um blend”, ele diz. “Além de explorar diferentes perfis de sabor, fazemos parceria com outras marcas, projetos locais e causas para a embalagem. Nosso negócio acredita firmemente no apoio às comunidades locais e a diferentes artistas, e nossos nomes de blends refletem isso”.
Criar uma nova experiência sensorial
Em um mercado onde muitos torrefadores podem acabar utilizando os mesmos cafés de origem ou variedade, os blends oferecem uma oportunidade única de diferenciação e criação de uma nova experiência sensorial para os consumidores.
“Os cafés de origem única podem ser considerados ingredientes, enquanto os blends podem ser vistos como as receitas”, diz Tony. “Portanto, você pode ter as mesmas origens únicas, e criar blends diferentes com eles para atender a diferentes necessidades. Isso não significa apenas mais variedade para o consumidor final, mas também permite que os torrefadores atacadistas ofereçam cafés exclusivos a seus negócios”, acrescenta.
Talvez mais notavelmente, vimos isso em competições de café nos últimos anos, incluindo o World Barista Championship e a World Brewers Cup:
- no WBC de 2023, por exemplo, o vencedor Boram Um usou um blend de Gesha fermentada anaerobicamente e Bourbon Rosa natural em sua rotina de bebidas lácteas;
- o concorrente italiano Daniele Ricci, que ficou em segundo lugar, também usou um blend de Gesha colombiana e Caturra da mesma fazenda;
- o campeão do WBrC de 2021, Matt Winton, usou um blend de Eugenioides — uma espécie “esquecida” — e Catucai.
“Os blends podem ajudar a desempenhar um papel importante ao permitir que os torrefadores diferenciem suas ofertas de outros varejistas que podem ter opções semelhantes em seus menus”, diz Olivia. “Além disso, esses blends podem servir como uma ponte eficaz entre cafés para ‘pessoas do café’ e clientes em geral.”

Protegendo propriedade intelectual valiosa?
É verdade que muitos torrefadores podem adquirir os mesmos cafés das mesmas fazendas ou cooperativas. No entanto, as habilidades, conhecimento e experiência de um torrefador desempenham um papel crucial. Principalmente no que tange à criação do blend adequado para atender às necessidades específicas do cliente e se destacar.
Nesse contexto, um número crescente de torrefadores começou a buscar direitos autorais para nomes e marcas. E com isso proteger o patrimônio de sua empresa e a propriedade intelectual. Em um mercado altamente competitivo como o de cafés especiais, ter essa proteção pode representar uma vantagem significativa. De toda forma, também pode ser um investimento considerável para torrefadores menores.
“Os blends e suas receitas são de propriedade dos torrefadores. São suas propriedades intelectuais e, portanto, vale a pena protegê-las. Entenda para quem você está torrando o blend e o que deseja alcançar com ele. Comece a desenvolver o blend com o cliente em mente, mantendo a simplicidade e garantindo que os resultados sejam replicáveis e consistentes a longo prazo”
O papel dos blends no futuro
Os blends vêm sendo uma parte essencial da cultura do café desde os primórdios da indústria e continuarão a desempenhar um papel significativo em breve. “Eles estão aqui para ficar e evoluir”, diz Adam. “Esperamos que mais torrefadores sigam uma abordagem colaborativa. E, além disso, criem blends que complementem alimentos específicos ou sejam adequados para determinados momentos do dia. E ainda reflitam de forma mais inovadora os valores das marcas parceiras.”
Olivia concorda: “Os blends de cafés especiais ajudarão a superar muitas dúvidas em nosso setor e podem ajudar a construir relacionamentos valiosos com os clientes. No futuro, os blends continuarão a ser uma ótima maneira para torrefadores, consumidores e até campeões mundiais inovarem e criarem experiências únicas para consumidores e juízes.”
“À medida que mais pessoas entendem a ciência por trás da criação do ‘blend perfeito’, veremos um aumento na demanda que é equivalente aos cafés de origem única”, acrescenta. “Os blends de alta qualidade podem atuar como uma ponte para se conectar com os clientes. E com a comunidade cafeeira, em geral, com mais facilidade.”

Os blends de cafés especiais estão tendo seu momento e continuarão certamente a brilhar. Mas, mais importante, os blends apresentam aos torrefadores uma oportunidade única de comercializar suas marcas — e eles devem capitalizar isso o máximo possível.
Marcas registradas e copywriting misturam nomes, logotipos e receitas é uma das muitas maneiras de fazer isso. Como resultado, os torrefadores podem proteger suas marcas e “propriedade intelectual”, que está se tornando cada vez mais importante em um mercado altamente competitivo.
Gostou? Em seguida, leia nosso artigo sobre se as origens únicas são realmente melhores do que os blends.
Créditos das fotos: Melissa Toms, Metropolis Coffee Company
Tradução: Daniela Melfi.
PDG Brasil
Quer ler mais artigos como este? Assine a nossa newsletter!



