Por que torrefadores devem oferecer uma ampla variedade de opções?
Para muitos consumidores de café, é essencial ter uma variedade de opções de origens para escolher. Cada país produtor tem um terroir único que afeta as características sensoriais do café. Como frequentemente escolhemos café pelo sabor, é vital que os torrefadores ofereçam uma ampla variedade de opções.
Além de beneficiar os consumidores, oferecer uma grande variedade de opções de cafés apoia os produtores, especialmente os pequenos. E ainda protege a diversidade da indústria contra problemas climáticos. Com o novo regulamento de desmatamento da União Europeia (EUDR) impactando produtores, exportadores e torrefadores, oferecer uma variedade de cafés nunca foi tão importante.
Para saber mais, conversei com diversos traders e torrefadores. Continue lendo para saber mais sobre eles.
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Por que a variedade de opções é tão importante?
Nos últimos anos, mais torrefadores começaram a oferecer uma variedade de opções de cafés, incluindo diferentes origens, variedades (ou mesmo espécies), métodos de processamento, pontuações e preços.
Inacio Teixeira, diretor da InterAmerican Coffee (IAC) na Alemanha, explica a importância da diversidade do café para torrefadores de qualquer tamanho. “A obtenção de diferentes países produtores significa oferecer perfis de sabor mais emocionantes e únicos, além de cafés mais tradicionais”, diz ele. “Os torrefadores querem oferecer aos seus clientes a maior variedade possível de cafés.”
Este é um aspecto inerente dos cafés especiais. Os torrefadores e baristas se esforçam para mostrar todo o espectro de sabor e aroma mediante diferentes perfis de torrefação e métodos de preparo. E isso lhes permite construir fidelidade à marca e atrair novos clientes.
Fritz Bernet, Jörg Scheuffler e Julia van der Maat trabalham na Bergbrand, uma torrefadora de cafés especiais na Alemanha. Eles afirmam: “Nossa indústria tem tudo a ver com a oferta de uma grande variedade de opções de cafés porque cada um tem seus próprios sabores e características distintas”. Fritz Bernet acrescenta: “Algumas pessoas querem experimentar sabores mais interessantes, enquanto outras preferem um café mais equilibrado”.
Jennifer Roberts, COO da Atlas Coffee Importers nos EUA, concorda: “Gostamos de ver torrefadores capazes de obter lotes a granel para misturas consistentes e micro lotes especiais do mesmo produtor. Isso ajuda o agricultor a vender volume e a obter reconhecimento pelo trabalho extra nas ofertas de alta qualidade, além de ser uma maneira de experimentar diferentes técnicas de gerenciamento e processamento de fazendas em menor escala.”
Apoiar os pequenos produtores a investir na produção
Os pequenos agricultores existem em todo o Cinturão do Grão, mas certos países produtores dominam o mercado global. Nos últimos cinco anos, Brasil, Vietnã, Colômbia, Indonésia e Etiópia representaram cerca de 73% da produção global de café. Ao buscar oferecer uma variedade de opções de cafés de diferentes origens, os torrefadores também apoiam o crescimento de comunidades produtoras menores.
Ruben Scholz, COO do Neumann Kaffee Gruppe, explica que muitos pequenos produtores dependem fortemente de compradores específicos. Em Honduras, por exemplo, o setor cafeeiro é a segunda maior fonte de renda. “Os produtores dependem que os clientes continuem comprando deles. Se o mercado desaparecer, a indústria do café hondurenha começará a declinar e as gerações mais jovens procurarão novos empregos,” ele diz.
Dado que cerca de 25 milhões de pequenos agricultores produzem até 80% da oferta mundial de café, mas 5,5 milhões vivem abaixo da linha de pobreza internacional de US$ 3,20 por dia, apoiar esses agricultores é crucial para o sucesso da indústria em geral. De acordo com Gloria Pedroza, chefe de Serviço de Qualidade da NKG, se os consumidores não estiverem dispostos a pagar mais por um café de qualidade, será difícil para muitos agricultores continuar a cultivá-lo. “Em muitos países, as gerações mais jovens não querem trabalhar na agricultura, o que é compreensível, pois gerar uma renda digna pode ser um desafio,” ela diz.
Em certos países produtores, os pequenos agricultores representam a grande maioria dos volumes de exportação. Por exemplo, segundo o World Resources Institute, existem cerca de 1,7 milhões de pequenos cafeicultores apenas em Uganda, e muitos deles têm 55 anos ou mais. Isso compromete a realização de trabalho físico intensivo diariamente.

Aliviar a pressão dos problemas da cadeia de suprimentos
Nos últimos anos, os torrefadores de todo o mundo lidaram com problemas da cadeia de suprimentos. Estes incluem:
- atrasos de envio, exacerbados pela pandemia e pelo recente conflito no Oriente Médio;
- preços voláteis;
- em maio de 2024, o preço do robusta atingiu o maior valor em 45 anos, após o aumento da demanda e menores volumes de produção no Vietnã;
- escassez de oferta.
“Os clientes curiosos apreciam uma seleção em constante mudança por permitir que eles descubram novos grãos”, diz Jörg. “No entanto, atender a clientes que priorizam a consistência pode ser um desafio, especialmente se um café específico ficar indisponível.”
Ao adquirir cafés de outras origens, os torrefadores serão menos afetados por interrupções na cadeia de suprimentos em regiões específicas. “Por exemplo, ao replicar um blend, os torrefadores podem substituir um café ausente por um similar de outra região”, explica Julia.
Ruben concorda, dizendo: “As várias crises no mercado de café, como mudanças climáticas, clima extremo, falhas nas safras e novas regulamentações, provam que seria negligente se concentrar em apenas algumas origens”.
A questão climática
A crise climática é uma ameaça crescente para a indústria do café. Um estudo de 2023 na revista PLOS Climate descobriu que o aquecimento global levará provavelmente a “choques sistêmicos contínuos” na produção de café. “A diversidade de origem e qualidade está em risco aqui”, acrescenta Ruben. “Nossa força no Neumann Kaffee Gruppe reside em nossos relacionamentos de longo prazo com clientes, fornecedores e todas as outras partes ao longo da cadeia de suprimentos.”
Em última análise, ao adquirir café de fornecedores que trabalham com parceiros de diferentes origens, os torrefadores podem gerenciar melhor qualquer interrupção inevitável da cadeia de suprimentos. “A NKG opera em quase 30 países e tem uma rede de agentes e representantes para conectar produtores locais com compradores internacionais”, explica Fritz. “Isso permite que eles obtenham uma variedade de opções de café de diversas origens, dando aos torrefadores acesso a diversas origens e perfis.”

