Por que mais produtores de café estão optando por diversificar suas lavouras?
Durante séculos, muitos produtores têm cultivado café com outras plantações agrícolas de rendimento por uma série de razões. Mas nos últimos anos, com as mudanças climáticas, um mercado cada vez mais volátil e a crescente concorrência internacional, os cafeicultores tiveram que explorar outras maneiras de diversificar.
Muitos produtores não conseguem assumir muito risco, na maioria porque já estão operando em níveis que mal lhes permitem sobreviver. Mas uma das várias maneiras de se adaptar com sucesso é a diversificação de culturas — uma prática agrícola na qual os produtores cultivam diferentes culturas que não competem por nutrientes e recursos semelhantes aos do café.
A diversificação de culturas usa técnicas como o plantio consorciado, cultivo de cobertura e rotação de culturas para não apenas apoiar melhor os ecossistemas locais, mas também para melhorar os meios de subsistência socioeconômicos dos agricultores.
Então, por que e como mais produtores de café estão diversificando suas plantações? Conversei com Martin Mayorga, fundador e CEO da Mayorga Coffee, e Juan Ramón Cruz García, gerente nacional da Mayorga Coffee na Nicarágua, para saber mais.
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POR QUE A DIVERSIFICAÇÃO DE CULTURAS É PARTE INTEGRANTE DA AGRICULTURA SUSTENTÁVEL
Juan Ramón Cruz García é o gerente nacional da Mayorga Coffee na Nicarágua – uma torrefadora de café com foco no apoio a práticas de agricultura orgânica sustentável e na elevação de pequenos produtores na América Latina. Ele me explica o que é diversificação de culturas. “A prática envolve a rotação de diferentes culturas ao longo das estações ou anos para evitar as armadilhas da agricultura de monocultura”, diz ele.
Para contextualizar, a agricultura de monocultura é a prática de cultivar um tipo de cultura em um pedaço de terra a qualquer momento. Embora tenha alguns benefícios, há certamente desvantagens nesses métodos — incluindo a degradação do solo. “Como o café não é uma cultura rotativa, os produtores de Mayorga buscam outros métodos para diversificar”, acrescenta Juan.
Práticas comuns
À medida que mais e mais consumidores exigem café cultivado de forma sustentável, os produtores estão aproveitando seus conhecimentos para implementar práticas agrícolas eficazes que incorporem a diversificação das culturas.
O consórcio é uma delas. Conforme o programa de Pesquisa e Educação em Agricultura Sustentável, o consórcio é um termo abrangente para a prática de cultivar duas ou mais culturas nas proximidades — na mesma fileira ou leito, ou em fileiras, ou faixas que estão próximas o suficiente para interação biológica.
Há uma série de benefícios no consórcio, como maximizar a produtividade agrícola e incentivar o uso mais eficiente dos recursos — como água, luz e nutrientes. Ao longo do tempo, em comparação com os sistemas de monocultura, o consórcio também pode aumentar os rendimentos e melhorar a resiliência das plantas a pragas e doenças, bem como levar ao aumento da biodiversidade (que tem suas próprias vantagens).
A saúde do solo é essencial para a produção de café de qualidade, e a diversificação de culturas por meio do consórcio pode conservar e melhorar a saúde do solo. No mais, essa técnica de cultivo sustentável pode reduzir a erosão do solo e aumentar a matéria orgânica, a fixação de nitrogênio e a disponibilidade de fósforo.
Além do consórcio, outras técnicas incluem o plantio de culturas de cobertura e tampão, que fornecem cobertura de sombra e proteção contra o vento, geada e calor.

POR QUE A DIVERSIFICAÇÃO DE CULTURAS?
Indiscutivelmente, a razão mais óbvia para implementar práticas de diversificação de culturas é melhorar a sustentabilidade na fazenda e aumentar a resiliência dos produtores de café às mudanças climáticas — uma questão que se tornou cada vez mais difícil de ignorar.
Martin Mayorga é o fundador e CEO da Mayorga Coffee. “As mudanças climáticas e os custos internos mais altos estão afetando muito a produção”, ele me diz. “Estar preparado para o impacto é uma realidade importante, infelizmente.”
Um crescente corpo de pesquisa certamente apoia isso. Em um artigo da National Geographic de 2022, um estudo descobriu que, com café, abacate e castanha de caju, a produção de café será a mais atingida pelo aumento das temperaturas globais.
Descompactando o nexo de problemas
No entanto, não são apenas as mudanças climáticas que estão forçando os produtores de café a diversificar suas práticas agrícolas. Um mercado de café cada vez mais volátil tem visto o preço C atingir níveis quase recordes recentemente, embora os pequenos agricultores ainda não tenham recebido mais dinheiro. Como resultado, muitos estão se voltando para outras culturas comerciais.
Além disso, com os níveis de migração rural para urbana nos países produtores em ascensão — além de uma crescente diferença de idade na cafeicultura — está se dificultando reter trabalhadores qualificados nas fazendas de café. Portanto, para muitos produtores de café, essas questões complexas e inter-relacionadas levantam preocupações sobre um futuro sustentável para suas famílias e meios de subsistência. Além disso, surtos devastadores de doenças como a ferrugem mostram como a produção global de café pode ser vulnerável.
“Para os produtores, a terra é um ativo e o objetivo é maximizar a produção desse ativo”, diz Martin. Ele me diz que, após a epidemia de ferrugem de 2013 — que eliminou até 70% das colheitas dos cafeicultores latino-americanos — a Mayorga Coffee trabalhou com produtores no norte da Nicarágua para plantar sementes de chia como um meio de manter sua renda.
A empresa inicialmente ajudou 12 produtores de café a incorporar a chia em suas terras agrícolas, mas agora administra cerca de 840 produtores de chia na Nicarágua e expandiu o projeto para trabalhar com outros agricultores no Paraguai e no México para atender à crescente demanda.
Ao diversificar suas culturas, os agricultores conseguiram maximizar a eficiência agrícola de suas terras e seu retorno financeiro, impedindo-os de abandonar completamente a produção de café.

Diversificação de culturas e segurança financeira
O cultivo de vários tipos diferentes de culturas comerciais significa que os produtores podem diversificar seus fluxos de renda — o que é uma ferramenta útil para combater os baixos preços do café e a insegurança alimentar.
Juan explica que a produção de café por si só geralmente não ajuda a maximizar a produtividade da terra ou a gerar uma renda estável. Ele diz que isso ocorre porque o café é colhido apenas uma vez por ano e sua lucratividade é baseada em um mercado C volátil — portanto, os preços geralmente flutuam e permanecem baixos.
Em vez disso, Juan diz que plantar uma variedade de culturas adaptadas aos ecossistemas locais — como banana, abacate e árvores de madeira — pode produzir mais produtos em épocas de colheita mais curtas.
Com o nível certo de apoio e recursos, a diversificação das culturas pode ajudar os produtores de café a trabalhar em harmonia com suas terras e permitir que se tornem mais autônomos financeiramente.
Diversificação de culturas e agricultura orgânica andam de mãos dadas
No contexto da agricultura sustentável, a agricultura orgânica costuma ser o tema mais discutido. Mas o papel crucial que as práticas orgânicas desempenham na diversificação bem-sucedida de culturas é geralmente ignorado.
Martin reforça que os cafeicultores devem considerar diversificar suas fazendas e obter certificação orgânica ao mesmo tempo, pois ambos os sistemas são baseados em princípios semelhantes. “Sempre fico chocado com o fato de a agricultura orgânica não ser a norma, porque nos próximos dez a 15 anos os produtores terão problemas com a produção de café se não forem apoiados na transição”, diz ele. “Se você for a qualquer fazenda orgânica, o solo é saudável e úmido. Em fazendas convencionais, no entanto, o solo é seco. Não fornece nutrição às plantas.”
Obtendo certificações orgânicas
Para se certificar como orgânico, os produtores devem aderir a um conjunto rigoroso de padrões e práticas, incluindo:
- o não uso de fertilizantes químicos e sintéticos, pesticidas e herbicidas;
- implementar práticas que mantenham a saúde do solo e a biodiversidade;
- o não transbordamento de produtos químicos usados para culturas não orgânicas.
Embora possam ser caras, as certificações orgânicas trazem uma série de benefícios. Os produtores de café não apenas podem provar seu compromisso com a gestão ambiental para comerciantes, torrefadores e consumidores, mas a qualidade e os rendimentos também podem melhorar. Além disso, seu retorno econômico sobre o investimento pode aumentar significativamente a longo prazo – um sentimento que a Mayorga Coffee apoia. “É surpreendente para mim quantos produtores querem receber mais e querem ter uma produção melhor, mas não se concentram em melhorar a saúde do solo”, diz Martin.