Por que lidar com as ameaças à diversidade do café é vital
Embora existam cerca de 120 espécies identificadas de café, arábica e robusta compõem a maioria do mercado. Muitos estudos destacam a vulnerabilidade do arábica às mudanças climáticas, apontando que até 50% das atuais terras produtoras de arábica podem se tornar inadequadas ao cultivo até 2050. Além disso, muitos pequenos agricultores dependem fortemente de mercados únicos e grandes comerciantes, o que aumenta o risco econômico.
A situação pode ficar ainda pior com a entrada em vigor do Regulamento de Desmatamento da UE (ou EUDR). A nova lei exigirá que as empresas provem que as commodities importadas (incluindo café) não são provenientes de cadeias de suprimentos onde ocorre o desmatamento.
No EUDR, os países serão classificados em risco baixo, padrão ou alto de desmatamento. Muitos criticaram o impacto desproporcional causado pelo dispositivo às fazendas menores, muito menos propensas a ter os recursos e o capital para se adequar às regras ou comprovar sua conformidade.
Os comerciantes e torrefadores europeus podem achar mais fácil comprar café verde de fazendas maiores localizadas mais longe das florestas do que de fazendas de pequenos agricultores “mais arriscadas”. Ruben explica: “Projetos na floresta amazônica promovem o café cultivado à sombra, mas sob a EUDR, qualquer café desta área será considerado de alto risco de desmatamento, exigindo sistemas caros de rastreabilidade”.
As exigêngias da EUDR
a EUDR exige uma extensa documentação e coleta de dados para confirmar o status de livre de desmatamento do café, o que pode ser difícil e caro para produtores menores com recursos limitados. Mas se as fazendas menores não puderem cumprir, elas podem perder o acesso a um dos maiores mercados de café do mundo, que responde por 30% do consumo global de café.
Além disso, essas novas regulamentações já estão causando mudanças na demanda de alguns países produtores, como explica Ruben. “Em sua colheita recente, por exemplo, a Etiópia experimentou uma demanda dramaticamente lenta da Europa”, diz ele. “No geral, é provável que a Europa veja preços mais altos e cafés vindos de menos origens, reduzindo a diversidade na xícara e criando riscos futuros de fornecimento, especialmente devido às mudanças climáticas. No entanto, os produtores não podem progredir sozinhos”, acrescenta. “Isso requer um esforço conjunto, como a iniciativa NKG Bloom.”
A NKG Bloom trabalha com mais de 80.000 cafeicultores em todo o mundo para fornecer acesso a financiamento, treinamento e infraestrutura aprimorada. Também garante que os agricultores estejam cientes das práticas de produção sustentável para atender a critérios como os da EUDR – garantindo que não percam o acesso a mercados dos quais dependem fortemente para obter renda.

A colaboração é fundamental para o sucesso da variedade de opções na torrefação
Trabalhar em conjunto para alcançar maior variedade de opções de café beneficia toda a cadeia de abastecimento. A transparência e rastreabilidade são cada vez mais exigidas pelos consumidores. “Os consumidores procuram algo especial, seja qualidade excepcional ou informações sobre a origem do café, ou do produtor”, diz Inacio Teixeira.
Jörg destaca que a parceria com comerciantes como o Neumann Kaffee Gruppe permite que torrefadores de qualquer tamanho construam relacionamentos de longo prazo com os produtores e participem de viagens de origem. “Essa transparência ajuda os torrefadores a contar a história de seu café, destacando os produtores e as condições de cultivo”, conta Fritz.
Os agricultores menores também podem aproveitar essa transparência e rastreabilidade para diferenciar seus cafés no mercado, mas precisam de apoio para fazer isso com sucesso. “Técnicas de processamento novas e criativas também tornam isso possível”, diz Gloria. “No entanto, deve haver um mercado que valorize esses produtos e pague um valor prêmio por eles.”

Os países produtores maiores sempre dominarão o mercado de cafés especiais, o que torna ainda mais importante que os torrefadores obtenham de uma variedade de origens diferentes.
Isso ajuda não apenas a atender à demanda em constante mudança dos consumidores, mas também significa que os torrefadores podem apoiar melhor os pequenos produtores em uma ampla gama de países.
Gostou? Então leia nosso artigo sobre o que os torrefadores aprenderam com a pandemia de Covid-19.
Créditos das fotos: Neumann Kaffee Gruppe, Vanessa Vick, Amelie Baumer, Ilona Murschel
Tradução: Daniela Melfi.
PDG Brasil
Observação: o Neumann Kaffee Gruppe é patrocinador do Perfect Daily Grind.
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