“Como indústria, esquecemos que pedimos às pessoas que cultivam nossos alimentos que pulverizem produtos químicos em suas próprias terras. Eu pessoalmente descarto qualquer torrefador que não venda exclusivamente café orgânico quando eles dizem que se importam com os produtores. Não acho que podemos dizer que nos importamos com os produtores quando os vemos envenenar suas terras, eles mesmos e suas comunidades”, ele acrescenta.
Por esse motivo, a Mayorga Coffee começou a vender café orgânico em 1999 e obtém exclusivamente café orgânico certificado desde 2012. Martin explica que o torrefador trabalha principalmente com cooperativas. E independentemente disso também apoia produtores individuais a receber certificações orgânicas. Isso além de oferecer acesso a assistência agronômica e treinamento para diversificar com sucesso suas culturas.

COMO OS PRODUTORES PODEM COMEÇAR A DIVERSIFICAR SUAS PLANTAÇÕES?
A transição para a diversificação de culturas não é uma tarefa fácil. Sendo assim, os produtores precisam certamente de apoio de outros atores da cadeia de suprimentos. Juan me diz que o modelo de comércio direto da Mayorga Coffee, por exemplo, fornece aos pequenos produtores assistência técnica, sementes e acesso a compradores internacionais.
Atualmente, Mayorga se concentra em dois programas de diversificação de culturas: sementes de chia e feijão-preto. Mas há planos de diversificar para outras culturas que proporcionarão uma melhor renda para os produtores. O cultivo intercalado de grãos com café promove o controle natural de pragas e a boa saúde do solo, bem como o aumento da produtividade. E é por isso que Mayorga decidiu ajudar os agricultores a plantar os dois juntos.
“Os rendimentos dos produtores de café e sua capacidade de gerar renda mais do que dobraram ao cultivar chia”, diz Martin. “A produção de chia para nossos produtores na Nicarágua aumentou de um contêiner em 2012 para cerca de 50 em 2023. Em toda a empresa, moveremos cerca de 170 contêineres de chia em 2024.”
Compreender o mercado de culturas diversificadas pode ser um desafio para muitos produtores. Martin explica que é importante que os compradores entendam quando seus serviços agregam mais valor a uma comunidade agrícola e quando não o fazem. E que nem todas as tentativas de diversificar os mercados funcionam.
Finalmente, acompanhar as tendências emergentes – mas estáveis – do mercado é importante. Martin me diz que Mayorga está trabalhando continuamente ao lado dos produtores para testar novos produtos, como cúrcuma e quinoa.
O que os produtores devem saber de antemão?
Juan sugere que os produtores devem primeiro priorizar a determinação de quais práticas agrícolas funcionarão melhor para manter a saúde do solo. Em segundo lugar, diz ele, eles devem considerar quais culturas o mercado está exigindo, ao mesmo tempo em que equilibram culturas altamente valiosas com aquelas que crescem melhor com o café. Além disso, Juan me diz que cacau, gengibre, cúrcuma e grãos crescem bem em fazendas de café de baixa altitude. Já a chia pode crescer em áreas de sol pleno.
Mais importante, no entanto, Martin diz que os compradores não devem incentivar os produtores a plantar culturas e variedades de café promissoras sem apoio. “Independentemente das sugestões que estamos fazendo aos produtores, elas precisam fazer parte de um diálogo. E também entender o que é preciso fazer e o custo disso”, acrescenta. “E é melhor que os torrefadores estejam prontos para comprar e se comprometer.”

A diversificação de culturas aproveita gerações de conhecimento local e nativo para promover a biodiversidade e reforçar a estabilidade econômica dos produtores. E isso leva a uma ampla gama de benefícios.
Mas a transição para a adoção e implementação dessas práticas deve ser feita de forma completa e cuidadosa. E, além disso, contar com o apoio de comerciantes e torrefadores comprometidos com a construção de relacionamentos mutuamente benéficos.
Gostou? Em seguida, leia nosso artigo sobre como a diversificação de culturas pode combater os baixos preços do café.
Créditos das fotos: Mayorga Coffee
Tradução: Daniela Melfi. PDG Brasil
Observação: a Mayorga Coffee é patrocinadora do Perfect Daily Grind.
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